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Há uma crise silenciosa no exército ucraniano que faz tremer a frente de batalha. Perante um "bilhete só de ida", soldados estão a desertar

4 fev 2025, 07:00
Soldados ucranianos lutam para reconquistar o território ocupado pela Rússia (AP Images)
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Há cada vez mais deserções no exército ucraniano. A procuradoria-geral ucraniana tem mais de 100 mil processos contra soldados que abandonaram o posto

As expectativas eram elevadas. Milhares de jovens recrutas tinham acabado de ser chamados para criar uma unidade militar, a 157.ª Brigada Mecanizada, numa altura em que a Rússia começava a conquistar território a uma velocidade elevada. Com pouco mais de seis semanas de treino, foram enviados para um dos locais “mais quentes” da frente de batalha. O resultado foi devastador. Mas este não é um caso isolado no exército ucraniano. Semanas antes, uma investigação revelava que elevadas taxas de deserção estão a afetar seriamente a capacidade de combate das divisões ucranianas.

“As deserções estão a ter muita influência na frente. A quebra de efetivos é muito considerável e a frente de batalha é muito, muito extensa. Isto levou a Ucrânia a dispersar forças e a não tapar os buracos criados pelas baixas nas unidades existentes. Isto pode influenciar seriamente o desfecho desta guerra”, alerta o major-general Agostinho Costa.

O caso mais conhecido é o da 155.ª Brigada Mecanizada, uma unidade treinada e equipada em França, que se tornou infame entre as forças armadas ucranianas. Conhecida como “Ana de Kiev”, esta divisão foi chamada a combater nos arredores da cidade Pokrovsk, mas desintegrou-se quase por completo antes sequer de disparar o primeiro tiro. Dos 2.300 militares que formavam a 155.ª Brigada, 1.700 militares abandonaram o serviço militar sem permissão.

Na 157.ª Brigada Mecanizada os problemas são semelhantes. Os militares são apressados para um processo de treino de seis semanas, incorporados nas unidades e enviados quase imediatamente para posições de combate. Este método tem resultado em pesadas baixas para algumas das mais recentes unidades criadas pelo Estados Maior das Forças Armadas ucraniano. De acordo com uma investigação do Hromadske, as baixas nesta unidade chegaram a 40%, algo que o comandante da unidade negou.

“A formação de alguns dos novos recrutas ucranianos não tem sido a melhor. Tem sido demasiado curta. Não se forma um militar para combater em seis semanas, muito menos líderes e oficiais. Quando se lançam tropas na frente de combate sob condições tão duras, sem preparação, as taxas de deserção vão disparar”, explica o major-general Isidro de Morais Pereira.

E o problema está a fazer-se sentir. Desde 2022, cerca de 100 mil casos foram abertos pela Procuradoria-Geral ucraniana contra soldados que abandonaram as suas unidades sem autorização. O recém-nomeado chefe das forças terrestres ucranianas, Mykhailo Drapatyi, admite que o problema das deserções é “um desafio significativo”, mas insiste que, apesar do seu impacto negativo, deve ser transformado numa lição que conduza à implementação de “ações preventivas”. Estas deserções, explica, acontecem porque os soldados têm medo e falta de experiência em combate.

A Ucrânia tem tentado, nos últimos meses, resolver este problema, que não para de crescer. A 29 de novembro, os legisladores ucranianos aprovaram uma lei que amnistia os militares que abandonaram as suas unidades sem autorização, permitindo que estes continuem a servir nas forças armadas sem qualquer acusação criminal. Poucos dias depois de ter entrado em vigor, o Serviço de Aplicação da Lei Militar afirmou que cerca de mil soldados regressavam todos os dias às fileiras. Os militares que regressam tinham todos os seus benefícios restaurados e podiam integrar qualquer unidade, exceto a que tinham abandonado.

