Halifax teria sido o líder certo no momento errado. Zelensky acabou por ser – como Churchill – o líder certo para uma guerra desesperada. Um caso de corrupção não compromete o apoio de um continente a uma causa justa, nem pode levar a confundir o invasor com o invadido.
Edward Wood atravessou dois séculos com a gravidade própria de alguém que reconhecia a fragilidade do mundo e a responsabilidade de quem o tenta governar. Aristocrata por nascimento, anglicano por convicção e político por vocação, o futuro Lord Halifax cresceu entre os corredores de Eton e os claustros de Oxford, lugares onde a tradição se assume como doutrina e a autoridade como direito. A alcunha que o acompanharia para sempre, The Holy Fox, traduz a combinação entre prudência moral e astúcia política. Era um homem que acreditava no peso das consequências e na obrigação quase pastoral de evitar o caos.
Entrou no Parlamento em 1910, quando o liberalismo ainda determinava o debate político e o Império parecia sólido. Os primeiros cargos governativos colocaram-no diante da máquina imperial num momento em que as fissuras se tornavam visíveis. Como presidente do Board of Education e depois em funções coloniais, mostrou um sentido de dever que os contemporâneos viam como virtude, embora os críticos lhe apontassem uma tendência para preferir o compromisso à inovação. A sua fé anglicana moldava essa constante procura de uma via intermédia. Para Halifax, a política não era um teatro de impulsos. Era um exercício de contenção.
A sua ascensão ao cargo de vice-rei da Índia, em 1926, revelou tanto o melhor como o limite da sua visão. O subcontinente fervilhava de nacionalismo. Gandhi desafiava o poder imperial com uma mistura de audácia moral e estratégia política. Halifax, que não tinha ilusões românticas sobre a Índia, compreendeu no entanto que o domínio britânico só podia persistir se aceitasse a inevitabilidade da mudança. O Pacto Gandhi-Irwin tornou-se símbolo dessa compreensão. Suspendeu a desobediência civil e abriu espaço para uma lenta evolução constitucional. Não foi um gesto heroico. Foi um cálculo realista sobre o que ainda era possível num império à beira da transformação. Há quem veja prudência. Há quem veja hesitação perante um fim anunciado.
De regresso a Londres, Halifax tornou-se um dos rostos mais influentes do conservadorismo britânico. Ocupou pastas centrais e circulou nos núcleos de decisão representando uma geração formada para governar sem sobressaltos. Mas o mundo já não era aquele com que crescera. O nazismo avançava e a memória traumática da Primeira Guerra Mundial pesava sobre os ministros. Foi neste contexto que Halifax assumiu a pasta dos Negócios Estrangeiros, entrando para a história como um dos defensores da política de apaziguamento. A controvérsia tornou-se um julgamento moral. Halifax via no apaziguamento uma estratégia defensiva. Acreditava que a Grã-Bretanha precisava de tempo. Que o exército estava debilitado. Mas o Acordo de Munique não foi uma escolha entre dois males – foi um exercício de negação.
O Governo britânico preferiu adiar a guerra na esperança de que a diplomacia contivesse o inevitável. A grande virtude e o grande erro Halifax confundem-se, com consequências catastróficas. A moderação que o tornava um estadista ponderado traduziu-se numa incapacidade de ler o outro lado – de entender um inimigo qualitativamente diferente.
Com o tempo, a sua posição endureceu. Pressionou para reforçar o armamento e para apoiar os aliados da Europa Oriental. Reconheceu que o regime de Hitler tinha ambições que nenhum diálogo poderia realmente apaziguar. Mas o mal estava feito. Quando a crise de 1940 abriu a disputa sobre o futuro do governo, Halifax vacilou. Não por cobardia, certamente, mas pela convicção ingénua de que ainda era possível abrir vias diplomáticas. Churchill, apoiado pelo Partido Trabalhista, assegurou a chefia do governo e impôs que a Grã-Bretanha deveria continuar a lutar, recusando qualquer acordo ao estilo de Vichy. A história consagrou Churchill como o homem certo no momento certo. Halifax teve, pelo menos durante algum tempo, o mérito de reconhecer que não o era.
