Kiev quer usar o Starlink para caçar mísseis dentro da Rússia. Trump dá luz verde, mas Musk trava tudo

31 ago, 19:19
Elon Musk (Associated Press)
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A Ucrânia procura autorização para usar drones ligados à rede de satélites contra lançadores de mísseis balísticos em território russo. A Casa Branca remete a decisão para a SpaceX, a empresa aponta para Washington — e, no meio desta troca-baldroca, Elon Musk mantém a recusa por considerar esse uso uma "escalada" da guerra

Elon Musk continua contra a utilização do Starlink por forças ucranianas em ataques dentro da Rússia, apesar das informações divulgadas nos últimos dias que apontavam para uma possível mudança de posição do dono da SpaceX.

Três fontes conhecedoras das negociações garantiram ao Kyiv Independent que Musk continua a considerar esse uso da rede de satélites uma escalada e não acredita que possa aproximar o fim da guerra. Uma delas condensou a posição do empresário numa frase: “Musk quer um acordo nesta guerra, não uma escalada”.

É uma versão diferente da publicada no domingo pelo Financial Times. O jornal britânico avançou que Elon Musk estaria disponível para permitir que drones ucranianos equipados com Starlink atacassem alvos dentro da Rússia, desde que houvesse autorização política da Casa Branca.

E não se trata apenas de pedir mais terminais para as tropas. Kiev quer que a SpaceX permita o funcionamento do Starlink sobre território russo, onde o serviço está limitado, para que os drones mantenham comunicações estáveis em ataques mais profundos. Na lista de alvos estão os lançadores móveis de mísseis balísticos que a Rússia usa para atacar cidades e infraestruturas ucranianas.

O Starlink tornou-se essencial para as comunicações da Ucrânia desde a invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022. A rede da SpaceX liga posições militares aos centros de comando e chegou também aos drones, onde permite transmitir imagens e manter uma ligação mais resistente à guerra eletrónica do que as comunicações tradicionais por rádio. Kiev quer agora levar essa vantagem para o outro lado da fronteira.

Só que a autorização já deu origem a um imbróglio entre o governo ucraniano, Elon Musk e Donald Trump. Volodymyr Zelensky revelou a 22 de agosto que o Ministério da Defesa lhe tinha transmitido que Musk aceitara o princípio da utilização do Starlink sobre território russo. Faltaria apenas convencer o presidente norte-americano. Com essa informação, levou o assunto a Trump durante uma reunião à porta fechada, a 28 de julho, e obteve a sua concordância. Kiev chegou ainda a discutir com Ursula von der Leyen e António Costa uma fórmula europeia para financiar a operação.

Só depois Zelensky descobriu que o primeiro “sim” nunca existira: Musk não tinha dado autorização. Trump confrontou-o. “Ele achou que eu, de certa forma, o tinha enganado”, recordou o presidente ucraniano. Zelensky voltou ao Ministério da Defesa, de onde partira a informação inicial, e os responsáveis admitiram que a indicação podia estar errada.

O equívoco tornou visível uma segunda confusão, esta ainda por resolver. Representantes de Musk entendem que uma decisão com estas consequências deve ser tomada pela administração norte-americana. Segundo um responsável ucraniano ouvido pelo Kyiv Independent, Washington responde que cabe à SpaceX decidir se abre ou não o serviço. A autorização passa de umas mãos para as outras e Kiev precisa das duas: da bênção política dos Estados Unidos e da alteração técnica que só uma empresa privada pode fazer.

Durante anos, no centro desta relação esteve Mykhailo Fedorov, um dos homens de confiança de Zelensky desde a campanha presidencial de 2019 e o principal interlocutor de Kiev com a SpaceX nos primeiros anos da guerra. Primeiro como ministro da Transformação Digital e depois na Defesa, ajudou a garantir terminais Starlink e manteve um canal direto com Elon Musk enquanto a tecnologia ganhava peso no campo de batalha.

A proximidade com Volodymyr Zelensky, porém, acabou este verão. Fedorov, nomeado ministro da Defesa em janeiro, foi afastado em julho no meio de divergências sobre a reforma das Forças Armadas. Defendia um modelo mais assente em drones, tecnologia, descentralização e mudanças nas compras militares, em choque com uma estrutura de comando mais tradicional. A demissão provocou protestos e abriu uma fratura entre os dois antigos aliados. Fedorov recusou outros cargos oferecidos pelo presidente, insistiu em regressar à Defesa e, semanas depois, acusou a Ucrânia de atravessar uma “crise sistémica de governação”. Foi mais longe: defendeu a realização de eleições mesmo durante a guerra.

