QUATRO ANOS DE INVASÃO || A horas da invasão total da Ucrânia, quão preparados estávamos para o que se ia passar? As manchetes faziam prever que era possível travar a guerra com sanções. Não foi
Cristiano Ronaldo nublado, João Félix a brilhar. A poucas horas da invasão total da Ucrânia, havia quem colocasse grande parte do foco no rescaldo de mais uma noite de Champions que, curiosamente, colocou frente a frente os dois jogadores que hoje são colegas de equipa. Na altura alinhavam no Manchester United e no Atlético de Madrid, respetivamente. O jogo, esse, acabou empatado a um.
O grande destaque noturno do El País ia para isso mesmo, mas minutos depois o foco recentrava-se num assunto que já tinha feito a primeira página de praticamente todos os jornais mundiais, incluindo dos portugueses. A guerra na Ucrânia, claro, que na altura não era sequer uma operação militar especial, mas antes uma miragem que uns mais que outros acreditavam que ia acontecer, embora sem prever quando e como.
Já se sabia que vinha aí coisa séria e, por isso mesmo, a maior parte das manchetes desse dia 23 de fevereiro fazem-se não tanto de questões militares, mas do derradeiro aviso de Estados Unidos e Europa para evitar que a Rússia efetivasse mesmo o seu desejo de entrar pela Ucrânia adentro.
Como nos conta o Público na manchete desse mesmo dia, “Europa e Rússia respondem a agressão da Rússia à Ucrânia com sanções tímidas”. Logo abaixo escrevia-se que havia “medidas pesadas guardadas para possível escalada do conflito”, mas a primeira página do dia seguinte mostraria que essa escalada estava iminente.
O destaque gráfico da primeira página do The New York Times mostrava que dificilmente se poderia esperar coisa diferente. Quatro imagens com a evolução da posição das tropas russas entre o final de 2021 e 20 de fevereiro de 2022 eram elucidativas: alguma coisa grande estava para acontecer.
Havia pontinhos por todo o lado. Em redor do Donbass, claro, o grande objetivo de Vladimir Putin, mas também na Crimeia e um pouco por toda a Bielorrússia, num claro efeito de tenaz que muitos chegaram a dizer que resultaria numa vitória fácil e rápida da Rússia.
Se o jornal norte-americano também dedicava o maior foco de texto ao bloqueio financeiro feito pelos aliados ao Kremlin, falando já concretamente de uma “invasão russa”, abaixo o foco era, aos olhos de hoje, mais certeiro: “Putin quer apagar a História. Quem escreverá o futuro da Europa?”.
A pergunta foi feita e a resposta continua sem dono, já que a Europa, no meio de toda a retórica, parece continuar sem líder, ainda que Emmanuel Macron continue a tentar empurrar França para a liderança do bloco, enquanto a União Europeia luta com fragilidades internas chamadas Eslováquia ou Hungria.
A análise escrita por Roger Cohen antecipava os “ecos dos dias mais negros” do Velho Continente e, embora não tenhamos chegado lá, nunca um conflito armado a envolver as potências europeias diretamente esteve tão perto desde a Segunda Guerra Mundial.
“A ação agressiva do presidente russo foi uma chapada na cara do presidente de França, Emmanuel Macron, que liderou os esforços para interagir com a Rússia”, pode ler-se, numa frase que recorda a vexante imagem da interminável mesa que virou figura central no Kremlin.
Por esta altura era já claro para muitos que não havia volta a dar e que os esforços diplomáticos feitos até então. O secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, cancelou a 22 de fevereiro a reunião que tinha marcada com o ministro russo dos Negócios Estrangeiros. “Para colocar as coisas de uma forma simples, a Rússia acaba de anunciar que vai retirar um grande bocado da Ucrânia”, acrescentou Joe Biden, que aproveitou para criticar o reconhecimento por parte de Moscovo da independência das autoproclamadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, no que foi o sinal claro de que se preparava algo maior.
