No seu livro de memórias, a ex-chanceler alemã considera "ilusório" pensar que colocar a Ucrânia no caminho da adesão à NATO a "teria protegido da agressão de Putin
Angela Merkel justifica a sua recusa em permitir a adesão da Ucrânia à NATO em 2008 dizendo que teria sido “brincar com o fogo” ignorar a oposição da Rússia. A eurodeputada considera "ilusório" pensar que colocar a Ucrânia no caminho da adesão à NATO a "teria protegido da agressão de Putin e que este estatuto teria funcionado como um dissuasor, ou que Putin teria aceite estes desenvolvimentos de ânimo leve". Esta é uma das revelações feitas em "Liberdade: Memórias 1954 - 2021", o livro de memórias da quatro vezes chanceler alemã, cujos excertos foram publicados pelo semanário Die Zeit na quarta-feira.
Merkel foi muito criticada por na cimeira da NATO em Bucareste, em abril de 2008, ter resistido aos esforços para oferecer à Ucrânia e à Geórgia um calendário concreto, conhecido como “plano de ação para a adesão” (MAP). A chanceler disse na altura que dar o estatuto de MAP às duas antigas repúblicas soviéticas teria sido uma promessa de adesão à NATO que dificilmente poderia ser revertida.
No livro, Angela Merkel afirma que a principal razão para bloquear a adesão da Ucrânia foi o facto de a frota russa do Mar Negro ainda estar estacionada na Crimeia, a península que era controlada por Kiev até à anexação por Moscovo, em 2014. "Era inédito que um candidato à NATO estivesse tão ligado às estruturas militares russas", escreve. "Além disso, na altura, apenas uma minoria da população ucraniana apoiava a adesão à NATO: o país estava profundamente dividido."
Merkel diz que teria sido "brincar com o fogo" discutir o estatuto de MAP para a Ucrânia e a Geórgia sem analisar a situação na perspetiva de Putin, que deixou claro que queria restaurar o estatuto de grande potência da Rússia. A alemã considera que Putin está “sempre pronto a distribuir punições” e não está interessado em construir “estruturas democráticas”.
A cimeira de Bucareste terminou com um compromisso. A Ucrânia e a Geórgia não obtiveram o estatuto de MAP, mas a aliança concordou que “estes países tornar-se-ão membros da NATO”.
