"Ninguém está a salvo". Como "uma das estratégias mais eficazes" da Ucrânia está a fazer o que as sanções não conseguiram

8 fev, 08:00
O petroleiro Boracay, que supostamente pertence à chamada frota fantasma da Rússia, quinta-feira, 2 de outubro de 2025, ao largo de Saint-Nazaire, costa atlântica da França. (AP Photo/Mathieu Pattier)

Enquanto os governos ocidentais se perdem em burocracias e tetos de preços contornáveis, Kiev decidiu levar a economia de guerra russa para o fundo do mar. Do Mar Negro ao Mediterrâneo, a frota-fantasma de Putin está a descobrir que não existem portos seguros

É uma combinação explosiva para o Kremlin. Ao longo de quatro anos, o governo russo surpreendeu o mundo com a sua capacidade de manter o elevado esforço de guerra, apesar de toda a pressão imposta pelo Ocidente. Subiram-se impostos e as taxas de juro alcançaram níveis nunca antes vistos para fazer frente aos enormes custos do conflito mais violento na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Mas isso não era suficiente. Era preciso vender petróleo, muito petróleo. Durante quatro anos, o plano funcionou, mas agora está a falhar, tudo graças a uma mudança de estratégia ucraniana. 

"É uma das estratégias mais eficazes da Ucrânia. Zelensky, com drones marítimos, está a conseguir reduzir o número de navios disponíveis e os armadores também ficam sem vontade de operar. Esta medida já levou a uma redução significativa das receitas russas. A longo prazo, é uma medida muito forte", explica o tenente-general Rafael Martins.

Como todas as guerras, a invasão russa da Ucrânia é um complexo jogo de adaptação, com cada lado a tentar adaptar a sua estratégia para contrariar a estratégia adversária. Durante os primeiros três anos do conflito, o governo ucraniano baseou a sua estratégia de ataque aos cofres do Kremlin através da pressão aos líderes ocidentais, para que estes tomassem medidas para restringir as receitas que o Estado russo obtinha para financiar uma indústria de guerra que passou a consumir entre 6% a 7% do PIB do país.

O plano inicial dos países ocidentais foi a criação de um mecanismo que estabelecia um teto no preço da compra do barril de petróleo russo em 60 dólares. Mas a Rússia foi rápida a adaptar-se e começou a adquirir centenas de navios petroleiros antigos com propriedade opaca para transportar petróleo fora da jurisdição de seguros ocidental. Pouco depois, foi a vez do corte gradual de 90% das importações de petróleo russo por via marítima para a Europa, privando a Rússia de um dos seus maiores mercados. Mas também aqui os russos se adaptaram, com a Ásia a compensar a perda deste mercado, embora com margens de lucro menores devido aos custos logísticos.

A ineficácia das sanções políticas levou as autoridades em Kiev a adaptar a sua estratégia. Um novo tipo de sanções era necessário para atingir as receitas do Kremlin e prejudicar a sua capacidade de financiar a guerra. O plano foi apresentado pelo chefe do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), Vasyl Malyuk, e passa por uma série de ataques diretos contra os navios da "frota-fantasma russa". O chefe das secretas ucranianas chamou-lhes "sanções cinéticas". E, ao contrário das medidas impostas pelo Ocidente, estas acabaram por ter um impacto quase imediato.

No início de dezembro do ano passado, o custo que a Rússia tinha de suportar para garantir o seguro destes navios disparou 300%. Um mês depois, em janeiro, esse valor duplicou, depois do sucesso dos ataques ucranianos contra dois petroleiros gregos que se preparavam para serem carregados de petróleo russo. Segundo fontes da indústria, em declarações à agência Reuters, os navios que navegam para portos russos ou ucranianos no Mar Negro ou terminais ao redor do Mar de Azov exigem um seguro adicional contra riscos de guerra, normalmente estabelecido por um período de sete dias, cujos termos são revistos a cada 24 horas. E estas condições tornam os seus preços "extremamente voláteis". 

E esta medida está a ter um impacto direto nos principais operadores. Vários transportadores que inicialmente aceitaram continuar a operar na Rússia, apesar de estarem a contribuir diretamente para o financiamento russo, estão a equacionar as suas operações. É o caso de um dos maiores operadores turcos, Besiktas Shipping, que anunciou que vai deixar de transportar carga russa, depois de um dos seus petroleiros ter sofrido explosões na costa do Senegal, no final do ano passado. A empresa decidiu parar a operação por considerar que a situação "escalou consideravelmente". 

"São embarcações obsoletas, sem o mínimo requisito para navegar. E muitas delas funcionam sem os sistemas de georeferenciação que todos os navios têm de ter. A Rússia alugou armadores e navios que estavam encostados. É um risco para a segurança ambiental", explica o tenente-general Marco Serronha.

