Há uma ameaça de "avalanche" na "fortaleza económica" de Putin (que se prepara para uma "guerra de décadas")

19 nov, 07:00
Vladimir Putin na União Económica Euroasiática (Alexander Kazakov, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP)

Os fantasmas dos anos noventa estão de volta à Rússia. Mas "o império não se verga perante as pequenas coisas" e a máquina de guerra está a preparar-se para o futuro

Nos corredores do Kremlin, um grupo de tecnocratas continua a acumular problemas. Mês após mês, surgem indicadores cada vez mais preocupantes para a economia russa, que está a cair em direção à estagnação há três trimestres consecutivos. A inflação continua num nível demasiado elevado, os lucros do petróleo estão em queda, a mão-de-obra está em mínimos históricos, o número de empresas que não consegue pagar os seus empréstimos disparou e muitos admitem subir os preços para os consumidores. As brechas podem estar a aparecer, mas os especialistas alertam que isso pode não chegar para afastar o presidente Vladimir Putin dos seus planos. 

"A mentalidade de Putin está presa na recuperação do império e o império não se verga perante as pequenas coisas, como as questões económicas. Se for preciso, este conflito pode durar décadas e é precisamente para essa realidade que se está a preparar. O Kremlin está a mentalizar o seu povo de que a guerra está para durar", alerta o tenente-general Rafael Martins. 

Mas, enquanto isso, nos círculos mais restritos do poder russo os alarmes começaram a soar. O líder do Sberbank, uma das principais instituições financeiras do país, afirmou que o seu banco teve um crescimento "muito modesto" devido ao que diz serem "as condições macroeconómicas desafiantes". O mais impressionante é que estas palavras de German Gref foram ditas diretamente ao presidente russo, Vladimir Putin, que se desdobra em grandes esforços para mostrar que a economia russa continua robusta e não sofre com as sanções ocidentais. 

O próprio Banco Central da Rússia admite que a economia do país pode acabar o ano mergulhada numa recessão, depois de três trimestres de abrandamento. Entre julho e setembro, o PIB russo cresceu apenas 0,6%, caindo de 1,1% e 1,4% dos trimestres anteriores. A instituição liderada por Elvira Nebiullina prevê que o PIB russo oscile entre um crescimento de 0,5% e um decréscimo de -0,5%. Além disso, numa rara admissão de vulnerabilidade, a responsável alertou que baixar as taxas de juro dos atuais 16,5%, um valor apenas ultrapassado pela Turquia e Argentina, pode causar um "processo tipo avalanche" que mergulharia o país num cenário de hiperinflação, com a inflação a ficar acima da taxa de juro.

"O que aconteceria [se o Banco baixasse as taxas de juro]? Toda a gente vai pedir empréstimos. Isto levará a um aumento da procura, mas o mercado de bens e de serviços não consegue crescer rapidamente porque todos os recursos para expansão estão esgotados - principalmente a mão-de-obra. Isso aumentaria a inflação acima de 12%.E o que isso significa? Se ao mesmo tempo a taxa de juro estiver em 12%, vai desencadear um processo tipo avalanche, porque a taxa real vai ser negativa e isso vai empurrar tanto o crédito e a procura ainda mais alto, com os preços a subir ainda mais rapidamente, num ciclo vicioso", alertou Elvira Nebiullina, durante uma conferência de imprensa. 

Este diagnóstico traz de volta os fantasmas do colapso da União Soviética, que mergulhou numa espiral de hiperflação, que ficou marcada na consciência coletiva como sendo um dos períodos mais negros da história do país. Só que as condições económicas apertadas estão a pressionar o setor privado russo. Um quarto das empresas russas atrasou-se no pagamento de prestações de empréstimos, de acordo com o diário económico russo Izvestia, que analisou dados do Banco Central da Rússia. Segundo o jornal, os motivos oscilam entre um elevado endividamento, dificuldade em pagar empréstimos antigos que viram os juros aumentar significativamente e uma queda dos lucros devido à diminuição da procura. Os especialistas russos acreditam que a situação é "perigosa e duplica o risco de incumprimentos e novas falências".

"A verdade é que a economia russa está a passar por um processo de transição calculado pela sua liderança. Está a desviar-se do Ocidente e a reorientar-se para o Oriente. Está a adaptar-se a tudo o que está a acontecer. São consequências calculadas pelo governo russo", defende o economista João Rodrigues dos Santos. 