O canal com Musk, esse, sobreviveu. Tinha voltado a ser particularmente importante no início deste ano, quando forças russas começaram a recorrer a terminais Starlink, incluindo em drones. Kiev pediu então ajuda à SpaceX para identificar os equipamentos autorizados e impedir a utilização russa. Em fevereiro, a empresa restringiu esse acesso. Mykhailo Fedorov descreveu na altura o perigo em termos pouco abstratos: uma ligação Starlink permitiria aos russos controlar drones a grande distância, mudar trajetórias fora do alcance de radares e sensores acústicos ucranianos e atingir alvos militares de elevado valor.

Depois de pedir a Musk que fechasse a porta à Rússia, Kiev tentou convencê-lo a abrir essa mesma porta aos ucranianos. Correu mal. Segundo uma das fontes ouvidas pelo Kyiv Independent, as conversas entre Fedorov e Elon Musk foram “extremamente malsucedidas” e terão deixado o empresário ainda mais convencido de que não deveria permitir a utilização do Starlink em ataques dentro da Rússia. Mesmo depois de sair do governo, em julho, Fedorov confirmou que continuava a negociar com Musk. Não revelou resultados.

Volodymyr Zelensky também não desistiu. Musk, reconheceu o presidente ucraniano, continua a olhar para a utilização do Starlink em território russo como uma escalada, mas Kiev espera que mude de posição. A relação, de resto, está longe de uma rutura: a 26 de agosto, Zelensky condecorou Elon Musk com a Ordem da Liberdade, uma das mais importantes distinções ucranianas, pelo contributo prestado ao país.

A insistência tem uma razão militar concreta. Em território ucraniano ocupado pela Rússia, as forças de Kiev utilizam drones equipados com Starlink em operações que podem chegar a 200 quilómetros da frente. A ligação permite transmitir imagens, corrigir a trajetória e continuar a controlar o aparelho mesmo em zonas onde a guerra eletrónica tenta tornar o céu surdo. Dentro da Rússia, acaba o Starlink.

Isso não impede a Ucrânia de atacar bases, depósitos, refinarias ou linhas logísticas russas. Para esses ataques usa outros sistemas de navegação e comunicação. Um alvo grande, imóvel e com coordenadas conhecidas pode ser atingido sem uma ligação permanente. Um veículo que aparece, dispara e desaparece minutos depois é outra história.

É aí que entram os lançadores de mísseis balísticos. A Rússia utiliza sistemas Iskander e mísseis de origem norte-coreana contra território ucraniano. Os lançadores são móveis: deslocam-se para a posição de tiro, fazem o disparo e podem partir antes de serem localizados. Kiev quer usar drones com Starlink para os procurar, acompanhar e, se houver oportunidade, atacar antes do lançamento. Porque depois pode ser tarde.

Os mísseis balísticos estão entre as ameaças mais difíceis para a defesa aérea ucraniana e os Patriot norte-americanos são o principal sistema disponível para os intercetar. Há, além disso, escassez de intercetores. Nos primeiros dez dias de agosto, a Rússia lançou quase 70 mísseis balísticos e apenas um foi intercetado, segundo dados da Força Aérea.

A conta de Kiev é simples: se é difícil destruir o míssil quando já está no ar, tente-se destruir o lançador enquanto ainda está no chão. Para Elon Musk, porém, permitir isso significaria autorizar que uma tecnologia da sua empresa participasse diretamente em operações ofensivas dentro da Rússia. E Musk já traçou esta linha antes. Em 2022, a Ucrânia pediu cobertura Starlink na zona da Crimeia para apoiar uma operação contra a frota russa. O empresário recusou. Explicaria mais tarde que receava transformar a SpaceX numa participante direta numa grande operação de guerra e provocar uma resposta mais grave de Moscovo.

Uma investigação da Reuters revelou ainda que, em setembro daquele ano, Elon Musk ordenou a interrupção do serviço em determinadas áreas durante a contraofensiva ucraniana no sul. A decisão afetou comunicações militares, drones e operações de artilharia, segundo fontes ouvidas pela agência. Musk temia que uma derrota russa mais profunda pudesse levar o Kremlin a considerar uma resposta nuclear.

Entretanto, muito mudou. O Pentágono passou a contratar serviços Starlink para a Ucrânia e a SpaceX aprofundou os contratos com a defesa norte-americana. Uma coisa não mudou: a empresa continua a conseguir determinar onde a rede funciona e em que circunstâncias pode ser utilizada.

É esse poder que regressa agora ao centro da guerra. Kiev quer usar uma infraestrutura privada norte-americana para atacar lançadores e outros alvos militares dentro da Rússia. Donald Trump, segundo Zelensky, mostrou-se disponível para dar autorização política. Washington entende que a decisão operacional pertence à SpaceX. Elon Musk recusa, convencido de que seria uma escalada. Assim, uma das tecnologias que ajudou a Ucrânia a combater a invasão russa tem hoje uma fronteira própria. No território ucraniano e nas zonas ocupadas, Kiev pode usá-la. Dentro da Rússia, por decisão da SpaceX, não.

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