Laboratório da guerra assimétrica

Tal como está a acontecer na Ucrânia, onde a tecnologia de drones está a dominar por completo o campo de batalha, a mesma revolução está a ocorrer no mar alto. Desde os primeiros meses de guerra, quando a Marinha ucraniana foi privada de navios, os oficiais ucranianos recorreram ao desenvolvimento de drones para atingir a Marinha russa com sucesso. Nesse primeiro ano, os drones navios conseguiram atingir alvos a 400-600 quil+ometros. Desde então, as distâncias não param de aumentar e os novos drones já percorrem distâncias de mil quilómetros, o que lhes permitiu atingir várias vezes o porto de Novorossiysk a partir de bases em Odessa.

O custo benefício destes ataques é difícil de descartar. Com apenas um drone Magura V5, que custa 250 mil euros, os ucranianos foram capazes de destruir navios de guerra que custam dezenas ou até mesmo centenas de milhões de euros. Desde 24 de fevereiro de 2022, a Ucrânia destruiu ou danificou 24 navios militares russos a operar no mar Negro, de acordo com o ministério da Defesa do Reino Unido.

Mas esses ataques foram apenas o início para o que viria a ser uma verdadeiro laboratório de guerra assimétrica. Inicialmente os drones eram lançados da costa, o que fez com que a Rússia se afastasse. Por isso, a Ucrânia desenvolveu novas táticas. Para contornar as limitações de combustível e bateria, os ucranianos passaram a utilizar barcos civis ou cargueiros comerciais como bases de lançamento móveis. São uma espécie de "navios-mãe" que transportam os drones escondidos em rampas camufladas e lançados contra o alvo quando estão a 100 ou 200 quilómetros de distância.

Além disso, para contrariar os helicópteros russos que caçam drones à superfície, Kiev equipou as suas unidades navais com mísseis antiaéreos R-73. Agora, o drone não é apenas um projétil, mas uma plataforma de combate capaz de abater ameaças aéreas para garantir que chega ao seu destino final: o casco de um petroleiro.

Ao mesmo tempo, desenvolvimentos tecnológicos criaram novas versões de drones que se tornaram muito mais difíceis de detetar. É o caso do novo Sub Sea Baby, que é capaz de navegar abaixo da linha da água, o que o torna praticamente invisível aos radares e às câmaras térmicas dos navios russos. . Foi esta tecnologia que permitiu o ataque cirúrgico ao submarino da classe Varshavyanka em pleno porto de Novorossiysk.

"Para a Rússia, o custo não é só económico. Isto é uma humilhação. A Rússia acredita ser uma superportência mas a sua frota do Mar Negro foi obrigada a refugiar-se em novos portos, bem mais longínquos. E mesmo assim não estão a salvo", acrescenta Rafael Martins.

Caça à Frota-fantasma

A audácia de Kiev não se limita às águas territoriais. O ano de 2025 tornou-se o "ano de ouro" da caça à frota-fantasma, com pelo menos 11 navios atingidos, incluindo oito petroleiros. O que surpreende os analistas militares é a expansão geográfica. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, registaram-se ataques a navios comerciais não militares no Mediterrâneo, ao largo das costas da Líbia, Turquia e Itália.

Até o Mar Báltico, tradicionalmente sob vigilância russa, foi palco de explosões no porto de Ust-Luga. Esta capacidade de projeção de força sugere que a Ucrânia não se sente limitada por fronteiras. Especialistas acreditam que muitos destes ataques, embora não assumidos oficialmente, utilizam minas magnéticas, uma tática clássica de sabotagem naval que exige uma informação de proximidade excecional.

Embora a frota-fantasma russa seja vasta, a estratégia ucraniana é cirúrgica. Os ataques têm como alvo o chamado "núcleo duro" da frota, um grupo restrito de navios que faz múltiplas escalas anuais em portos russos e que é essencial para manter o fluxo de caixa do Kremlin. Estima-se que as operações ucranianas já tenham neutralizado entre 5% a 10% deste núcleo vital.

Esta pressão "cinética" surge no pior momento possível para Moscovo. Com o recente endurecimento das sanções ocidentais, que baixaram o teto do preço do petróleo para 47,6 dólares, e a saída em massa de armadores gregos do mercado russo, o Kremlin debate-se com uma escassez de navios. Aqueles que restam enfrentam agora um dilema existencial sobre se o lucro da exportação compensa o risco de uma explosão em pleno mar.

A Ucrânia joga também com as zonas cinzentas do direito marítimo. Muitos dos navios da frota-fantasma navegam com bandeiras falsas ou registos inexistentes. Quando dois petroleiros foram atingidos em novembro, descobriu-se que usavam ilegalmente a bandeira da Gâmbia. Ao serem removidos do registo, estes navios tornaram-se "apátridas", perdendo qualquer proteção legal ou direito a seguros, o que deixa os seus proprietários sem base para processos judiciais em tribunais internacionais.

Enquanto a Rússia tenta retaliar atacando portos ucranianos como Chornomorsk, o cálculo de Kiev permanece inalterado. Para uma nação que enfrenta uma ameaça existencial, o risco de retaliação é um preço aceitável para paralisar a economia de guerra do invasor. O cenário é de uma vulnerabilidade russa sem precedentes. 

"A mensagem é de que não há navios a salvo: a Ucrânia está a conseguir acertar no colosso russo com uma criatividade e um alcance extraordinário", afirma o especialista Rafael Martins.

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