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Comentador da CNN Portugal

A outra guerra de Zelensky

17 jul 2025, 09:25

“A luta da Ucrânia é, dizem todos em Kyiv, pela sobrevivência e pela liberdade. Verdade absoluta. Mas não há liberdade sem Estado de direito. E não há vitória moral se a democracia for sacrificada em nome da resistência.”

Em guerra há mais de três anos, a Ucrânia não trava apenas batalhas nas trincheiras de Donetsk ou Zaporizhia. Há outra frente, mais silenciosa, mas igualmente decisiva: a da sua política interna. Esta semana, Volodymyr Zelensky anunciou a substituição do primeiro-ministro Denys Shmyhal por Yulia Svyrydenko, uma economista de 40 anos, antiga vice-primeira-ministra. A nomeação não é apenas administrativa. É um sinal — e talvez um alarme.

O timing não podia ser mais revelador. No terreno, o Exército ucraniano resiste com dificuldade, são números oficiais, ao poder de fogo russo. A ajuda ocidental, longe de um cheque em branco, converte-se numa conta paga a prestações. Em Bruxelas e Washington ouve-se o compromisso de manter Kyiv “o tempo que for preciso”, mas a fatura vem com condições. E no caso europeu, isso nunca foi tão claro como nos últimos dias: os 50 mil milhões prometidos em ajuda militar (ao longo de vários anos) implicam, na prática, que a Europa vai pagar aos Estados Unidos por sistemas de armas, munições, manutenção — assegurando também a base industrial americana. Vai assegurar não só a continuação da guerra, como assegurar que mantém a frente de batalha longe da “sua” Europa. 

A Ucrânia terá, assim, o armamento de que precisa — mas às custas de alianças económicas que reforçam a dependência estratégica. Isto não é apenas solidariedade: é também um negócio. E não é claro que a sociedade ucraniana esteja indiferente a esse custo e muito menos está a Europeia. 

Porque há outro dado que raramente se discute nos salões europeus: a fadiga da guerra transparece nas sondagens mais recentes de 2025. Um inquérito do Kyiv International Institute of Sociology (KIIS) realizado entre maio e junho indicou que 43 % dos ucranianos aceitariam um reconhecimento de facto do controlo russo sobre territórios ocupados, desde que sem reconhecimento legal formal, e com garantias de segurança. Apenas 24 % aceitariam esse reconhecimento “de jure”. Em contrapartida, 52 % opõem-se categoricamente a qualquer concessão territorial. Uma outra sondagem de fevereiro a março de 2025 apontava que 39 % estariam dispostos a ceder território para alcançar a paz, enquanto 50 % recusavam qualquer cedência. Estes números — 43 %, 24 %, 39 %, 50 %, 52 % — revelam de forma crua uma sociedade dividida entre a exaustão, o luto por familiares e casas destruídas, e o medo existencial de que ceder território signifique abrir portas a futuras agressões. Porque a guerra, afinal, não se faz apenas de mapas e estratégias: faz-se de corpos.

Zelensky sabe disso. A mudança de governo pode ser lida como uma resposta política a esse cansaço. Em Yulia Svyrydenko, o presidente escolhe um rosto mais jovem, tecnocrata, com reputação reformista — e talvez com maior capacidade de transmitir esperança interna e fiabilidade externa. Mas a verdade é que o governo de Kyiv tem sido tudo menos estável. As demissões em cascata ao longo de 2023 e 2024 (governadores, ministros, até chefias militares) mostram uma Presidência que sente a pressão social e política de um país em mobilização quase total.

Mas há uma questão ainda mais séria: para além da fadiga de guerra, cresce o risco de erosão democrática.

O Kyiv Independent, num editorial corajoso, alertou esta semana para a tentação autoritária de um Estado sob lei marcial. Citou casos concretos: Vitaliy Shabunin, conhecido activista anticorrupção, acusado de “evasão militar” apesar de se ter voluntariado no início da guerra — um processo que cheira mais a retaliação do que a justiça. Falou também da recusa parlamentar em confirmar um chefe independente para a Agência Nacional Anticorrupção. Mencionou pressões sobre a imprensa crítica, num clima em que tudo parece concentrar-se na Presidência.

Estes sinais preocupam. A luta da Ucrânia é, dizem todos em Kyiv, pela sobrevivência e pela liberdade. Verdade absoluta. Mas não há liberdade sem Estado de direito. E não há vitória moral se a democracia for sacrificada em nome da resistência.

A Europa precisa de ter esta conversa com a Ucrânia. Precisa de continuar a apoiar sem hesitações a sua luta contra a agressão russa — mas também de exigir clareza política. Afinal, até o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano anunciou ontem que Kyiv está “disposto à paz”. A pergunta impõe-se: qual é a proposta ucraniana para a paz, conhecendo a realidade actual? Porque sem uma definição clara do que Kyiv quer negociar — ou do que considera inegociável — não há como pedir à Europa (e ao Ocidente) um apoio político, militar e financeiro coeso e eterno. 

Zelensky terá de liderar esta conversa dentro de casa. Caberá ao novo governo não apenas mobilizar recursos e garantir salários aos militares, mas também reorientar a narrativa política. Há um desafio delicado: honrar o sacrifício de quem combate e, ao mesmo tempo, dar espaço à política, ao debate, à pluralidade. Em tempos de guerra, pode parecer um luxo. Mas é, na verdade, o fundamento último da causa ucraniana, a liberdade. 

A defesa da Ucrânia é essencial. Mas não pode servir de pretexto para abrir mão dos valores que se pretende preservar. A responsabilidade do governo Zelensky, com a nova primeira-ministra, é dupla: proteger o país da agressão russa e proteger a democracia dentro de casa. Sem isso, não haverá vitória completa — apenas uma paz amarga e frágil, que todos fingirão celebrar.

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