Soldados ucranianos continuam a descrever as interações com um inimigo novo
“Eles são muito mais disciplinados, têm um moral e uma determinação excecionais. Foram completamente lavados cerebralmente.” É desta forma que um soldado ucraniano descreve a presença dos norte-coreanos em Kursk, onde chegaram cerca de 11 mil soldados enviados diretamente de Pyongyang para ajudar a expulsar as forças ucranianas de uma região russa onde estão desde agosto.
Puls, o soldado que falou à Sky News, indica que grande parte dos norte-coreanos acabaram por recuar no terreno, depois de terem percebido que estavam a ser incapazes de contornar as forças ucranianas. De acordo com as informações das secretas sul-coreanas ou britânicas, perto de quatro mil soldados de Kim Jong-un perderam a vida ou ficaram feridos nos poucos meses de guerra que levam.
São esses os resultados que equipas de assalto sem qualquer tipo de preparação, que nunca combateram uma guerra e que, tudo indica, nem sabem ao certo quem ou por quem estão a lutar.
“Penso que vão voltar em breve”, aponta Puls, que confirma os relatos de outras forças ucranianas, e que dão conta de táticas totalmente obsoletas do lado norte-coreano.
Entre o que já se conseguiu confirmar, e que as forças ucranianas descrevem como “algo vindo da Segunda Guerra Mundial”, os norte-coreanos tentam avançar perante ameaças como drones ou artilharia em grupos de 20, 40 ou 60 soldados. Uma tática que os faz ficar totalmente vulneráveis, e que mostra como os militares de Kim Jong-un não estão preparados para uma guerra real – uma das análises para explicar o envio de tropas norte-coreanas aponta precisamente para a intenção de Pyongyang de treinar os seus soldados para eventos futuros, incluindo uma possível invasão da Coreia do Sul.
Obstinados naquilo que é a sua tarefa, os norte-coreanos tentam avançar independentemente do que acontece. Puls ficou surpreendido ao perceber que, mesmo perante a morte de colegas, os soldados continuam a combater. É algo que acredita ser resultado de uma “lavagem cerebral”, que também explica outra situação: os norte-coreanos tentam sempre remover todas as provas da sua presença no cenário de guerra, incluindo os corpos dos soldados mortos.
De resto, e cumprindo aquilo que as secretas sul-coreanas acreditam ter sido uma ordem direta de Kim Jong-un, os soldados da Coreia do Norte tentam não ser apanhados vivos. Preferem matar-se, incluindo com a detonação de granadas. Um deles, conta Puls, foi ouvido a dizer “pelo general Kim Jong-un” antes de se fazer explodir.
Outro dos problemas é a comunicação. Sem falarem russo, os norte-coreanos não conseguem comunicar com o lado que estão a defender. Algumas comunicações intercetadas dos rádios confirmaram que soldados norte-coreanos alvejaram uma posição russa por engano.
Ainda assim, e até porque vêm de um dos melhores exércitos do mundo, chegaram a Kursk com melhores armas e até uniformes que muitos russos. É Puls que o garante, embora também tenha reparado que não têm armamento pesado, além de lhes faltar equipamento de deslocação, acabando a transportar munições com recurso a carrinhos de golfe.
“Estavam todos muito limpos, como modelos. Todos eles, sem barba, cabelo cuidado ou carecas. Também é difícil dizer a idade deles, pareciam todos ter entre 25 e 35 anos, talvez 40”, continua Puls, que comanda o primeiro batalhão de mergulhadores das Forças Especiais de Operações.
A este soldado entregaram uma missão: recolher amostras de ADN e documentos de uma unidade com cerca de 25 soldados norte-coreanos que foi toda morta com recurso a drones e artilharia.
Operação bem-sucedida, a equipa de Puls avançou em direção aos norte-coreanos, acabando surpreendida com o que encontrou. “Trainer”, nome de código para um dos soldados de Puls, lembra que apenas encontraram munições e… chocolate.
“Nem um soldado tinha uma garrafa de água. Eles viviam na ideia de que iam atacar, tomar as posições e depois comer e sobreviver dos nossos mantimentos”, refere o soldado, que encontrou “cartas, cadernos, notas, mapas desenhados à mão” e outros pertences nos bolsos dos soldados norte-coreanos.
“Também havia fotografias de crianças, mães, cartas que tentaram enviar para casa”, termina, confirmando que havia identidades russas nos bolsos norte-coreanos, informação que também já tinha sido confirmada pela Ucrânia junto de dois soldados capturados vivos.
Apesar do recuo, Puls acredita que os combates com os norte-coreanos não acabaram: “Eles ainda estão aqui, a treinar e à espera de reforços. Alguma coisa está a acontecer, vão volta rem breve”.