'Natificação'. Joe Biden inventou uma palavra para lançar a cimeira de Madrid (com muitas mensagens para Putin)

António Guimarães , enviado-especial a Madrid
29 jun, 11:10

Mensagens dirigidas a Vladimir Putin dominaram os discursos dos Estados-membros, enquanto todos esperam que o processo de adesão de Finlândia e Suécia seja rápido

"Vamos deixar claro que a Rússia coloca uma ameaça direta à nossa segurança". Este foi o ponto de ordem à entrada para a cimeira da NATO em Madrid, um encontro que se espera ser o mais importante dos últimos 50 anos. A frase é do secretário-geral da Aliança Atlântica, que espera uma cimeira "histórica e transformadora", mas podia muito bem ter sido de qualquer um dos chefes de governo ou de Estado dos 30 Estados-membros.

Espanha, Reino Unido ou Estados Unidos, todos se referiram especificamente ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, sendo que o primeiro-ministro espanhol disse mesmo que esperava ver definido que a Rússia é o principal inimigo da organização.

"Estamos a enviar uma mensagem clara a Putin: não vai vencer", afirmou Pedro Sánchez, que colocou o dedo na ferida ao dizer que a Rússia vai passar de um "parceiro estratégico" a "principal ameaça".

Terá sido por isso que o presidente dos Estados Unidos anunciou que vai reforçar a presença militar norte-americana em toda a Europa para que a NATO possa responder a ameaças “vindas de todas as direções e em todas as áreas”. Joe Biden falava do destacamento de mais unidades navais e aéreas, com o reforço da frota norte-americana em Espanha e da força aérea no Reino Unido, bem como o envio de tropas para a Roménia e um aumento da capacidade defensiva nas bases existentes na Alemanha e na Polónia.

"Putin estilhaçou a paz na Europa. Vamos intensificar a nossa presença", afirmou, reiterando que "estamos a provar que a NATO é mais precisa que nunca".

Números que não contam com o reforço de efetivos nos países de leste, que a NATO espera que passe de 40 mil para 300 mil militares, numa proposta que deve ser aprovada em Madrid. À chegada ao centro de congressos IFEMA, o primeiro-ministro português garantiu que Portugal participará de “forma adequada às circunstâncias” do país no anunciado reforço de tropas.

“Aguardamos que o comando da NATO faça uma precisão da distribuição das capacidades que são necessárias e da nossa contribuição”, acrescentou António Costa, que sublinhou ainda que este aumento de oito vezes das tropas em prontidão é um aumento global e “não quer dizer que cada país aumente oito vezes a sua disponibilidade”.

Tudo isto deve culminar na assinatura do novo conceito estratégico, que se espera vir a definir a política de defesa da NATO para a próxima década.

Apoio à Ucrânia

E a ameaça russa surge por causa da invasão à Ucrânia, que continua a pedir diariamente ajuda militar, especificamente à NATO. O chanceler da Alemanha não esqueceu essas necessidades, e foi a voz mais exuberante sobre a matéria, pedindo mais "contribuições para que a Ucrânia se consiga defender", nomeadamente através de "meios financeiros, ajuda humanitária", mas também do fornecimento de "armas de que a Ucrânia necessita urgentemente".

"A mensagem é: vamos continuar a fazê-lo - e a fazê-lo de forma intensa - enquanto for necessário para permitir à Ucrânia que se defenda", afirmou Olaf Scholz.

China na agenda (um novo adversário?)

Se a maioria dos olhos se colocam na Rússia, a NATO não quer deixar de falar de outra potência mundial: a China, que recentemente tem intensificado manobras militares perto de Taiwan, território autónomo que já admitiu temer uma invasão.

"A China não é um adversário. Mas claro que temos de ter em consideração a nossa segurança quando vemos a China a investir de forma pesada em novas capacidades militares, mísseis de longo alcance ou armas nucleares, além de tentar controlar infraestruturas críticas, como o 5G", disse Jens Stoltenberg.

Entradas de Finlândia e Suécia

O levantamento do veto da Turquia à entrada de Finlândia e Suécia na NATO vai ter um efeito contrário ao que Vladimir Putin pretendia. Pelo menos é isso que espera Jens Stoltenberg. Ao lado de Joe Biden, e já depois de todos os outros representantes terem chegado, o secretário-geral da NATO afirmou que o presidente russo "queria menos NATO, mas está a ter mais NATO". O presidente dos Estados Unidos aproveitou então para introduzir um neologismo, apelidando estas esperadas adesões de "'natificação' da Europa".

Para que isso aconteça deve ser o dado primeiro passo, esperando-se o convite formal ainda durante a cimeira, até porque Finlândia e Suécia são dois dos países que vão participar como convidados.

Feito o convite, segue-se o processo de ratificação, o que implica que a proposta tenha de ser aprovada pelos 30 parlamentos dos Estados-membros. Uma tarefa que Jens Stoltenberg sabe que pode ser mais demorada que o ideal, mas que o responsável quer ver acelerada: "A Aliança deve ratificar a proposta tão rápido quanto possível".

A julgar pelas palavras de António Costa, Portugal será dos países onde o processo poderá andar mais rápido. À chegada à cimeira, o primeiro-ministro disse que o evento começou "da melhor maneira", referindo-se ao desbloqueio turco, aproveitando depois para alinhar com o desejo de Jens Stoltenberg, afirmando que o processo de ratificação em Portugal será "bastante rápido".

"Começamos da melhor maneira esta cimeira da NATO, com a entrada da Finlândia e da Suécia", referiu.

Também com os olhos em Vladimir Putin, e num tom semelhante aos restantes, o primeiro-ministro do Reino Unido disse que ficou provado que o presidente da Rússia estava "completamente errado" nas esperanças de reduzir o domínio da NATO.

"A primeira lição de hoje é que, se Vladimir Putin esperava conseguir menos NATO na sua fronteira a Ocidente como resultado da sua invasão ilegal e não-provocada da Ucrânia, ele estava completamente enganado. Está a ter mais NATO", vincou Boris Johnson, falando depois de uma cimeira "histórica em muitos sentidos".

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