“Ele está a montar um racional para se apropriar de mais território à força”, acrescentou o presidente norte-americano. E assim foi, sem tirar nem pôr.
Ainda no The New York Times, e numa altura em que vários meios de comunicação já estavam na Ucrânia, uma reportagem em Severodonetsk, na região de Lugansk, dava conta da situação já insustentável para parte dos ucranianos. É precisamente desta cidade, hoje dominada pela Rússia, que chegou a fotografia que dá a capa a este artigo, com uma mãe e um filho a fugirem da sua cidade perante a o cerco das tropas russas. A resistir desde 2014, Lugansk é agora totalmente controlada pela Rússia.
Ainda a ilusão
Se havia a noção de que no terreno a situação era já complicada em várias frentes - no Donbass a guerra existia desde 2014 -, havia também quem pensasse na ilusão de resolver o problema com diplomacia ou pelo menos com avisos.
Já vimos que Antony Blinken desistiu dessa via no dia anterior à invasão total, mas o Ocidente acreditava que a total expulsão da Rússia daquilo que é o sistema internacional podia fazer Vladimir Putin recuar. Nada mais errado, já que ainda hoje a União Europeia continua a aplicar sanções - fala-se no 20.º pacote - e Moscovo parece continuar a ignorar, ainda que se notem alguns efeitos na indústria petrolífera.
"Estados Unidos e Europa castigam a Rússia com sanções pela agressão à Ucrânia", escrevia o El País a 23 de fevereiro, ainda antes do tal apagão de Cristiano Ronaldo e consequente iluminismo de João Félix. O destaque principal do diário espanhol até ia para a política interna, mas havia a sensação de que o bloqueio à Rússia podia ajudar a conter.
Sensação ou até mesmo ilusão, já que não demorou nem um dia para se concretizar a invasão total. O mesmo El País sublinhava que "Kiev prepara-se para os piores cenários". Pois bem, horas depois a preparação teve de passar à prática.
No britânico The Times a ideia era a mesma. Apesar da nota de que os Estados Unidos avisavam para uma invasão total a caminho, havia um ângulo que ainda sobrevivia na esperança das sanções impostas pelo Ocidente.
Numa primeira página quase exclusivamente dedicada à situação na Ucrânia, lembrava-se a exigência do parlamento em que o governo do Reino Unido, na altura ainda com Boris Johnson - apenas há quatro anos, mas já há três primeiros-ministros. A nota de que as secretas norte-americanas falavam na transferência russa de reservas de sangue e de mantimentos médicos para a fronteira era o sinal claro para justificar que a invasão estava mesmo a caminho.
A acompanhar vinha um mapa com destaque especial para o Donbass, até porque ainda havia quem pensasse que, mesmo a acontecer, a invasão se ficaria apenas por Donetsk e Lugansk, o que se veio a provar errado. Aquele mapa, que à data ainda tinha cidades como Mariupol do lado ucraniano, virou completamente, sendo hoje preenchido na sua quase totalidade pelas forças russas, no que é a pequena vitória que Vladirmi Putin ainda consegue mostrar para dentro.
Com reportagens a partir de Moscovo, Kiev e Washington, o The Guardian também preferia focar-se nas sanções, deixando de fora a palavra invasão, preferindo uma opção mais em aberto: "Ameaça de guerra cresce", lê-se na manchete, que faz alusão ao reconhecimento da Rússia da independência das autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk.
Não há, de resto, qualquer menção à palavra invasão, mas antes notas das sanções aplicadas pelo Ocidente, com destaque para a suspensão por parte da Alemanha do processo de aprovação do Nord Stream 2, gasoduto que ligaria Moscovo à Europa para a tornar ainda mais dependente do combustível russo.
A horas de ver a invasão efetivar-se, o The Guardian preferia uma linguagem mais defensiva do que muitos outros britânicos. Além de não haver a palavra invasão, não havia qualquer menção para uma análise que a admitisse, mesmo que num cenário mais longíquo. Desde então, será justo dizer que o diário britânico é dos que mais destaque dá à guerra.
