Ministro russo destacado para Kherson repreende comandantes no terreno, a quem chama de "saqueadores corruptos" e "ralé"

CNN , Olga Voitovych, Jo Shelley e Joshua Berlinger*
7 out, 20:00
Uma vista aérea mostra a cidade de Kherson a 20 de maio de 2022, durante a ação militar russa na Ucrânia (CNN)

Um alto funcionário russo, que se encontra na Ucrânia, disse, quinta-feira, que os fracassos militares do país se devem à incompetência que se tem verificado nos mecanismos militares de defesa do Kremlin.

Num vídeo de 4 minutos, publicado no Telegram (aplicação de mensagens encriptadas), Kirill Stremousov, o ministro nomeado por Moscovo - e que se encontra instalado na região de Kherson, Ucrânia, zona fortemente ocupada pela Rússia - atribuiu as culpas das perdas militares na sua jurisdição aos "comandantes incompetentes" que não foram responsabilizados pelos seus erros.

Os comentários de Stremousov têm surgido, à medida que Kiev tem feito avanços, com sucesso, para recuperar partes do sul e leste da Ucrânia, zonas estas que a Rússia ocupou nas primeiras semanas de guerra.

Propagandistas pró-russos e analistas militares culparam esta série de perdas no que eles consideram como “tratar-se de erros dos militares russos”. No entanto, poucos oficiais russos que se encontram em solo ucraniano têm criticado, publicamente, o esforço de guerra por parte de Moscovo.

Kirill Stremousov no seu escritório, com um retrato do presidente russo Vladimir Putin na parede atrás dele, na cidade de Kherson, Ucrânia, a 20 de julho (Getty Images)

Stremousov alegou que um "pequeno número" do que ele chamou de "saqueadores corruptos e outro tipo de ralé" foram responsáveis pelas "lacunas" no campo de batalha. Ele apontou como culpado o ministro russo da Defesa, Sergei Shoigu, ao dizer que ele "permitiu que esta situação acontecesse".

Membros do parlamento e oficiais regionais da Rússia começaram a fazer críticas semelhantes aos militares russos. Alegaram que não foram enviadas tropas suficientes para manter as partes do leste e sul da Ucrânia, zonas estas que as forças russas ocuparam nas semanas iniciais do conflito.

O coronel-general Andrei Kartapolov, chefe do Comité de Defesa da Duma, disse, quinta-feira, que as autoridades precisam de "parar de mentir" sobre os desenvolvimentos no terreno.

"As pessoas sabem. O nosso povo não é estúpido", disse Kartapolov numa entrevista a um jornalista russo.

Andrei Kartapolov, ao centro, segura um cartaz de um oficial do exército russo, que foi morto durante a guerra na Ucrânia, a 9 de maio, data do 77.º aniversário da vitória sobre a Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial, em Volgogrado, Rússia (Kirill Braga/Reuters)

Ramzan Kadyrov, líder da Tchetchénia, criticou, no sábado, a retirada da Rússia da estratégica cidade oriental de Lyman, na região de Donetsk. Kadyrov, um aliado-chave do presidente Vladimir Putin, disse que as tropas russas "não receberam nem as comunicações, nem as munições necessárias".

Kherson e Donetsk são duas das quatro regiões que a Rússia planeia anexar, numa clara violação do direito internacional. Donetsk e Lugansk situam-se no leste da Ucrânia e, desde 2014, os combates nas repúblicas separatistas, apoiadas por Moscovo, têm-se intensificado. Kherson e Zaporizhzhia situam-se no sul da Ucrânia e foram ocupadas pelas forças russas, pouco depois de a invasão começar no final de fevereiro.

Um porta-voz militar ucraniano disse, na última semana, que os militares ucranianos tiveram ganhos significativos em Kherson. Libertaram mais de 400 quilómetros quadrados do território, num período de tempo não especificado. Stremousov negou isso. Ele disse que as tropas russas estavam "a reter o ataque" e que os avanços da Ucrânia "tinham sido interrompidos".

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse que as comunidades de Novovoskrensenske, Novohryhorivka e Petropavlivka foram libertadas. Isso sugere que as forças ucranianas estão a fazer progressos pela zona interior da região. Os militares ucranianos disseram que as unidades russas estavam a sofrer perdas significativas em Kherson. Na quarta-feira, estes tentavam retirar, de forma segura, militares feridos através do rio Dnipro, ao passo que Kiev avançava mais ao longo da sua margem oeste.

*Tim Lister da CNN, Uliana Pavlova, Josh Pennington e Alex Stambaugh contribuíram para esta reportagem

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