Os lucros das empresas russas registaram uma queda significativa, baixando de 20 biliões de rublos nos primeiros oito meses de 2024 para 17,6 biliões nos primeiros oito meses de 2025. A publicação atribui a queda à diminuição da procura por parte dos consumidores, ao aumento dos custos devido à falta de mão-de-obra, aumento de impostos, subida dos gastos com juros e um aumento dos custos da importação de equipamento e matérias-primas devido a sanções e problemas logísticos.

E do ponto de vista orçamental as coisas não estão com muito melhor aspeto. As receitas do governo vindas do gás e do petróleo caíram 27% em outubro, em comparação com o ano anterior. O governo russo recebeu 10,9 mil milhões em impostos da venda de gás e petróleo, menos 3,9 mil milhões que no ano anterior. Em causa está uma combinação de fatores que está a ser mortífera para o equilíbrio das contas russas: a queda do preço do petróleo nos mercados internacionais e, crucialmente, o impacto das sanções americanas.

A combinação de fatores fez com que a Rússia tivesse de recorrer à venda de petróleo abaixo do preço de mercado para tornar o produto atrativo aos compradores. A 10 de novembro, o desconto do preço do barril de crude dos Urais atingiu os 19,4 dólares nos portos de Primorsk e Novorossiysk. Um mês antes, o valor do desconto era de 11 dólares. Esta erosão constante das receitas energéticas da Rússia apresenta-se como uma enorme dor de cabeça para o Kremlin, que continua a depender significativamente das exportações de hidrocarbonetos para financiar não só o esforço de guerra, como também a política interna.

A situação é agravada pelo facto de as recentes sanções dos EUA contra as gigantes estatais Rosneft e Lukoil estarem a criar ansiedade no mercado asiático, o principal destino do petróleo russo após o corte com a Europa. As grandes empresas estatais chinesas suspenderam as compras de petróleo russo, num rombo claro no mercado que representa a maior parte das exportações marítimas russas. Este medo de sanções secundárias levou mesmo refinarias privadas, geralmente mais tolerantes ao risco, a evitarem o produto.

A Agência Internacional de Energia (IEA) alertou que estas medidas "podem ter as implicações mais abrangentes para os mercados globais de petróleo" e representam um risco de "declínio significativo" na produção russa. A consequência imediata é que o petróleo não vendido está a acumular-se em petroleiros, usados como armazéns flutuantes. De acordo com a IEA e com análises da Bloomberg, a Rússia está a armazenar petróleo nestes navios a um ritmo mais rápido, contribuindo significativamente para um aumento global de 194 milhões de barris de petróleo flutuante nos últimos dois meses. 

Mas a principal ameaça contra "fortaleza económica" criada por Vladimir Putin e o seu batalhão de tecnocratas não é de natureza financeira. A raiz do problema é a falta de pessoas. A Rússia enfrenta uma escassez crónica de mão-de-obra, agravada por uma guerra que precisa de um número cada vez maior de soldados e já tirou a vida de, pelo menos, 219 mil e feriu centenas de milhares mais. Atualmente, a Rússia tem um défice laboral de 2,2 milhões de trabalhadores e tem uma taxa de desemprego de 2,1%, um mínimo histórico que reflete a enorme sangria demográfica russa. Para reter trabalhadores, as empresas sobem salários; para pagar salários, sobem preços. O resultado é a inflação persistente que Nabiullina tenta desesperadamente combater.

Apesar de os vários indicadores que preocupam tanto o governo como o setor privado, quem espera um colapso iminente que force o fim da guerra poderá não ter sorte. Para Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar do think tank norte-americano Defense Priorities, "não há nenhum conjunto de custos económicos ou quantidade de dor económica interna que leve Putin a parar a guerra antes de atingir os seus objetivos". A analista acredita que a indústria de defesa russa, a funcionar em regime de "economia de guerra", criou uma dinâmica própria, impulsionando a produção industrial artificialmente.

"É uma bolha que não vai rebentar durante algum tempo", explica Kavanagh, sublinhando que, para Putin, este é um conflito existencial. "A sua legitimidade e o seu legado dependem agora da sua capacidade de vender o resultado da guerra na Ucrânia como um sucesso. Nenhum custo é demasiado elevado. Não devemos subestimar a capacidade de Moscovo para navegar, mesmo em condições económicas difíceis".

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