Utilizando exatamente a mesma imagem que o The Guardian, o Financial Times também dava o seu maior destaque ao conflito na Ucrânia. Os tanques que se acumulavam em Rostov, de onde sairiam rumo ao Donbass, eram a escolha gráfica.
No entanto, e talvez até pelo lado económico de uma guerra, o foco era feito nas sanções e também na suspensão do Nord Stream 2. "Os aliados do Ocidente devem agora proceder às sanções à dívida russa, aos bancos e empresas de energia, ao círculo íntimo de Putin e aos oligarcas próximos dele", pode le-se.
Com notas de que as ações russas estavam a reagir bem à hipótese de um agudizar do conflito, ao contrário das ocidentais, o Financial Times sublinhava que o próprio Vladimir Putin tinha dito que podia não ser necessário fazer entrar as suas forças no Donbass. Não só foi, como não se limitou ao Donbass, estendendo-se mesmo para a invasão total.
E é também na primeira página deste diário britânico que vem uma pequena nota para o homem que viraria figura incontornável da guerra. "O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, pediu ao Ocidente que 'não espere' até a Rússia escalar a campanha", pode ler-se, numa nota que dava conta de que o chefe de Estado ucraniano avisava que a agressão já tinha mesmo começado. Touché.
Talvez pelas ligações mais sensacionalistas ao tablóide Daily Maily, o The i Paper era menos otimista e mais alarmista na sua manchete. "Putin deixa a Europa à beira de uma guerra", lê-se em letras garrafais que encimam um tanque a passear nas ruas de Donetsk.
Nessa mesma primeira página a análise de Patrick Cockburn revela-se certeira: "Putin rasgou quaisquer perspetivas de uma solução diplomática na Ucrânia". Este jornal é mesmo dos que fala mais insistentemente de uma "invasão total" da Ucrânia, não circunscrevendo essa possibilidade apenas ao Donbass.
De resto, as sanções aplicadas pelo Ocidente são referidas apenas ao de leve. Na prática, e provavelmente sem o saber, o The i Paper afastava-se da utopia de umas negociações para se aproximar da realidade de uma guerra total.
Em França também não se falava em guerra. Falava-se antes numa "faca de dois gumes" para o presidente, Emmanuel Macron, que andou a tentar liderar a Europa e o Ocidente em Moscovo. Como já vimos, sem qualquer sucesso e até com algum enxovalho.
A crónica de Gilles Paris para o Le Monde naquele 23 de fevereiro lembra que Emmanuel Macron estava a semanas da eleição que ia decidir a sua reeleição. Com dificuldade em desfazer-se de óbvias ligações a Vladimir Putin e à Rússia, a sua grande opositora tentava criticar o presidente pelo uso de diplomacia como forma de campanha.
Como ela, também Jean-Luc Mélenchon criticava aquilo que dizia ser um aproveitamento político da presidência francesa. A crítica ganhou imagem depois com a publicação no Instagram de uma série de fotografias de Emmanuel Macron a trabalhar.
"Ele desempenhou papéis se conteúdo real. É inútil esperar que faça melhor. Ele pode fazer pior", avisou o candidato do França Insubmissa, arriscando mesmo dizer que o presidente de França se tornou num "isco" para Vladimir Putin.
As eleições, Emmanuel Macron venceu-as, a diplomacia é que nem por isso. Já antecipando que esse campo se tinha perdido, também o Le Monde tinha equipa no terreno, naquilo que já chamava linha da frente. E com toda a razão. A Ucrânia está em guerra desde 2022, mas parte da Ucrânia está assim desde 2014.
"É preciso que a opinião pública ocidental se mostre", pedia um soldado ao jornal francês na declaração que foi para título. "Embora a Rússia já não esconda a sua presença militar no Donbass, as unidades ucranianas foram instruídas a não responder às provocações do inimigo", continua o Le Monde, que foi para Pisky, a 10 quilómetros de Donetsk, tentar perceber o que aí vinha.