O Grupo Wagner não tem medo de dizer a Putin o que pensa sobre a guerra (e, assim, ganha poder)

CNN , Katie Bo Lillis, Natasha Bertrand, Zachary Cohen e Alex Marquardt
4 nov, 08:00
Soldados ucranianos (AP Photo/LIBKOS)

Um dos aliados mais próximos do presidente russo Vladimir Putin está a usar a discórdia à volta da guerra na Ucrânia para aumentar a sua influência dentro do Kremlin, disseram as autoridades dos EUA e da Europa, oferecendo um raro vislumbre da tensão crescente entre os aliados de Putin e a forma como a desastrosa guerra russa na Ucrânia está a afetar a dinâmica interna do Kremlin.

“É um 'House of Cards' da vida real, mas passado no Kremlin”, disse uma fonte próxima dos serviços de informação dos EUA. “Andam todos a esfaquear-se pelas costas.”

Yevgeny Prigozhin, líder da organização paramilitar Grupo Wagner, confrontou Putin diretamente com as suas convicções de que a guerra na Ucrânia está a ser mal gerida pelos principais generais que estão atualmente no comando, disseram à CNN fontes das autoridades dos EUA.

Membros dos serviços de informação dos EUA consideraram a reunião de Prigozhin importante o suficiente para ser incluída num dos briefings diários ao presidente Joe Biden, no mês passado. As queixas de Prigozhin acontecem num momento em que pelo menos um outro funcionário do Kremlin levantou preocupações semelhantes a Putin sobre a má gestão militar russa na guerra na Ucrânia, disseram à CNN duas fontes próximas dos serviços de informação.

Embora não se saiba bem como reagiu Putin a estas argumentações, os serviços de informação dos EUA acreditam que é mais uma prova de que Prigozhin, que não faz parte do governo russo, está a tentar consolidar a sua influência num momento em que os EUA estão a observar de perto as estruturas de poder dentro do Kremlin.

O Kremlin negou qualquer crítica interna à gestão da guerra.

“Essa informação é fundamentalmente incorreta”, disse à CNN o porta-voz do Kremlin, Dimitry Peskov. “O Presidente Putin realiza reuniões sobre a operação militar especial regularmente e todos os participantes expressam diferentes pontos de vista num ambiente de trabalho.”

O “The Washington Post” foi o primeiro a noticiar o encontro entre Prigozhin e Putin.

“Oportunidade de subir na carreira”

Prigozhin, em particular, usou o caos em torno do conflito para tentar impulsionar o seu próprio poder às custas do sistema de defesa russo, disseram membros dos serviços de informação dos EUA e do Ocidente. As forças dele têm desempenhado um papel cada vez mais proeminente no campo de batalha na Ucrânia como uma das várias forças de combate não oficiais a que Moscovo recorreu para resolver a escassez de mão de obra nas linhas da frente - forças que também estão a lutar umas contra as outras por influência.

O bilionário e empresário russo Yevgeny Prigozhin participa numa reunião com investidores estrangeiros no Palácio Konstantin a 16 de junho de 2016, em São Petersburgo, Rússia.

Os EUA acreditam que as queixas de Prigozhin a Putin se concentraram no Ministério da Defesa russo e na crença dele de que os generais russos estão a atrapalhar a operação e que devem ser usadas táticas mais agressivas, disseram as mesmas fontes.

Prigozhin proferiu críticas públicas contundentes ao Ministério da Defesa, no Telegram, que ecoam as suas mensagens privadas a Putin, criticando os generais à frente da guerra e apoiando uma abordagem mais agressiva. E ele acumulou vários seguidores digitais no Telegram, algo que o grupo de reflexão de Washington, o Instituto para o Estudo da Guerra, argumentou representar “uma situação cada vez mais desafiadora” à “monopolização do espaço de informação estatal” de Putin - com alguns bloguistas militares influentes da Rússia a sugerirem até que ele deve substituir o Ministro da Defesa, Sergei Shoigu.

