Perante o estado complexo e tenso/bélico do mundo, a atribuição irrefletida de responsabilidades por este estado ao multiculturalismo e à globalização pode causar mais danos do que oferecer realmente uma explicação atendível.
Afinal, a ordem mundial - sobretudo ocidental - como a conhecíamos até há pouco, baseava-se no respeito pelo direito internacional e pelo direito à autodeterminação dos povos. Estas ideias e compromissos do pós-guerra permitiram que a paz durasse na Europa. A ideia de livre circulação de pessoas e bens, intrínseca ao projeto europeu, também faz parte da matriz daquilo a que podemos chamar hoje os nossos valores.
A pressa de os negar e identificar como culpados do que se passa hoje pode, pelo menos, ser questionada. Não foram estes valores que nos levaram até aqui? Que cultura ou modo de vida proclamamos que queremos proteger? Não será este? O modo de vida de uma sociedade assente nos valores da democracia liberal, ou seja, fundamentalmente no respeito pelas liberdades de todos, e pelo repúdio de qualquer poder absoluto ou impossível de escrutinar?
Uma parte estrutural da cultura ocidental, republicana, laica, respeitadora do estado de direito, da liberdade de expressão, de associação, e religiosa, está intimamente ligada à ordem mundial liberal.
Os problemas com a imigração a que assistimos e aos quais temos de responder, muito assentes numa entrada de pessoas que superou a sua capacidade de integração sustentável, não podem ser atribuídos de forma simplista à falência da globalização.
Porque se formos atacar o multiculturalismo ou enfraquecê-lo, seguidamente atacamos e enfraquecemos também a democracia liberal. E é o estado de direito que implica, por definição, a consagração da observação de direitos fundamentais, que limitam o poder do estado. São a nossa garantia contra abusos. A ordem liberal não tolera o poder absoluto, nem arbitrário, ou insuscetível de escrutínio.
A ordem liberal respira através da tolerância. E da intolerância. Tolerância assente na postura liberal. Intolerância a toda a queda para o autoritarismo, mais ou menos sub-reptício ou suave, que a ponha em causa.
A conclusão é que não pode haver tolerância com autoritários. Os verdadeiros inimigos dos nossos valores. De onde vem a ameaça à ordem, ao nosso modo de vida como o conhecemos? Daí. Dos que papagueiam que o pretendem proteger. À custa das nossas liberdades.
A normalização da extrema-direita é um caminho que não consagrará vencedores liberais. Sendo a sua hostilização extrema também um alimento fecundo para o seu crescimento. É muito difícil lidar com ela, monstro demasiado pujante, obscuro, e que por isso causa medo. Em clara ascensão. Um monstro que está extremamente bem organizado a nível europeu e internacional. A ameaça autoritária, protagonizada pela Rússia, já é sentida por cidadãos europeus em solo ucraniano. A Rússia e a nova ordem mundial, Trump 2.0, já aqui estão. Com artifícios e instrumentos letais, propaganda veiculada e exponenciada pelas redes sociais - pela exploração da emoção, do pathos, pelo artifício, e pelo imediatismo.
O desafio é grande e complexo. Os atores políticos não podem ignorar este problema. A manutenção do estado de direito, a resistência contra déspotas, a luta contra as autocracias e a manutenção da democracia sólida é o maior desafio do nosso século.
É preciso nunca perder de vista quem são os atuais inimigos das liberdades - sem hostilizar os seus eleitores. Não desistir deles. É possível não desistir deles sem copiar o estilo ou o discurso da extrema-direita. Através de tentativas honestas e ambiciosas de resolver os problemas das pessoas e de questionar o que nos trouxe até aqui. Através de tentativas honestas de compreensão dos seus problemas, e não de oferta fácil das mesmas soluções. Copiar é fácil. Ser original, não.
Para combater os inimigos das liberdades - porque o são, por mais que ousem refugiar-se nelas por oportunismo - é preciso ser intransigente na sua defesa. E ser ousado para melhorar a vida das pessoas. A vida material. O horizonte e as oportunidades. Sem isso, não há nada.
A prova de que a democracia liberal não falhou é que, nas grandes discussões sobre o que é admissível ou não dizer ao abrigo da liberdade de expressão, a extrema-direita cresce, vitimiza-se, refugia-se ao abrigo de preceitos constitucionais enquanto propõe rever a Constituição e eliminar liberdades, por exemplo invertendo o ónus da prova nos crimes ligados ao exercício de cargos públicos. Qualquer político, em qualquer processo-crime, seria tomado imediatamente como culpado, tendo de provar a sua inocência, a este não se aplicando o in dubio pro reo. Se isto não é o maior inibidor da atividade política, que arrepia qualquer liberal, não sei o que é. Isto sim, é limitar liberdades políticas, não é não poder dizer “frouxo”.
O desafio da direita é não deixar que a luta contra a extrema-direita seja a luta da esquerda ou uma luta de esquerda. Não é. É a luta de qualquer democrata. E os democratas não se podem demitir dela, porque é a luta do nosso tempo. Todas as outras, sem esta, caem por terra.
Por isso é que são precisos líderes corajosos, que sem tibiezas se afirmem convictos de que sem liberdade política, não há liberdade económica ou social. E que a ameaça à liberdade política está já ao vivar da esquina. Perdemos mais um bocadinho todos os dias. Mas sem liberdade económica também não haverá liberdade política. Sem dignidade, horizonte e oportunidades. Caso contrário teremos gerações desiludidas, emigradas, revoltadas com o país. Pasto para extrema-direita e dos que se alimentam do ressentimento. Os tempos são exigentes. A bússola deve estar sólida e afinada. Para que os moderados contem, a defesa da democracia liberal tem de ser radical.