Naufrágio do Moskva: o que aconteceu realmente com o orgulho da frota da Rússia?

CNN , Brad Ledon
16 abr, 19:58
O navio Moskva, que afundou no Mar Negro.

ANÁLISE Navio-almirante da frota russa foi ao fundo, o que alterou os acontecimentos na guerra da Rússia na Ucrânia

O cruzador russo de mísseis guiados Moskva repousa nas profundezas do Mar Negro. A Ucrânia afirmou que atingiu o Moskva com mísseis, fazendo-o afundar. A Rússia insistiu que o motivo do naufrágio foi um incêndio. Na sexta-feira, os Estados Unidos apoiaram a versão da Ucrânia, com um alto funcionário da defesa a dizer que acredita que dois mísseis ucranianos Neptune atingiram o navio de guerra russo no Mar Negro.

Se o navio está no fundo do mar como vítima de mísseis ucranianos, incompetência russa, má sorte ou uma combinação dos três permanece em debate. O que é certo, porém, é que a maior perda de um navio de guerra em 40 anos levantará questões preocupantes, não apenas para Moscovo, mas para estregas militares em todo o mundo.

O que causou o naufrágio?

O navio afundou na costa da Ucrânia, no Mar Negro, na quinta-feira. A Ucrânia diz que atingiu o Moskva com mísseis de cruzeiro, que provocaram o incêndio que detonou as munições.

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A Rússia divulgou a sua própria versão dos eventos: o Ministério da Defesa da Rússia afirmou que um incêndio de origem desconhecida detonou as munições armazenadas do navio e as explosões deixaram o Moskva com danos estruturais. E disse que o navio de guerra afundou num mar agitado, enquanto era rebocado para um porto próximo. De acordo com o relatório da agência de notícias estatal russa TASS, que citou uma fonte não identificada, a tripulação do navio foi entregue no porto de Sebastopol, na Crimeia. A TASS não forneceu detalhes adicionais sobre o número de tripulantes resgatados do navio.

O Moskva estava armado com uma série de mísseis antinavio e antiaéreos, bem como torpedos, canhões navais e sistemas de defesa antimísseis, pelo que teria grandes quantidades de explosivos a bordo.

Autoridades de inteligência dos EUA não acreditam que o navio carregasse armas nucleares no momento do naufrágio, disseram à CNN dois altos funcionários dos EUA com conhecimento da última avaliação da inteligência norte-americana.

Quando foi a última vez que um navio desta dimensão foi perdido numa guerra?

O cruzador argentino General Belgrano foi torpedeado e afundado pelo submarino britânico HMS Conqueror em 2 de maio de 1982, durante a guerra das Ilhas Malvinas. O General Belgrano e o Moskva eram de dimensão semelhante - cada um com cerca de 182 metros de comprimento e deslocando 12 mil toneladas - embora a tripulação de cerca de 1.100 a bordo do General Belgrano fosse mais do dobro do tamanho da tripulação do Moskva, de cerca de 500.

Uma imagem sem data do cruzador argentino, o General Belgrano.

A Rússia não divulgou o número de vítimas ocorridas durante o incêndio do Moskva e o seu subsequente naufrágio. Um total de 323 tripulantes morreram quando o General Belgrano foi ao fundo.

O que significa para o esforço de guerra russo a perda do Moskva?

O maior efeito pode ser na moral russa. Como navio-almirante da frota russa do Mar Negro, o Moskva foi um dos seus ativos mais visíveis na guerra da Ucrânia. Embora Moscovo gira cuidadosamente as notícias sobre a guerra na Rússia, será difícil esconder a súbita ausência de um navio tão grande. A sua perda levantará dúvidas sobre as capacidades de combate da Rússia, seja devido a ação inimiga ou a acidente.

"Ambas as explicações para o naufrágio do Moskva indicam possíveis deficiências russas - ou defesas aéreas deficientes ou procedimentos de segurança incrivelmente negligentes e controlo de danos no comando da Frota do Mar Negro", escreveram os analistas Mason Clark, Kateryna Stepanenko e George Barros, do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), no seu “briefing” diário.

Carl Schuster, um antigo capitão da Marinha dos EUA, disse que as dúvidas chegaram ao Kremlin. "Isto levanta questões sobre a competência naval, dez anos depois de [o Presidente Vladimir] Putin ter anunciado que iria restabelecer as capacidades, a moral e o profissionalismo da marinha", afirma Schuster.

"Parece que ele não foi capaz de manter nenhuma das suas promessas para qualquer dos serviços militares da Rússia", acrescenta Schuster, observando que a Rússia também sofreu reveses em terra. Mas os analistas estão divididos sobre o impacto que o naufrágio terá na invasão russa.

Os analistas da ISW veem isto como um golpe relativamente pequeno, afirmando que o navio foi usado principalmente para ataques com mísseis de cruzeiro a centros de logística e aeródromos ucranianos. A Rússia tem sistemas terrestres e aeronaves de ataque que podem fazer a mesma coisa, defendem. No entanto, acrescentam que, se de facto foi um míssil ucraniano que o que causou o naufrágio, a marinha russa terá de repensar as suas operações, possivelmente movimentando navios para mais longe do território ucraniano e ajustando as suas defesas aéreas.

Em Washington, o porta-voz do Pentágono, John Kirby, afirmou que a principal missão do Moskva era a defesa aérea das forças russas no Mar Negro. "Isto terá um impacto nessa capacidade, certamente no curto prazo", disse Kirby aos jornalistas.

O cruzador russo Moskva numa foto de satélite no Mar Negro, a 10 de abril.

Uma lição para a China?

Analistas dizem que o naufrágio será cuidadosamente estudado no leste da Ásia, especialmente se for confirmado que mísseis ucranianos atingiram o navio de guerra. Em particular, os analistas estarão à procura de qualquer aprendizagem sobre qualquer potencial conflito militar envolvendo Taiwan - a ilha democraticamente governada que o Partido Comunista de Pequim reivindica como parte do seu território. Pequim não descartou o uso da força para obter o controlo de Taiwan, o que causou tensões com os EUA, que estão comprometidos em fornecer armas defensivas à ilha.

Timothy Heath, investigador sénior de defesa internacional do think tank RAND Corp., disse que o ataque ao Moskva destacaria, tanto para a China quanto para os EUA, "a vulnerabilidade dos navios de superfície" em qualquer potencial confronto militar. Segundo Heath, em tal cenário a Marinha dos EUA gostaria de manter os seus navios de superfície fora do alcance dos mísseis anti-navio que Pequim acumulou no continente chinês.

A China, por outro lado, estará ciente de que Taiwan estava a adquirir mísseis anti-navio baratos, semelhantes àqueles com que a Ucrânia alega ter atingido o Moskva, afirmam analistas como. Por causa disso, "qualquer possível invasão [chinesa] de Taiwan continua a ser uma missão de risco extremamente alto", acrescenta Heath.

Apesar disso, alguns analistas acreditam que o naufrágio do Moskva tem relevância limitada para a situação no leste da Ásia.

Thomas Shugart, um ex-comandante de submarinos da Marinha dos EUA que agora é analista do Center for a New American Security, sublinha que havia muitas diferenças entre as situações. Os sistemas de defesa aérea do Moskva não estão no mesmo nível dos sistemas Aegis mais modernos dos destroyers da Marinha dos EUA, e os mísseis anti-navio ucranianos não são tão bons quanto os chineses, disse Shugart. Que conclui afirmando que navios de guerra da era soviética, como o Moskva, são tipicamente "conhecidos pelo seu ‘murro ofensivo’, não pelos seus sistemas defensivos ou controlo de danos".

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