Previsões guerreiras

15 mar, 15:20

Talvez as previsões não sirvam para muito, mas são interessantes. Trabalha-se com o passado, mistura-se com o presente e projeta-se o futuro, com margem de erro que será a que for. Os mais prudentes adotam algumas cautelas, para não serem apanhados em contramão. Como me aconselhou sabiamente um enorme professor, se quiser fazer previsões, faça-as para quando já não andar por cá: ninguém lhe dirá que se enganou ou, se disser, não ficará incomodado.

Em algumas áreas do saber, as previsões quase não existem. Por exemplo, no direito das sucessões, que (simplificando bastante, vá) trabalha com o facto da morte, antecipar o que quer que seja só fará sentido se estiver relacionado com a morte seguinte. E com a seguinte, e com a seguinte.

Noutras áreas, porém, a previsão é uma ferramenta tão corrente que quase se acredita haver pessoas que vivem por ali, no futuro, e de vez em quando regressam para nos dar a boa ou má nova. “Olhe, tenha paciência, mas o crescimento da economia não vai ser tão bom como gostaria!”. O problema é quando acertam sempre (sei lá, como Mário Centeno), e aí é como uma reprise do “Regresso ao Futuro”, com Michael J. Fox e Christopher Lloyd, que já virou os 83 anos.

No plano internacional, discute-se também muito com base na extrapolação de comportamentos passados ou em análises de contexto. Por exemplo, partindo-se do comportamento agressivo passado e atual da Federação Russa (Geórgia, Moldávia, Ucrânia em 2014 e 2022), é bastante seguro anunciar-se que, algures no futuro, a Rússia poderá atacar…, seguindo-se uma lista de todos os Estados vizinhos, incluindo-se os três do Báltico. Não acontece? Consequência da firmeza da nossa resposta. Acontece? Quem tinha razão, quem era?

Há casos, no entanto, em que as “previsões” são bastante mais perigosas do que estes episódios meio inócuos.

É pensar-se em 2002-2003 e na justificação para a invasão do Iraque. Tinha havido a resolução 1441, do Conselho de Segurança, só aprovada (melhor, não vetada) devido ao compromisso firme, expresso no texto, de que se dava mais uma oportunidade ao Iraque de Saddam Hussein para corrigir rumo que podia conduzir à guerra. Quando chegou ao clímax a questão das armas de destruição massiva (que era evidente não existirem), voltaram à carga os que desejavam o conflito.

Tentaram uma primeira resolução no Conselho que legitimasse de vez o início das hostilidades. Nada, o Conselho não queria. Tentaram uma segunda, e os proponentes declararam que, ainda que aquela proposta fosse vetada, mostrariam ao Mundo que tinham do seu lado a maioria moral da comunidade internacional (ou seja, pelo menos 9 dos quinze votos dos membros do Conselho). Passavam os dias, e nada. Percebeu-se, afinal, que nem 9 nem coisa que se parecesse: a grande maioria, isso sim, ou se abstinha ou votava contra. Tinha-se formado, para aqueles que queriam a guerra, uma maioria imoral. Inútil é dizer que nunca se foi a votos.

A coisa irritou muito, sobretudo quando do lado do “inimigo” estavam, por exemplo, França e Alemanha. Alcançou-se quão profunda era a ferida quando dois representantes republicanos, que assim entraram na História, Bob Ney e Walter Jones, anunciaram em conferência de imprensa, com pompa e autoridade categórica, que tudo o que tivesse “french” nos menus das cantinas e bares do Congresso tinha de mudar de nome. E, assim, libertaram as batatas fritas (de “french fries” para “liberty fries”), e o mesmo aconteceu com as rabanadas que por lá se comem (de “french toasts” a “liberty toasts”).

Março de 2003 registou este momento decisivo (cuidado, é ironia), mas também o da invasão do Iraque.

Não interessa dissecar, pela enésima vez, as vicissitudes e ilicitudes daquela campanha militar. Apenas se dá este exemplo porque, justamente, as “previsões” foram determinantes na tentativa de legitimação. Faltando o direito, através do sistema de segurança coletiva; falhando o argumento da intervenção humanitária; fracassando o argumento da intervenção “democrática”; inexistindo o argumento do “dever moral” (este, enunciado pelo então PM britânico), sobrava a legítima defesa.

A legítima defesa, perguntar-se-á?

Sim, naqueles tempos de ameaças complexas, o ataque já não tinha de ser iminente. O regime de Saddam tinha uma história recheada de ações ilícitas e violadoras de direitos humanos (era verdade) e detinha um arsenal de armas químicas e bacteriológicas. Não tinha e era sabido que não tinha, como reconheceu de forma cândida Donald Rumsfeld pouco mais de seis meses depois do fim da guerra. Logo, com este perfil e com estes meios, era certo como o destino que mais tarde ou mais cedo iria atacar, ou arranjar alguém que atacasse por ele, os Estados Unidos e seus aliados.

Não é difícil de “prever” (andamos sempre nesta área das previsões) o que aconteceria se cada Estado pudesse, de cada vez que usasse a força contra outro, invocar este precedente – que muitas boas almas diziam ser direito, mas direito a sério.

A China atacaria o Japão, dizendo que, mais tarde ou mais cedo, e considerando o passado imperial e agressivo daquele País, era certo e sabido que, mal pudesse, voltava a tentar episódios como da Manchúria ou da “violação de Nanquim”. O Paquistão, confortado nos seus receios, teria o direito de, invocando um passado e presente tão conflituais e a capacidade militar da União Indiana, lançar um ataque nuclear contra o seu opositor; Israel, faria o mesmo contra o Irão, ou o Irão contra Israel. É evidente que estes exemplos são do domínio do absurdo.

