"Não vejo saída". O que a Ucrânia precisaria para a missão quase "impossível" de reconquistar territórios aos russos

14 jul, 09:00
Um soldado ucraniano do batalhão de Khartia descansa depois de patrulhar a linha da frente perto de Kharkiv (AP Photo/Evgeniy Maloletka)

Especialistas de estratégia militar estimam que a guerra só acabe "pela via negocial", caso contrário, corre o risco de ficar "congelada" numa "guerra intermitente", com territórios ocupados, à semelhança do conflito entre Israel e Palestina

As últimas semanas da guerra têm sido marcadas pelos avanços das tropas russas na Ucrânia, nomeadamente no Donbass, obrigando à retirada dos militares ucranianos, que começam agora a contra-atacar e tentar reconquistar as cidades que ficaram nas mãos dos russos - Kherson, Mykolaiv ou Zaporizhzhia. Mas os especialistas militares não perspetivam um bom desfecho para a Ucrânia, que enfrenta uma tarefa quase "impossível" no terreno.

Nestes quase cinco meses de guerra, parece já evidente que "a Ucrânia tem sido mais eficaz em ações defensivas do que em ações ofensivas", começa por apontar o major-general Agostinho Costa. É certo que o exército ucraniano já conduziu algumas ações ofensivas - como ocorreu em Kharkiv, há cerca de um mês, quando conseguiram empurrar os russos para a fronteira - mas há algumas limitações do ponto de vista militar que impedem uma "ofensiva geral", acrescenta o também vice-presidente da EuroDefense.

"A Ucrânia precisa de uma maior capacidade de artilharia - que não tem - e acima de tudo falta-lhe um aspeto determinante para uma contra-ofensiva, que é a superioridade aérea. Não há ofensivas sem superioridade aérea", sublinha o especialista militar.

Os ucranianos precisam, por isso, de mais artilharia pesada, de blindados, e de um maior controlo do espaço áereo - que os russos detêm, "tanto na parte da aviação como dos mísseis", acrescenta.

O sistema de lança-foguetes HIMARS - uma arma muito solicitada por Zelensky e que finalmente chegou à Ucrânia no início de junho, enviado pelos Estados Unidos - tem sido utilizado pelo exército ucraniano para "fazer mossa", sobretudo nos postos de comando e depósitos russos. O major-general reconhece que "os HIMARS são importantes, mas são muito poucos ainda e do outro lado [russo] há sistemas semelhantes", como o Uragan soviético.

Além de "mais e melhor artilharia", os ucranianos precisam de treinar o exército, que conta com cerca de 700.000 combatentes (em oposição aos cerca de 350.000 militares russos), mas que provêm de "defesas territoriais, estão mal treinados e não estão motivados".

Para tal, muito vai contribuir o plano de treinos promovidos pelo Reino Unido, que está a treinar 10.000 ucranianos precisamente com o objetivo de "mudar a equação" da guerra. "Mas 10.000 não é um número muito significativo", acrescenta o major-general, salientando que o "fator determinante" para os ucranianos é mesmo o "tempo".

"Uma unidade militar tem de ter treino, liderança, experiência, moral, motivação. E isso ganha-se com tempo, não se faz de um dia para o outro. Hoje os ucranianos estão em dificuldade, daqui por seis meses poderão não estar", assinala.

Neste contexto, o especialista militar prevê que seja "mais plausível" uma contra-ofensiva favorável aos ucranianos só na primavera: "Isto vai demorar bastante tempo. Se falarmos numa contra-ofensiva na primavera, estamos a ser razoáveis. No imediato, não. Aliás, esta formação que os britânicos estão a dar - que é uma formação básica - é uma formação para quatro meses, para cada leva de militares."

Isto significa que só no fim do ano é que estarão prontos os primeiros 10.000 militares que estão a receber esta formação. "E 10.000 não chegam para uma contra-ofensiva. Tem de ser, no mínimo, 150.000", aponta.

Por sua vez, Pedro Borges Graça, professor de estratégia do Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas da Universidade de Lisboa (ISCSP), admite que será "muito difícil, senão mesmo impossível, fazer chegar armas pesadas e em volume aos ucranianos".

Isto porque os russos têm um sistema de informações e de inteligência que monitorizam todos os locais possíveis por onde poderão passar essas armas até chegar à Ucrânia. "Elas têm de ser concentradas em grande volume nos países limítrofes - Roménia, Polónia, etc., - para passar a fronteira. E essa passagem é feita por estrada ou por comboio, mas isso está tudo monitorizado", avisa.

Além disso, acrescenta, a Rússia está constantemente a atacar as redes de abastecimento dos ucranianos - uma estratégia que, aliás, tem cumprido desde início. Recentemente, as tropas de Moscovo lançaram um míssil que atingiu o túnel ferroviário dos Montes Cárpatos, um projeto inaugurado em 2018, construído com financiamento europeu e que era o principal meio de comunicação da União Europeia com a Ucrânia.

"Acho muito difícil que os ucranianos consigam aguentar com os russos sem equipamento pesado. E para terem equipamento pesado, precisam de redes de abastecimento a funcionar e que os russos não os ataquem", afirma.

Ainda é possível terminar a guerra pela via da negociação?

Para o major-general Agostinho Costa, "esta guerra só acaba pela via negocial", caso contrário, corre o risco de ficar "congelada". Pedro Borges Graça tem a mesma opinião, apontando mesmo como "cenário possível" uma "guerra intermitente", com territórios ocupados, à semelhança do conflito entre Israel e Palestina.

"Por agora, ainda há a possibilidade de negociar um cessar-fogo e depois ver como se recupera território ou não, mas como isso parece ser impossível, porque ninguém quer perder a guerra de nenhum lado, há aqui uma incógnita", acrescenta Pedro Borges Graça.

O especialista em estratégia diz mesmo que estamos perante "uma nova guerra fria" protagonizada desta vez por "um ator principal - a Rússia" e "um intermediário - a Ucrânia", que leva "por arrasto" a aliança anglo-americana, a UE e a NATO.

"Na antiga Guerra Fria, existia uma espécie de acordo de cavalheiros em que as partes não atacavam as redes de abastecimento dos intermediários. Aqui isso não acontece, porque a Rússia desde o início fez não só uma ameaça nuclear, como também disse que atacava qualquer rede de abastecimento que chegasse à Ucrânia".

Neste contexto, o professor de estratégia admite "não ver saída para os ucranianos". "Eles estão num dilema perante os avanços imparáveis dos russos", conclui.

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