O futuro não é o que vai acontecer. É o que decidirmos fazer. O futuro da Ucrânia dependerá, em grande medida, de Londres e de que os europeístas convencidos no seio do Conselho prevaleçam sobre os europeístas agnósticos, que só acreditam na União quando lhes convém.
Os Estados Unidos traíram novamente a Europa. Seja qual for a versão do plano que foi circulado ou a língua em que foi redigido, entregaram a Ucrânia de bandeja, decidindo em Washington aquilo que deveria ter sido concertado com Kiev e Bruxelas. Podemos falar de estratégias negociais, mas a realidade crua é que a nossa segurança, influência e voz no mundo continuam subordinadas a uma potência bipolar que alterna interesse e conveniência. Mas é precisamente neste momento de abandono que emerge uma oportunidade única. A União Europeia dispõe de ferramentas jurídicas, institucionais e económicas para responder. De resgatar a Ucrânia de uma capitulação iminente e reverter a lógica de dependência, assumindo um papel estratégico que lhe foi negado, demasiadas vezes por culpa própria.
A primeira linha de ação reside nos Tratados. É possível que as decisões no seio do Conselho, no âmbito da política externa e de segurança, sejam tomadas apenas por maioria qualificada. As cláusulas passerelle não são meros truques, mas instrumentos que permitem ultrapassar os vetos daqueles que não querem ajudar a Ucrânia. Caso Viktor Orbán e Robert Fico pretendam apenas salvaguardar os interesses da Hungria e da Eslováquia, não terão qualquer problema em permitir que os restantes Estados-Membros avancem sozinhos, desbloqueando sanções, empréstimos através dos ativos soberanos russos ou até processos de adesão.
Mas esta prerrogativa terá sempre de vir acompanhada de vontade política, se como suspeitamos, a agenda de Orbán e Fico não for desenhada apenas em Budapeste e Bratislava, mas também em Moscovo. Caso os anticomunistas de ontem, convertidos nos antiliberais de hoje, continuem a sabotar ativamente a política externa da União Europeia, existem dois caminhos: ativar o Artigo 7º do Tratado da UE, mesmo que não possa ser levado até às últimas instâncias, ou suspender os fundos destinados aos Estados-Membros que violam os valores que adotaram voluntariamente, incluindo o dever de solidariedade e cooperação leal.
Nem um nem outro, contrariamente ao que se quer fazer crer, são pólvora seca: são ferramentas de pressão e de negociação, obrigando a Hungria e a Eslováquia a escolher se querem fazer parte da União, ou se preferem ligar o seu destino formalmente ao da Rússia.
No domínio económico, a aplicação do mecanismo anti-coerção contra os Estados Unidos enviaria uma mensagem clara: a Europa deixará de prestar vassalagem a Donald Trump. Proteger empresas, rejeitar concessões e enfrentar práticas desleais dos gigantes tecnológicos americanos constituiria um movimento de emancipação estratégica sem precedentes. A pressão constante sobre aquilo que realmente importa a Trump será mais eficaz do que várias cimeiras.
A estratégia industrial e de defesa constitui outro eixo decisivo. Canalizar fundos para fabricantes europeus e reduzir a dependência de indústrias americana não é apenas estratégico. É vital para a nossa autonomia como continente. As batalhas até podem ser vencidas pelos generais, mas as guerras são vencidas hoje pela capacidade industrial. Os passos dados pela Comissão Europeia nesse sentido têm sido fundamentais, do ReArm Europe ao roteiro para a defesa, mas demorarão anos a dar frutos. Das munições aos drones, do espaço ao oceano, não será possível substituir os Estados Unidos de forma imediata, ainda que alguns Estados-Membros, como a Alemanha, estejam a avançar decisivamente nesse sentido.
Por fim, ao contrário do que muitos analistas sugerem, não podemos nem devemos delegar a representação dos interesses europeus em Viktor Orbán ou Giorgia Meloni – representam diferentes gradações da inimizade ao projeto europeu. Centralizar a negociação externa sob a Presidente da Comissão ou do Conselho Europeu, em articulação direta com o E3 – Alemanha, França e Reino Unido – impediria que os Estados Unidos e Rússia explorassem divisões internas e garante unidade frente a negociações que se anteveem críticas.
Pode não ter havido nenhuma paz justa e duradoura na história. Mas uma zona desmilitarizada inspirada na Coreia – o fim da guerra consolidou a divisão da Guerra Fria, cristalizou a separação da Península em dois Estados diametralmente opostos e intensificou a corrida armamentista – seria um desastre anunciado, tendo em conta a extensíssima linha da frente.
O plano avançado por Donald Trump é simultaneamente uma traição sem precedentes à Ucrânia e uma oportunidade de emancipação para a Europa. A União Europeia pode finalmente ocupar o seu lugar à mesa, demonstrando que não é mera extensão do poder americano. Mas só o fará se compreender que já dispõe da maioria dos instrumentos para o fazer, faltando apenas a disciplina interna e a vontade política para lidar com os idiotas úteis no seio do Conselho Europeu, com Trump e em última instância com Putin.
Sabemos de antemão que a contraproposta apresentada em Genebra não será aceite, do destino dos ativos soberanos russos às garantias de segurança, passando pelos territórios. Putin não quer negociar aquilo que é “seu”, mas apenas aquilo que é dos outros. A força da União Europeia – que Putin não quer na mesa das negociações – será medida não apenas por aquilo que conseguirá resgatar para a Ucrânia, mas também pela capacidade de se libertar das amarras que se impôs a si própria. Por perceber que a Europa tem de ser um destino comum, não uma alternativa.
O futuro da Ucrânia dependerá, em grande medida, de Londres e de que os europeístas convencidos no seio do Conselho prevaleçam sobre os europeístas agnósticos, que só acreditam na União quando lhes convém. Não é utopia imaginar uma Europa que se defenda sozinha, nem é pragmatismo aceitar uma derrota que não é inevitável. Como diria Jacques Delors, chegou a hora de dar alma à Europa – pelos ucranianos e pelos europeus, não contra Vladimir Putin.