O dilema ucraniano: quando um míssil de 2.000.000€ "não serve" contra uma arma russa de 50.000€

14 jul 2025, 22:36
Patriot

E há outro dilema: para combater a Rússia é mais útil um Advanced Precision Kill Weapon System II ou o Phased Array Tracking Radar to Intercept on Target? São dilemas importantes agora que se sabe que Trump vai enviar mais armas para a Ucrânia - a questão é se são as armas de que a Ucrânia precisa

Está desvendado o mistério sobre as "várias peças de equipamento militar muito sofisticado" que Donald Trump anunciou que os EUA vão enviar para a Ucrânia: são sistemas de defesa antiaérea Patriot. Nota prévia: os Patriot não abundam e são extremamente caros.

"Estamos a falar de valores absolutamente incomportáveis", diz o major-general Agostinho Costa. Quantos aos pormenores: cada sistema Patriot pode custar quase dois mil milhões de euros e cada míssil PAC-3 custa cerca de dois milhões - e de cada vez que a Ucrânia quer neutralizar um míssil balístico Iskander precisa de dois PAC-3.

Agostinho Costa faz outra ressalva: os "norte-americanos não podem dar o que não têm": "Recentemente, o Guardian noticiou que os EUA têm apenas 25% dos Patriot de que necessitam em relação às suas necessidades domésticas". "Os EUA conseguem produzir 60 mísseis PAC-3 por mês. Ora, isso não é muito e, fundamentalmente com a guerra dos 12 Dias entre Israel e o Irão, os sistemas de defesa antiaérea norte-americanos estão altamente depauperados. E estes 60 mísseis têm de ser suficientes para as necessidades dos EUA, para as necessidades da Ucrânia e para as necessidades de Israel", explica o major-general Agostinho Costa.

Cada míssil PAC-3 disparado por uma bateria Patriot tem um custo de quase dois milhões de euros e, em regra geral, são disparados aos pares foto Getty

Mas o que são os Patriot?

Em inglês, estas baterias antimíssil chamam-se Phased Array Tracking Radar to Intercept on Target - algo como radar de rastreio de matriz faseada para interceção no alvo. Têm a capacidade de intercetar mísseis balísticos, mísseis cruzeiro e até abater aeronaves hostis, tudo isto com o propósito de defender áreas estratégicas, desde cidades como Kiev a bases militares, passando por infraestruturas críticas como energia ou comunicações.

Cada bateria Patriot - ou sistema Partriot - é composta por um radar – capaz de rastrear, identificar e guiar os mísseis que dispara -, um centro de controlo, vários lançadores – cada bateria usualmente tem quatro ou seis lançadores -, geradores, antenas e, por fim, os mísseis defensivos PAC-1, PAC-2 ou PAC-3, sendo que na Ucrânia tem sido dada preferência a este último.

"Uma coisa é um míssil, outra coisa é o sistema", explica Agostinho Costa, referindo que estes PAC-3 têm um alcance que ronda os 300 km.

Na Ucrânia, estas baterias de fabrico norte-americano são essencialmente utilizadas para neutralizar mísseis balísticos, como os Iskander e Khinzal. Os mísseis PAC-1 e PAC-2 são "normalmente utilizados para neutralizar mísseis de cruzeiro, que são mísseis subsónicos", como é o caso dos Kalibr russos, detalha o major-general.

Ao contrário de outros sistemas de defesa aérea, que podem ser disparar mísseis verticalmente num ângulo perfeito de 90º, os Patriots tem os lançadores dispostos com uma ligeira inclinação, o que diminui o raio de ação dos PAC-3, que só podem ser disparados na direção da inclinação foto Getty

Os Patriot são a salvação da Ucrânia?

Agostinho Costa é perentório ao afirmar que "não faz sentido" toda a atenção mediática que tem sido dada aos Patriot. "Os Patriot não são uma panaceia", começa por dizer o major-general, sustentando que "o problema que os ucranianos têm neste momento não é ameaça dos Iskander". "Todos os dias vimos ataques com 500 ou mais drones e depois 10 ou 12 mísseis. O número de ataques com mísseis não aumentou grandemente, antes pelo contrário: deixámos de ver ataques russos feitos a partir de bombardeiros TU-95. Também não vemos ataques a partir de embarcações, vemos fundamentalmente ataques com drones Shahed".

Agostinho Costa consider que "a falta de Patriots é um falso problema". "O que a Ucrânia precisa é de sistemas que sejam eficazes contra drones porque a ameaça são os drones. Para a ameaça que a Ucrânia tem neste momento, os Patriots não servem porque ninguém vai gastar um míssil que custa perto de dois milhões de euros contra um drone que custa 50 mil ou menos", explica Agostinho Costa.

Para o especialista em Defesa, há duas certezas: "A questão da defesa aérea na Ucrânia é quase uma quadratura do círculo" e, diz, a solução não passa pelos Patriot. Agostinho Costa entende que mais útil para a Ucrânia teriam sido as 20 mil unidades do sistema APKWS-II que estavam prometidas e que antes da Guerra dos 12 Dias acabaram por ser desviadas pela administração Trump para Israel, como noticiou o Wall Street Journal.

O APKWS-II - ou Advanced Precision Kill Weapon System II - é um sistema de orientação laser capaz de transformar rockets Hydra 70 - lançados de helicópteros e caças - em mísseis de precisão. Em suma, trata-se de um kit de orientação e não de um míssil completo mas que é capaz de transformar um mero rocket num míssil teleguiado por laser de forma barata e leve.

"Isso é que faz falta aos ucranianos. Não são os Patriots", garante o major-general, realçando que a Rússia está a utilizar entre 500 e 700 drones por dia e, num curto período de tempo, este valor deverá atingir os 1.000 drones lançados a cada 24 horas: "É preciso ajustar a arma à ameaça".

Com os Patriots anunciados por Trump "estamos a falar em valores exorbitantes e que, em termos de relação qualidade/preço, são uma brutalidade", refere o major-general, destacando ainda outro problema central na defesa aérea ucraniana: a falta de coerência dos sistemas.

Em Israel, para projéteis e drones de curto alcance há a Iron Dome; para drones de médio e longo alcance há o David Sling; e para mísseis balísticos há o Arrow e o TAAD. Na Rússia, todos os sistemas são coerentes e de fabrico russo, diz. Enquanto isso, na Ucrânia, há sistemas franceses, sistemas norte-americanos, sistemas alemães, sistemas italianos: "É muito mais difícil fazer uma coordenação e uma integração de sistemas de diferentes conveniências".

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