"No dia em que for a última linha vermelha, já não haverá tempo". Rússia inicia exercícios militares com milhares de tropas e a "arma absoluta"

12 set 2025, 07:00
Zapad (Getty)

A NATO passou no teste dos drones russos na Polónia, mas, 48 horas depois, há um novo foco de preocupação na Europa com Moscovo e Minsk a darem início a exercícios militares conjuntos. O supermíssil Oreshnik vai estar em destaque no ensaio bélico do Kremlin. Começou o Zapad

Às 06:45 de quarta-feira, o último de um total de 19 drones entraram no espaço aéreo da Polónia. Donald Tusk rapidamente ativou o artigo 4.º da NATO para chamar a atenção dos aliados e levar o incidente a discussão. Ainda não foi desta que o tenebroso artigo 5.º foi ativado, mas, cerca de 48 horas depois da crise diplomática, a Rússia vai dar início ao Zapad - que em russo se escreve Запад e em português se traduz para oeste -, um exercício militar conjunto com a Bielorrússia, que faz fronteira com a Polónia, com uma periodicidade cíclica e que tem início esta sexta-feira.

Este ensaio militar de grande escala vai contar com a presença de 13 mil soldados russos e bielorrussos, segundo Moscovo, mas os analistas ocidentais acreditam que o número real de militares deverá rondar os 30 mil, com Kiev a subir a parada para 150 mil tropas. Durante os exercícios, ou demonstração militar, o Kremlin vai realizar ataques e tentar evitar contra-ataques com armas nucleares e tem como pré-anunciado testes ao famoso míssil Oreshnik, capaz de atingir qualquer alvo europeu em dezenas de minutos.

Perante as movimentações russas e o armamento de ponta escolhido, surge a dúvida: devem os europeus estar ainda mais preocupados? O major-general Agostinho Costa, especialista militar da CNN Portugal, acredita que um Zapad com as dimensões que têm vindo a ser anunciadas "é um braço de ferro, um contrair dos músculos para mostrar força" do Kremlin. "Estamos a assistir a uma tempestade num copo de água", garante, lembrando que as tensões entre a NATO e a Rússia levaram o conflito a atingir o ponto conhecido como "a condução das operações por efeitos", em que qualquer ocorrência militar, mediática, económica ou política pode ser uma ação militar idealizada que visa exclusivamente produzir um determinado efeito.

Zapad de 2017 nas imediações da cidade de Borisov, na bielorrússia (Getty)

"Este exercício é uma mensagem, daquilo que têm vindo a dizer, que se for necessário escalam o conflito para o patamar nuclear. Mas já devíamos ter tomado consciência disso, porque o risco de um conflito nuclear tático na Europa existe", alerta o major-general, acrescentando que "o grande problema da Europa é que não leva a sério o Kremlin e isso é que é perigoso, porque passa-se uma linha vermelha atrás de outra, mas, no dia em que for efetivamente a última linha, já não haverá tempo".

No entanto, para já, o Zapad não passa de um ensaio militar do Kremlin. Para Tiago André Lopes, especialista em Relações Internacionais, não há qualquer mensagem subjacente ao exercício destinada ao Ocidente. "O Zapad é um exercício regular que acontece todos os anos e que foi comunicado a todas as autoridades locais como Lituânia, Polónia, Roménia e Estónia, foram todas notificadas", diz o comentador da CNN Portugal, lembrando que foi por isso mesmo que a Polónia fechou a fronteira com a Bielorrússia. Só depois do incidente com os drones abatidos na Polónia, em que pela primeira vez a NATO disparou contra alvos russos, "que felizmente não gerou nada para além de um telhado destruído", é que o Zapad começou a ser empolado.

"Tendo em conta o ambiente agora, poderia ter sido revista a intenção de se treinar com armas nucleares táticas, parece-me desnecessário. Agora, também não é anormal. Há vários exercícios militares, até da NATO que servem para testar este tipo de equipamento. Portanto, isto não há aqui nenhuma anormalidade. Agora, tendo em conta o ambiente diplomático atual, a questão é se deveria ter sido repensado? Deveria, obviamente que sim. Não é o momento certo para fazer este tipo de exercício", considera Tiago André Lopes.

"A arma que neutraliza todas as outras"

Entre o armamento que vai ser utilizado pelas forças armadas russas há um pouco de tudo o que se possa imaginar, tal como as armas nucleares táticas, mas existe um peça de engenharia bélica que se destaca de todas as outras: o já famoso míssil Oreshnik.

Foi o próprio Vladimir Putin o primeiro a explicar porque é esta uma arma especial: viaja dez vezes mais depressa do que a velocidade do som, tem um alcance de cinco mil quilómetros - podendo atingir qualquer alvo na Europa e na costa oeste dos EUA a partir da Rússia -, tem cabeças explosivas (pode ser equipado com ogivas nucleares ou convencionais que se separam para atingir vários alvos) e não pode ser intercetado.