A passagem por Washington como embaixador durante a guerra permitiu-lhe recuperar a relevância política. Trabalhou para consolidar a relação transatlântica, tarefa que exigiu a mesma paciência que sempre o definira. No final, contribuiu para assegurar o apoio vital que a Grã-Bretanha precisava numa guerra existencial. A diplomacia tornou-se o seu refúgio e talvez o seu legado mais duradouro. Ainda assim, a biografia de Halifax continua a dividir. Uns veem nele um moralista excessivo num tempo que exigia ação. Outros recordam que a política é feita de constrangimentos, de cálculos difíceis e de linhas ténues entre prudência e erro.
A crítica mais persistente, que partilho, aponta-lhe a ausência de uma estratégia de longo prazo digna desse nome. O apaziguamento adiou o confronto sem evitar a catástrofe. A defesa mais generosa lembra que os líderes atuam dentro das possibilidades históricas e não dentro de uma omnisciente lógica retrospetiva. Talvez o que Halifax não viu, ou não quis ver, foi a irreversibilidade da lógica totalitária. Acreditava que até a fúria mais descontrolada podia ser controlada. Essa fé, coerente com a sua formação religiosa e aristocrática, tornou-se o seu ponto cego. Churchill, pelo contrário, ainda que também pertencesse a outra era, foi capaz de perceber o que movia Hitler, provocando no ditador uma fúria estrategicamente desastrosa – como a decisão de bombardear Londres e assim “aliviar” a pressão sobre os aeródromos britânicos.
Talvez seja injusto reduzir Halifax – ou Chamberlain – à sua fé no apaziguamento. Foi um homem que procurou evitar a guerra porque conhecia o seu custo. Um homem que hesitou porque tinha consciência da responsabilidade. Um homem cuja grandeza e debilidade residiam na mesma raiz moral. A sua história, lida hoje, ecoa como advertência. A prudência é uma virtude indispensável na política, mas pode tornar-se contraproducente quando o mundo exige frontalidade. As intenções não salvam nações. Os cálculos morais não detêm tanques.
Halifax personifica como poucos a tensão entre o desejo de preservar a paz e a necessidade de enfrentar o mal quando este se revela incontornável. A sua vida encerra uma lição desconfortável, especialmente relevante hoje, enquanto se negoceia um cessar-fogo na Ucrânia e se questiona a liderança de Zelensky, obviando o papel das lideranças europeias desde 2008, começando por Angela Merkel e o seu longo consulado.
A agressão russa na Geórgia em 2008 e a anexação da Crimeia em 2014 revelaram uma ambição imperial que o Ocidente subestimou. Recordando os anos 30, Putin reconheceu rapidamente que fronteiras cedidas sem resistência apenas encorajam mais exigências. As respostas tímidas do Ocidente enviaram a Moscovo um sinal de impunidade, abrindo caminho para a invasão total da Ucrânia. Putin justifica a guerra como defesa dos “russos” fora das fronteiras, criando pretextos para futuras intervenções. Países com significativas minorias russas – Cazaquistão, Bielorrússia, Moldávia, Letónia, Estónia – são vulneráveis. A ideologia do “Mundo Russo” serve como quadro justificativo dessa expansão, enquanto a Fundação Russkiy Mir atua como instrumento de influência cultural, complementando o braço militar e político do Kremlin.
O Cazaquistão segue uma política multi-vetorial, equilibrando relações com a China, EUA e UE para não depender excessivamente da Rússia. A Bielorrússia é um estado satélite, à mercê da anexação formal. A Moldávia confronta uma retórica russa agressiva que ameaça desestabilizar um governo pró-europeu. O padrão é claro: sem uma derrota na Ucrânia, a Rússia continuará a ser uma ameaça. Ainda assim, há quem opte apenas por olhar para os casos de corrupção na Ucrânia e para a investigação a Andriy Yermak, questionando mesmo o apoio europeu a Zelensky.
É legítimo exigir explicações a Kiev sobre o escândalo da Energoatom, empresa estatal cuja gestão levou já à demissão da ministra da Energia e do ministro da Justiça, sobretudo no contexto do processo de adesão à UE. O valor em causa e o facto de Yermak ser visto como quase um copresidente justificam as perguntas: onde está o dinheiro? Mantém o executivo legitimidade para governar? Será oportuno um governo de unidade nacional, como sugerem alguns? Que papel desempenhou Kyrylo Budanov, da inteligência militar ucraniana?
