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Major-general

Um perfeito diálogo de surdos

4 dez 2022, 12:45

Negociar agora com Putin, não seria em boa verdade “negociar”; seria apenas protelar tudo aquilo que hoje tememos face à tibieza das declarações de alguns “Aliados” – e que ainda o tornaria mais perigoso no futuro

O Kremlin parece estar à procura de tirar partido de algo em que diz acreditar muito, que interpreta como uma vulnerabilidade do lado opositor e que, por isso, pretende aproveitar como narrativa. Em boa verdade, aquilo que Moscovo quer vender é a suposta vontade do Ocidente de encetar negociações. Daí a procura de pontos de aplicação para conseguir colocar pressões no sentido de desencadear uma espécie de voragem na qual as autoridades ocidentais se sintam como que encurraladas, aceitando a priori algumas cedências destinadas sobretudo a aliciar Washington e eventualmente, o resto do Ocidente a se sentarem juntos à mesa das negociações.

A recente conversa telefónica do presidente russo, de cerca de uma hora, com o chanceler alemão, que teve lugar em 2 de dezembro, foi esclarecedora. Tratou-se de um diálogo no qual Putin afirmou, astuciosamente, que a ajuda militar e financeira ocidental à Ucrânia propicia uma situação em que o governo ucraniano, como ele bem sabe, tenderá sempre a declinar de forma clara a possibilidade de negociar a paz. Exatamente por isso terá solicitado a Scholz que repense a atual posição alemã no que toca os desenvolvimentos em curso na Ucrânia. Felizmente o chanceler alemão asseverou, sem qualquer tibieza, que toda e qualquer fórmula diplomática para por termo à guerra na Ucrânia teria obrigatoriamente de incluir a retirada incondicional das forças russas do território usurpado.

Esta conversa Putin-Scholz surgiu na sequência da afirmação do dia anterior enunciada por Biden que garantiu estar disposto a entabular conversações com Putin se este encontrar uma forma juridicamente inequívoca de pôr termo à guerra. O porta-voz do Kremlin, Peskov, depressa respondeu às glosas de Biden clamando que esta posição coloca como pré-requisito para qualquer entendimento a retirada prévia das forças russas da Ucrânia e assim sendo, afirmou que a "operação militar especial" prosseguiria. Portanto nada feito. Um perfeito diálogo de surdos.

Do lado das lideranças ocidentais o bom senso, a inteligência e sobretudo a visão prospetiva de longo prazo parecem, finalmente, ser o mote. Não é difícil ver porquê.

Pretender algo similar a um compromisso com a Federação Russa num momento em que a iniciativa das operações no terreno está claramente do lado da Ucrânia, seria um ato irrefletido que poderia desembocar, com alguma facilidade, na génese de acontecimentos desastrosos num futuro possivelmente próximo. Nunca devemos deixar de ter presente o célebre acordo de apaziguamento de Munique, celebrado em finais de 1938 entre a Inglaterra de Chamberlain, a França de Daladier, a Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler. Tratou-se de um ato irrefletido à procura da paz a qualquer preço. Dele resultou o reconhecimento da ambição de Hitler quanto aos sudetas onde, segundo o Fuehrer, existia uma minoria significativa de alemães (ou, pelo menos, germano-falantes) de cerca de 3,5 milhões de pessoas. Curiosamente a Checoslováquia não foi ouvida nem achada neste acordo, sendo certo que estes territórios lhe pertenciam por direito. O resultado foi aquele que Winston Churchill muito bem vaticinou quando disparou, com notável presciência, à face do então deliciado primeiro-ministro inglês Chamberlain, eufórico ao chegar a Londres, convencido “ter assegurado pacificar a ambição” expansionista de Adolf Hitler e assim lograr a paz. A riposta de Churchill a Chamberlain foi clara e épica na sua lucidez relativa aos intuitos imperiais alemães: “entre a guerra e a desonra escolheste a desonra. Escolheste a desonra e terás a guerra”. E assim foi. Apenas seis meses volvidos, na primavera de 1939, a Checoslováquia toda foi ocupada. Seguiu-se a Polónia, apesar do ultimato tardio de um Chamberlain acordado e em desespero de causa. A segunda guerra mundial entrava em velocidade de cruzeiro. Um precedente de alto e bom som. Porém e por incrível que pareça ainda há hoje quem persista em não o querer compreender.

Quero ser claro, neste ponto. Negociar agora com Putin, não seria em boa verdade “negociar”; seria apenas protelar tudo aquilo que hoje tememos face à tibieza das declarações de alguns “Aliados” – e que ainda o tornaria mais perigoso no futuro. Poderia fazer sentido uma manobra de protelamento se estivesse em causa a Kyiv ganhar tempo desta ou de outra forma, caso o tempo jogasse a seu favor, o que não me parece ser o caso. Um tempo de pausa operacional, ao que tudo indica, favoreceria decerto a Federação Russa, pois permitir-lhe-ia reagrupar forças, rearmar, entrincheirar-se e reconstruir uma verdadeira cadeia de comando – e parava o élan ucraniano que é uma das suas mais-valias claras, bem como o élan de um Ocidente Alargado que por vezes tem titubeado aqui e ali.

A conjuntura é nítida e há que a ter em conta. Hoje como ontem, mas porventura mais hoje do que antes, o Ocidente enfrenta uma escolha: pode aceitar os riscos de curto prazo de continuar a apoiar o esforço de guerra na Ucrânia no sentido de mais tarde ou mais cedo alcançar uma solução definitiva, sustentável e de longo termo para a atual e brutal agressão russa. Ou pode, por outro lado, deixar-se levar pelo engodo astucioso da Rússia e enveredar por uma cessação – ou mesmo uma pausa – prematura das hostilidades, o que potenciaria em muito a probabilidade de um renovado e mais vigoroso ataque russo com as brutalidades a que infelizmente Moscovo já nos habituou.

Face a tudo isto, não podemos ter dúvidas ou quaisquer hesitações imprudentes. A solução que queremos alcançar tem de estar bem definida e o caminho a trilhar também. O Ocidente Alargado deve conduzir a Rússia a uma situação que inviabilize qualquer veleidade ou mesmo capacidade desta de tornar a atacar a Ucrânia. Continuar a apoiar de forma eficaz e sustida a Ucrânia, para que ela possa tirar partido da sua atual posição de vantagem relativa, mantendo a notável iniciativa operacional que tem tido, renovando a sua capacidade de empreender contraofensivas com sucesso é a modalidade de ação que se afigura ser a mais adequada.

Assim, conseguiremos também evitar novos conflitos protagonizados por Moscovo, nesta sua nova onda de expansionismo imperialista tardio – da qual, de resto, vem dando sinais claros desde pelo menos 2008, quando da lamentável intervenção que fez na Geórgia. Uma Geórgia que cada vez sofre mais e cujo exemplo, desde então até hoje, faz tremer todo o espaço pós-soviético, da Moldova aos Bálticos, da Arménia ao Cazaquistão, para só dar alguns exemplos – por falta de firmeza de um Ocidente que hoje parece mais consciente dos riscos emergentes deste tipo de neocolonialismo imperialista.

A paz que todos desejamos, tem os seus timings. Negociar fora de prazo e nos termos ilegais e impensáveis de um Putin em desespero de causa, redundaria em mais um crasso erro histórico.

Paradoxalmente, este “perfeito diálogo de surdos”, tem evitado males maiores e assegurado a manutenção de uma ordem internacional com a qual todos nos comprometemos ao assinar a Carta das Nações Unidas.

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