Diagrama explicativo do modo de funcionamento do Oreshnik (Getty)

O tenente-general Rafael Martins explica que "este é um míssil poderosíssimo". Um míssil balístico de alcance "extremamente sofisticado, hipersónico, altamente manobrável e nem o sistema de defesa norte-americano Patriot consegue abater este tipo de ogivas", detalha o especialista militar da CNN Portugal, ressalvando que só os EUA e Israel conseguiriam, num dia de sorte, intercertar todas as cabeças explosivas de um Oreshnik. "Têm uma enorme capacidade de destruição e são minutos até chegarem a qualquer ponto da Europa", esclarece.

O Oreshnik é a sétima arma russa conhecida como "superweapon", isto é, superarma: 

  1. Avangard - um veículo hipersónico deslizante
  2. 9M730 Burevestnik - um míssil de cruzeiro nuclear
  3. 3M22 Zircon - um míssil de cruzeiro hipersónico antinavio
  4. Kh-47M2 Kinzhal - um míssil balístico hipersónico lançado do ar
  5. Poseidon - um veículo subaquático não tripulado 
  6. RS-28 Sarmat - um míssil balístico intercontinental superpesado
  7. Oreshnik - um míssil balístico hipersónico

Para Rafael Martins, "os europeus devem ser muito prudentes e vigilantes, porque não podem virar as costas à realidade, que tem demonstrado que às vezes por trás de um pequeno exercício existem outras intenções", tal como aconteceu antes da invasão da Ucrânia.

"Este míssil é chamado de arma absoluta, a arma que neutraliza todas as outras", acrescenta o major-general Agostinho Costa, sublinhando que o Oreshnik, mesmo sem estar carregado com ogivas nucleares, tem praticamente o mesmo potencial destrutivo das bombas compostas por urânio enriquecido devido à velocidade a que se desloca e a toda a inércia que transporta. "É uma arma hipersónica que entra na atmosfera a 10 ou 11 vezes a velocidade do som", destaca.

Uma arma, portanto, para inimigo ver. "Não há indicadores que apontem para uma intenção do lado de lá de abrir um conflito direto com a Europa, porque já tem problemas que lhe cheguem para conquistar o Donbass", garante o major-general.

Tiago André Lopes concorda que Moscovo só está "a mostrar músculo militar", porque o mundo entrou numa "guerra de perceções", em que tanto a NATO como a Rússia vão fazendo "provocações de parte a parte", tal como se tem visto ao longo dos últimos quatro anos.

Tanque russo no Zapad de 2017 nas imediações da cidade de Borisov, na Bielorrússia (Getty)

"O equilíbrio do terror" e a ultima ratio regum

Mas, ainda assim, a Europa deve estar consciente de dois fatores, na análise do tenente-general Rafael Martins. "A Rússia está numa economia de guerra e considera o Ocidente uma ameaça que lhe pode fazer frente." E para o especialista militar, sobretudo depois de ouvir o discurso do Estado da União de Ursula von der Leyen, muito provavelmente "a Europa vai entrar numa quase numa economia de guerra" e a Rússia já se está a sentir ameaçada, porque, a confirmar-se, "nos próximos cinco anos Moscovo vai viver uma realidade que não vivia até agora, em que tinha uma grande superioridade militar e isso pode inverter-se".

No entanto, até se podem andar a contar ogivas nucleares como medidor de poderio bélica, "mas isso só são números", porque, diz Rafael Matins, se houver este conflito nuclear será "a maior loucura que alguma vez a humanidade enfrentou". "Os números de ogivas são mais ou menos uma forma aritmética para manter este equilíbrio do terror, porque a racionalidade desenvolve-se em termos de paridade para que a dissuasão continue a existir", aponta.

"Sexta-feira será um dia como foi quinta, mais um a subir a escada da tensão", ironiza o major-general Agostinho Costa, alertando, porém, que "estamos, sem dúvida, num momento de alto risco" - "tenhamos noção disso e não minimizemos o assunto".

O especialista militar critica, ainda, o discurso do ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel,  sobre a guerra na Ucrânia, quando pediu uma "resposta dura" aos ataques russos. "O que é que o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros propõe? Quando entramos num conflito é porque houve a falência da política e diplomática", afirma, lembrando quando Luís XIV mandou gravar nos canhões de artilharia a expressão em latim ultima ratio regum - último argumento dos reis - para insistir na sua posição.

"Portanto, quando ouvimos os nossos diplomatas usar este tipo de linguagem e quando a alternativa é o Oreshnik, talvez seja a altura destes senhores e destas senhoras nos explicarem o que é que andam a fazer", culmina Agostinho Costa.

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