Prigozhin “vê uma oportunidade de subir de posto”, disse Michael Kofman, analista especializado nas forças armadas russas do Centro de Análises Navais, e está “a procurar humilhar Shoigu na esperança de aumentar a sua influência”.

Os membros dos serviços de informação dos EUA estão muito interessados em determinar quão recetivo tem estado o líder russo a estas críticas por parte de membros de longa data que, anteriormente, pareciam muito seguros das suas posições, segundo fontes próximas da situação - em parte porque isso lhe pode permitir ver se Putin se está a sentir pressionado a tomar medidas mais drásticas na Ucrânia para recuperar o impulso.

Membros dos serviços de informações dos EUA e da Europa observam Shoigu há muito tempo, especulando que o desdobramento desastroso da guerra de Putin pode colocá-lo em terreno instável, no Kremlin.

Mas os mesmos serviços de informação sublinham que interpretar e prever com precisão as maquinações de poder dentro do Kremlin de Putin continua a ser mais uma arte obscura do que uma ciência pura e dura.

“É a Rússia - as tramas internas são intermináveis”, disse um oficial das Forças Armadas dos EUA.

Escassez grave de soldados

Enquanto a Rússia enfrenta uma escassez contínua e grave de soldados nas linhas da frente, Moscovo foi obrigada a recorrer a uma miscelânea de forças de combate fora do exército russo, incluindo não apenas o Wagner Group, mas combatentes tchechenos e milícias territoriais de duas províncias ucranianas separatistas.

Foram muitas as lutas internas entre esses grupos, disseram fontes, tornando quase impossível para Moscovo “controlar todos esses elementos de maneira coerente”, segundo uma fonte familiarizada com os serviços de informações ocidentais.

Crateras de artilharia e morteiros marcam o solo ao lado de um carro de combate russo destruído, a 23 de outubro de 2022 em Kam'yanka, Kharkiv, na Ucrânia.

Essa dinâmica contribuiu para uma já existente série de lutas de poder de alto risco em Moscovo, uma vez que as principais autoridades de segurança russas tentaram desviar a culpa - ou capitalizá-la – para o desastre que se desenrola na Ucrânia.

O Wagner Group surgiu como uma das forças de combate mais importantes disponíveis para a Rússia, disseram fontes, com os seus combatentes muitas vezes a serem tratados como descartáveis, de acordo com Kofman. Como os militares russos, Prigozhin quer preservar as suas melhores forças e, em resultado disso, está a recrutar combatentes das prisões russas como “carne para canhão”, segundo um membro dos serviços de informações europeus.

Prigozhin tentou explorar a dependência russa dos seus combatentes para acumular mais poder em Moscovo - embora para que fim ainda não seja claro, disseram fontes. Nas últimas semanas, tem-se mostrado cada vez mais disposto a contradizer Shoigu, de acordo com o membro dos serviços de informações europeus, mas permanece a dúvida sobre se ele quer que a sua organização seja formalmente integrada no exército russo.

Ainda assim, as forças de Prigozhin não conseguiram fazer avanços significativos na área de Bakhmut, no leste da Ucrânia, onde destacamentos do Grupo Wagner lutam sem sucesso desde o início do verão para tomar a cidade.

E há outros altos funcionários do Kremlin e muitos oligarcas russos que acreditam que a guerra deve terminar “porque as ambições de Putin são consideradas irreais”, disse um alto funcionário dos serviços de informações ocidentais à CNN. Não está claro, porém, se eles expressaram a sua oposição à guerra diretamente a Putin.

“O Kremlin está a andar na corda bamba”, disse o mesmo alto funcionário. “A mobilização é muito impopular na Rússia e todas as conversas sobre a contínua mobilização ou um recrutamento adicional são proibidas no espaço de informação controlado. Vários altos funcionários gostariam que a guerra acabasse porque as ambições de Putin são consideradas irreais. O mesmo pensam muitos oligarcas.”

“Ao mesmo tempo, temos pessoas como Prigozhin, [o líder tchecheno Ramzan] Kadyrov e certos militares influentes que querem que Moscovo ataque com tudo o que tem.”

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