Na frente da ucraniana, a fibra ótica que guia drones através da guerra começou a surgir entrançada em ervas secas e fibras vegetais, no interior de ninhos recolhidos por militares. Um desses ninhos ficará no Museu da Guerra, em Kiev. Outro viajará para os Países Baixos, onde investigadores tentarão descobrir que ave fez da tecnologia militar matéria de abrigo
Na mesa do Museu Nacional da História da Ucrânia na Segunda Guerra Mundial, em Kiev, há um ninho pequeno, leve, quase intacto. À primeira vista, parece feito da matéria comum dos ninhos: erva seca, fibras vegetais, fragmentos recolhidos no chão.
Depois a luz apanha outro fio.
Transparente, artificial, finíssimo. Um brilho que não vem da primavera. É fibra ótica.
O ninho foi encontrado perto da linha da frente na Ucrânia e enviado ao museu por militares. Não chegou sozinho. Há pelo menos outro exemplar tecido da mesma forma, com erva e restos dos cabos usados para guiar drones de ataque.
Um ficará em Kiev, integrado na coleção da guerra. O outro seguirá para os Países Baixos, onde será estudado antes de regressar.
Na frente, a fibra ótica deixou de ser apenas uma tecnologia. Tornou-se parte da paisagem. Fica presa nas árvores, atravessa campos, cai sobre telhados, acumula-se junto a estradas, trincheiras e aldeias destruídas. Ao sol, os fios parecem teias estendidas sobre uma guerra que já dura há mais de quatro anos.
Alguns cabos podem chegar a cerca de 20 quilómetros. Servem para ligar o drone ao operador e tornam o aparelho mais difícil de travar por guerra eletrónica, porque a ordem não segue pelo ar, segue por um fio.
A invasão russa em larga escala começou em fevereiro de 2022 com tanques, blindados e artilharia. A guerra, entretanto, mudou de escala e de linguagem. Os drones passaram a dominar uma parte crescente do campo de batalha.
Observam, procuram movimento onde a vida tenta esconder-se, perseguem, mergulham sobre o alvo até a imagem no ecrã se transformar em explosão.
Na linha da frente, de cerca de 1.200 quilómetros, a tecnologia militar deixa também resíduos quase invisíveis. E as aves começaram a recolhê-los.
“Objetos como ninhos de pássaros com fragmentos de fibra ótica demonstram a mudança na natureza da guerra”, observa à Reuters Yana Hrynko, investigadora sénior do museu em Kiev, ao examinar os exemplares enviados pelos militares.
Num deles, a composição é simples e perturbadora. “O primeiro ninho contém sobretudo erva seca e cabo de fibra ótica. E está bastante bem torcido”, descreve.
Ainda não se sabe que espécie o construiu. Também não se sabe como conseguiu transportar aqueles filamentos longos, frágeis e pouco naturais. O que existe, por agora, é este vestígio: uma construção animal feita com restos de uma tecnologia pensada para matar à distância.
As imagens começaram a circular online, publicadas por militares ucranianos nas regiões de Donetsk, Kharkiv e Zaporizhzhia. Eram fotografias e vídeos de ninhos encontrados perto da frente, feitos com materiais que até há pouco pertenciam ao circuito fechado da guerra.
Não eram armas capturadas, nem destroços de blindados, nem crateras abertas no chão. Eram outra coisa.
Pequenas arquiteturas de sobrevivência, erguidas com aquilo que a guerra deixou disponível.
A Ucrânia é um território importante para aves selvagens, com zonas húmidas, estepes, florestas, campos agrícolas e rotas migratórias. A guerra atravessa esses lugares como atravessa as cidades. Minas e munições por explodir ficam no solo durante anos. Incêndios, ruído, metais pesados, contaminação e destruição de habitats alteram ecossistemas que raramente entram nos comunicados militares. A natureza não aparece nos mapas da frente como uma força combatente, mas também é atingida.
O ninho de fibra ótica é uma imagem pequena dentro desse dano maior. Talvez por isso seja tão clara. As aves não distinguem tecnologia russa de tecnologia ucraniana. Não sabem a quem pertencia o fio, nem para que alvo conduziu um drone.
Recolhem o que existe. Onde antes havia ramos, palha, penas, lama e folhas, há agora também cabos militares.
Auke-Florian Hiemstra, biólogo neerlandês radicado em Leiden, estuda materiais artificiais usados por aves nos seus ninhos. Já encontrou plástico, metal, objetos urbanos e até estruturas feitas com dispositivos concebidos para afastar pássaros. Mas estes ninhos vindos da Ucrânia surpreenderam-no. “Vamos procurar vestígios de ADN ainda presentes no ninho para determinar quem realmente o construiu”, explica. “Nunca vi ninhos como estes. E já vi muitos, muitos ninhos de pássaros.”
O estudo poderá ajudar a identificar a espécie responsável e a perceber o efeito destes materiais. A resposta não é evidente. A fibra ótica pode prender patas, asas ou crias. Pode ferir. Pode emaranhar. Mas também pode tornar o ninho mais resistente, dando-lhe uma estrutura firme onde antes haveria apenas matéria vegetal.
“O impacto da fibra ótica nas aves pode ser misto”, admite Hiemstra, à Reuters também. “Pode causar dano, se as aves ficarem presas, mas também pode beneficiá-las, ajudando-as a construir um ninho forte.”
Há qualquer coisa de brutal nesta adaptação. A natureza não suspende os seus gestos porque os homens escolheram a guerra. As aves continuam a procurar abrigo, a juntar materiais, a preparar o lugar onde poderá nascer outra vida.
Fazem-no no mesmo território onde a tecnologia procura ver, alcançar e destruir sem que o operador esteja perto. O fio que num dia guiou um drone pode, noutro, segurar ovos frágeis.
No museu de Kiev, o ninho entra assim para a coleção da guerra. Não como troféu, não como arma, não como prova de uma vitória. Mas como sinal discreto de uma invasão mais profunda. A guerra chega aos corpos, às casas, às estradas, aos rios, aos campos e às árvores. Chega também ao gesto antigo de uma ave que constrói. “Quando documentamos este ninho, também estamos a documentar o impacto da guerra na natureza na Ucrânia”, sublinha Auke-Florian Hiemstra.
O ninho cabe nas mãos. Dentro dele há erva seca e cabo. Há uma primavera interrompida e há tecnologia militar. Há pássaros que não sabem o nome dos países e fios que atravessaram a frente para obedecer a uma ordem humana.
Agora, torcidos numa forma circular, já não guiam drones.
Guardam, ou guardaram, a possibilidade de vida. E deixam uma pergunta difícil no lugar onde quase tudo parece ter sido respondido pela força: que mundo nasce quando até os ninhos são feitos dos restos da guerra?