Porém, a Rússia adotou um conceito de “ameaça” ucraniana muito parecido. A necessidade de “desmilitarização” e “desnazificação” ucranianas, a alegação da descoberta de laboratórios de armas químicas ucranianos (claro, com os EUA), a Constituição ucraniana, onde se define o objetivo da adesão à NATO, e até o recente conceito de defesa nacional ucraniano (que, com ironia triste, descreve a Rússia como a principal ameaça), todos estes são elementos decisivos – diz a Rússia de Putin. Mais tarde ou mais cedo, era certo que, algures no futuro, a Ucrânia ia ser um instrumento de agressão contra a Rússia. Logo, a Rússia teve que agir em legítima defesa contra a Ucrânia, nos termos do art. 51 da Carta. Obviamente, não, embora seja grande a tentação em apontar que nem na maldade Putin foi original, fazendo copy paste do passado.

Mesmo assim, atenção, porque não se estabelece de forma necessária uma qualquer relação causal entre 2003 e 2022. Mas, houvesse tal relação, nunca um mal justificaria outro. De facto, os males não andam emparelhados: é suficiente o mal que cada um representa: A não explica nem justifica B, e B não explica nem justifica A, ponto final, parágrafo.

Mas estas coisas más são como um vírus, espalham o medo, determinam comportamentos antes “imprevisíveis”. É mais do que provável que a forma como a Alemanha (e, com ela, a restante Europa) definirão, doravante, a sua segurança e as ameaças a enfrentar tenham mudado de forma drástica numa data precisa: 24 de fevereiro de 2022. Não se trata de caso único, o Mundo ficou diferente. O principal partido do Japão (PLD), dizem as notícias, lançou agora para o debate público a possibilidade de o País instalar mísseis nucleares norte-americanos no seu território, para enfrentar “ameaças” futuras. Lindo serviço, senhor Putin. Lindo serviço.

No terreno, na Ucrânia que sofre, Mariupol – por enquanto, mais do que qualquer outra – é uma cidade mártir. É dever de decência espalhar aos quatro ventos o apelo lancinante da Cruz Vermelha Internacional, que fala, abertamente, na possibilidade de um “worst-case scenario” para centenas de milhar de pessoas, presas numa ratoeira infernal. É uma previsão? É mais do que isso, é um diagnóstico dantesco. A comparação já foi feita por outrem, não é minha: a tragédia de Mariupol, mesmo salvas as devidas proporções, parece cada vez mais próxima daquela que, há muitas décadas, foi a de Estalinegrado.

Também no terreno, e como é habitual num conflito militar, sinais contraditórios. Por um lado, Kiev decreta o recolher obrigatório durante 36 horas, antevendo o que nem é necessário desenvolver. Por outro lado, um conselheiro do Presidente ucraniano fez a previsão de que o conflito possa terminar em maio. Maio? Quando ainda falta quase mês e meio e ainda só passaram 20 dias desde que a guerra foi iniciada pela Rússia? Reconheça-se, este é apresentado como um cenário mau, podendo o fim do conflito ser bastante mais rápido, diz o mesmo conselheiro. De todo o modo, quanto ao que vem do lado ucraniano, nunca se terá desejado tanto que a previsão peque por excessiva cautela.

Esta guerra na Ucrânia, como todas as guerras, é feita de muitas misérias e alguma grandeza, esta quase sempre do lado dos pequenos e indefesos, sobressaltados no sacrifício ou na defesa dos seus…

É contraditória, indefinível, a não ser numa coisa absolutamente certa: só há guerra porque houve um agressor. Se esta condição irredutível do raciocínio for colocada no armário, transforma-se aquilo a que se assiste em jogo macabro, correndo-se o risco diabólico do feitiço técnico, da avaliação impossivelmente neutra do gesto militar bem pensado. E de se cair na tentação do determinismo geográfico ou geopolítico, espécie de “Relatório Minoritário” entre Estados, em que tudo estaria definido por uma espécie de “natureza das coisas”.

Esse é um abismo em que não se pode cair, um abismo em que tudo é compreensível e entendível. Não é.

Albert Camus desenhou esse drama como poucos em “O homem revoltado”, tratando com refinada crueldade Arthur Rimbaud, poeta de escrita espantosa que comete o pecado mais mortal de todos quando renuncia ao génio para ser um “traficante burgês” (de armas também). Um homem que, perto do fim, andava sempre com 8 quilos de ouro numa bolsa atada ao ventre; um homem que, no leito de morte, dizia a sua infelicidade absoluta por já não conseguir vigiar a riqueza, mas que, num último estertor e assomo de dignidade, lançou um “não, não, agora revolto-me contra a morte”! Esse acesso de nobreza, decreta Camus, não apaga o indelével. A beleza do que escreveu Rimbaud dificilmente se pode ultrapassar. Mas, com as escolhas que fez, tornou-se demasiado humano.

 

Sobre o episódio das batatas fritas, ver aqui.

Em fase de comidas, eis uma receita de “pain perdu”.

Uma “cena” do “Regresso ao Futuro”, aqui:

O apelo da CVI pode ser visto aqui.

Albert Camus, “O homem revoltado”, Livros do Brasil, 2019.

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