Mas também é significativo o coro de críticas violentas dos suspeitos do costume – que misturam factos com conjeturas, esperando que ninguém repare, e colocam em dúvida o compromisso de Zelensky para com o povo ucraniano. Aqueles que exigem eleições – que seriam tudo menos justas ou seguras – ignoram as quatro eleições presidenciais nos últimos 20 anos, enquanto a Rússia não realizou nenhuma livre. Que jamais levantaram a voz contra a deriva autoritária de Orbán, os casos de corrupção envolvendo Babiš na Chéquia ou a escalada da corrupção na Eslováquia de Fico, há muito que pedem a demissão do Presidente ucraniano. Mas quererão saber quanto custa o regime de Orbán aos cidadãos europeus? Quanto custaria uma capitulação ucraniana à Europa? Preferem leituras seletivas das declarações de Tusk para insinuar que a Polónia poderia deixar de apoiar a Ucrânia – convém mesmo ler as entrevistas até ao fim.
Não há como negar que Zelensky surge fragilizado no pior momento possível, precisamente quando Trump volta a inclinar-se perante Putin. Ainda assim, tal como recuou na tentativa de revogar a autonomia das agências anticorrupção, tem agido com a mesma lucidez para impedir que o regime de Putin faça aquilo para que o primeiro-ministro polaco já alertara. O Kremlin, que cultiva o desprezo pelos factos, glorifica contradições e exporta a confusão para lá das suas fronteiras, limita-se a explorar os casos de corrupção para deslegitimar o Governo de Zelensky e apresentar a guerra contra a Ucrânia como uma suposta missão libertadora.
Quanto aos que clamam pelo regresso de Petro Poroshenko ou Yulia Tymoshenko, parecem não ter aprendido nada. Ou talvez tenham lido a cartilha ao pormenor. Seria mais honesto que declarassem abertamente o que insinuam nas entrelinhas, em vez de se esconderem atrás de interpretações seletivas do Direito Internacional. Que querem ver Putin prevalecer e que deve ser-lhe oferecido espaço vital para voltar a invadir a Ucrânia quando bem entender. Em vez de se indignarem com o colonialismo apenas onde lhes interessa ou defenderem os interesses nacionais unicamente quando aqueles sabotam a política externa da União Europeia – ontem da Hungria, hoje da Bélgica, amanhã da Chéquia.
Um estadista pode ser íntegro e ponderado. Ter-se preparado uma vida inteira para servir o seu país. E ainda assim falhar no momento decisivo. Halifax teria sido o líder certo no momento errado. Zelensky acabou por ser – como Churchill – o líder certo no momento certo, apesar de todos os seus defeitos. Sê-lo-ia o general Zaluzhnyi? Um caso de corrupção, por mais inaceitável que seja e por muito que envolva alguém como Yermak, não diminuirá o apoio de um continente a uma causa justa. Dá, sim, um álibi ao Kremlin para tentar descredibilizar Zelensky e debilitar uma resistência ucraniana que não conseguiram vergar no campo de batalha – mas querem agora vergar em Mar-a-Lago e Moscovo, com o inestimável contributo de Steve Witkoff.
Resta-nos o discernimento. A capacidade de olhar para além da tentação do apaziguamento, da resignação, das omissões convenientes e das mentiras descaradas. De perceber com nitidez o que está verdadeiramente em jogo, tanto para a Ucrânia como para a Europa. Ambas são imperfeitas, ambas guiadas por líderes falíveis. Mas é imperativo recusar as falsas equivalências: entre Zelensky e Putin, entre presidencialismo e assassinato de dissidentes, entre eleições livres e plebiscitos manipulados, entre fragilidades inevitáveis e fraqueza estrutural, entre episódios de corrupção e corrupção sistémica, entre o invadido e o invasor, entre resistência e guerras de conquista, entre democracias e ditaduras.
Se nos conseguirem convencer que é tudo igual, já perdemos.