Mulher foi executada na praça pública em Kherson, de onde chegam relatos de terror

4 nov, 23:46
Ucranianos protestam contra a presença russa em Kherson (Olexandr Chornyi/AP)

Tetyana Mudryenko ficou conhecida por não se vergar aos ocupantes

Capturada pelas forças russas logo no início da guerra na Ucrânia, a região de Kherson é agora palco de terror. Apesar de ser esperada uma retirada das tropas de Moscovo, quem lá vive não se esquece do que foram os últimos meses.

É o caso de Natalia Chorna, que desde o início avisou a sua irmã sobre reclamações e protestos contra a presença russa na região. Avisos em vão, uma vez que Tetyana Mudryenko acabou morta em praça pública, tudo por ter afirmado que a sua cidade natal, Skadovsk, era território ucraniano.

Com efeito, desde 30 de setembro que a Rússia não reconhece esse cenário, depois de ter anexado a região, tal como fez com Donetsk, Lugansk e Zaporizhzhia, na sequência de referendos que foram criticados pela comunidade internacional.

De acordo com várias testemunhas, e com a propria Natalia Chorna, Tetyana Mudryenko foi arrastada pelas ruas por funcionários das autoridades apontadas por Moscovo, acabando enforcada numa execução pública.

“Na ocupada Skadovsk não podes ter a tua opinião”, afirma Natalia Chorna ao Financial Times, a quem relatou um cenário de terror naquela localidade para todos os que ousam a desafiar a autoridade imposta pelo Kremlin.

Para Tetyana Mudryenko o fim foi o pior, mas aqueles que sobrevivem vivem sobre constante ameaça: os cerca de 15 mil habitantes da vila costeira são presos ou roubados dos seus pertences diariamente quando protestam contra os ocupantes.

No caso desta mulher, uma pediatra de profissão, o seu fim foi consequência de várias confrontações com as tropas russas. Natalia Chorna lembra como, num dia, as duas colocaram balaclavas e Tetyana Mudryenko confrontou um grupo de soldados russos.

“Ela olhou para o orc, mesmo nos olhos dele, e perguntou: ‘Porque estás aqui? Vais disparar sobre mim’?”, recordou a irmã, que descreveu depois um caso mais recente, mesmo antes da morte da mulher. Tetyana Mudryenko repreendeu um polícia ucraniano e gritou “Skadovsk é Ucrânia”. Natalia Chorna soube de tudo à distância, uma vez que fugiu para Dnipro em abril. E foi também à distância que soube do rapto da irmã, levada, com o marido, por polícias ucranianos que estavam a colaborar com a Rússia.

Durante dias ninguém soube do casal, até que, uma semana depois, Natalia Chorna recebeu a chamada de uma mulher a contar que a irmã tinha sido executada na praça pública.

“Colocaram-lhe algo na boca e depois enforcaram-na em frente ao tribunal”, disse, acrescentando que o marido da irmã tinha sido libertado com um braço partido e outros sinais de violência. Depois disso foi autorizado a enterrar o corpo da mulher.

Empenhada em saber o que tinha acontecido exatamente, Natalia Chorna ligou para a morgue local a pedir a confirmação da morte da irmã. No serviço começaram por recusar falar com ela, mas acabaram por confirmar a morte, acrescentando que a causa do óbito era “asfixia mecânica”, o que significa que tinha sido aplicada uma forte pressão sobre o pescoço da vítima.

Natalia Chorna não conseguiu confirmar a veracidade da história, mas o Financial Times reviu a certidão de óbito e as mensagens de texto que confirmam a versão do enforcamento.

O caso de Tetyana Mudryenko é mais um entre vários. A organização não-governamental Iniciativa Mediática para os Direitos Humanos registou-o, tal como os serviços de informação, que a 14 de outubro diziam ter registado “vários casos de homicídio e tortura durante a ocupação” da região de Kherson.

Em paralelo, e depois de terem admitido uma retirada das zonas na margem oeste do rio Dniepre, há soldados russos a ocupar as casas de quem fugiu para território controlado por Kiev ou dos que foram deportados para a Crimeia. É que Skadovsk, em zona de forte presença russa, fica a menos de 100 quilómetros da península anexada pela Rússia em 2014. Mesmo que Kherson venha a ser libertada, a vila continuará em mãos russas por muito tempo, uma vez que está bem longe da linha da frente de combate.

E se já seria difícil lá chegar, mais ainda será no futuro. Skadovsk vai ser a nova zona de estabelecimento da administração russa na região de Kherson, perante a iminente saída das forças de Moscovo da principal cidade daquela zona, com o mesmo nome.

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