Mas dificilmente a Ucrânia conseguirá atenuar a situação se não atacar as causas do problema. Para os especialistas militares ouvidos pela CNN Portugal, existem vários motivos que estão a levar ao aumento significativo das deserções no exército ucraniano. O primeiro está ligado à forma como a Ucrânia está a conduzir o processo de recrutamento. A vasta maioria dos ucranianos que se queria voluntariar já está nas forças armadas, o que obriga o Estado-Maior a chamar para a recruta o número de cidadãos necessários para recuperar as perdas que acontecem todos os dias.

“A Ucrânia está a procurar desligar-se do mundo soviético e ligar-se ao mundo ocidental. Mas a Ucrânia ainda não o conseguiu fazê-lo. Há casos de incompetência, mas eles têm de ser julgados. A única forma de evitar estas situações é melhorando a ação de comando e mandando para a frente de combate oficiais que nunca enfrentaram ações de combate. Aumentar o nível de benefícios que se dá à tropa”, sugere Isidro de Morais Pereira.

A falta de militares é de tal forma significativa que o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi, ordenou a transferência de cinco mil militares da força aérea para unidades que atingiram o “estado crítico” de menos de 50% do pessoal necessário. No entanto, o exército ucraniano garante que não vai mobilizar especialistas da força aérea, de forma a não colocar em causa as operações da aviação ucraniana.

Além disso, a Ucrânia continua sem ter uma lei de desmobilização que garanta que, a partir de servir um número de anos estipulados, estes homens podem regressar à vida civil. Atualmente, todos os homens chamados a servir na Ucrânia não têm qualquer previsão de serem desmobilizados e, após três anos de guerra, há pouca esperança de que o fim da guerra esteja por perto. Isto dá a muitos dos jovens ucranianos a sensação de que uma chamada de mobilização pode ser “uma sentença”, cuja única saída é a morte ou a licença por ferimento.

“Os primeiros combatentes eram voluntários que se dirigiam voluntariamente para o centro de recrutamento. Três anos depois, não existe nenhuma lei de desmobilização. Ser mobilizado é um bilhete apenas de ida. Quando se é mobilizado não se vê a luz ao fundo do túnel. Além disso o nível de baixas é muito elevado, o que faz crescer o fator de desmoralização dos militares”, afirma o major-general Agostinho Costa.

Desde outubro que a administração norte-americana está a pressionar a Ucrânia a levantar uma das principais restrições da política de recrutamento: a mobilização de homens entre os 18 e os 25 anos. Até abril de 2024, a lei ucraniana permitia a mobilização de soldados com mais de 27 anos. Após muita pressão americana e de um longo debate no parlamento, a Ucrânia aprovou um pacote legislativo para baixar a idade de mobilização para 25 anos, de forma a aumentar o número de soldados.

O presidente Volodymyr Zelensky tem-se mostrado muito reticente em baixar a idade de recrutamento para os 18 anos, apesar de o país estar a enfrentar uma guerra existencial. O líder ucraniano teme lançar o país numa catástrofe demográfica. Desde que começou a guerra, a população perdeu mais de dez milhões de habitantes. Com uma base jovem muito reduzida, a liderança ucraniana teme perder o grosso da população masculina jovem antes que estes tenham garantido as próximas gerações.

Ainda assim, os especialistas militares defendem que a Ucrânia tem cometido um erro ao insistir na criação de novas unidades, como a 155.ª e a 157.ª Brigada. Em vez disso, as forças armadas ucranianas devem canalizar os militares recém-formados para as formações já existentes, que têm veteranos que podem passar a sua experiência para os novos soldados.

“O maior défice na Ucrânia é de combatentes. A Ucrânia tinha a expectativa de recrutar 500 mil soldados, mas não é fácil e tem vindo a recorrer a práticas mais agressivas de recrutamento. O Estado-Maior ucraniano deve focar-se em tapar os buracos que foram criados nas unidades que estão a combater há mais tempo e não em criar novas unidades”, defende Agostinho Costa.

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