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Há cães e gatos salvos da linha da frente na Ucrânia de formas originais

CNN , Ivana Kottasová​​​​​​​, Svitlana Vlasova, Daria Tarasova-Markina e Victoria Butenko
27 abr, 08:22
Barsik, o gato, e Zagybluk são retirados das suas caixas de transporte (14.ª Brigada Mecanizada Separada)

Drones, sempre os drones. Várias missões tentam salvar milhares de animais que ficam presos no meio dos combates humanos

É sabido entre os soldados ucranianos que qualquer pessoa que se alistou no exército, mais cedo ou mais tarde, se torna amante de gatos.

Os felinos encontram-se nos locais mais improváveis ​​nas linhas da frente. Em trincheiras, postos de controlo, casas destruídas e pontos de estabilização médica, estão sempre à procura de um pouco de calor e comida em troca de carinho e reforço moral.

Mas até os animais mais resistentes da linha da frente se encontram por vezes em perigo. Foi assim que, no início deste mês, a 14.ª Brigada Mecanizada Separada da Ucrânia acabou por utilizar um drone para salvar um gato e um cão do meio do campo de batalha.

Barsik, o gato, e Zagybluk, o cão, apareciam regularmente nas áreas ocupadas pela brigada antes de, de alguma forma, chegarem a uma das suas posições na linha da frente.

Como era muito perigoso para um humano ir buscar os visitantes de quatro patas ao abrigo, Barsik e Zagybluk foram levados de drone. “Os rapazes colocaram os animais em bolsas especiais respiráveis, amarraram-nas cuidadosamente a um drone e resgataram-nos”, explica Nadiya Zamryga, assessora de imprensa da brigada, à CNN, por telefone.

A responsável afirma que a operação exigiu habilidades especiais do piloto do drone, que teve de conduzir os animais por cerca de 10 quilómetros antes de aterrar de forma “suave”.

Zamryga acrescenta que a evacuação teve um final feliz, pois Barsik acabou por ser reconhecido pelo seu "pai", um soldado que tinha sido ferido e que agora está a recuperar. Devem reencontrar-se em breve, garante.

Barsik, o gato, e Zagybluk são retirados das suas caixas de transporte (14.ª Brigada Mecanizada Separada)
Barsik, o gato, e Zagybluk são retirados das suas caixas de transporte (14.ª Brigada Mecanizada Separada)

Entretanto, Zagybluk está com as tropas na sua posição na retaguarda, longe da linha da frente, onde, segundo Zamryga, está a prosperar. "O stress do voo do drone passou muito rapidamente. Estes animais estão com os soldados há dois anos e não estão dispostos a abandonar o seu camarada", reitera.

O cão Zagybluk vive agora na retaguarda da brigada (14.ª Brigada Mecanizada Separada)
O cão Zagybluk vive agora na retaguarda da brigada (14.ª Brigada Mecanizada Separada)
O gato Barsik e o cão Zagybluk foram retirados de um local perigoso na linha da frente por um drone (14.ª Brigada Mecanizada Separada)
O gato Barsik e o cão Zagybluk foram retirados de um local perigoso na linha da frente por um drone (14.ª Brigada Mecanizada Separada)

A determinação de muitos ucranianos em cuidar de animais em tempo de guerra - mesmo no meio do caos e da brutalidade dos primeiros dias da invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022 - comoveu muitos corações em todo o mundo. À medida que a guerra se estende para o seu quinto ano, não há sinais de arrefecimento.

Inga Sakada é diretora de operações da UAnimals, uma das maiores organizações de defesa dos direitos dos animais da Ucrânia. A organização tem participado em evacuações, tratamento e cuidados a milhares de animais nas áreas de combate.

“Duas vezes por mês, a nossa equipa de veterinários desloca-se à zona de combate e trabalha sem parar, por vezes das 07:00 às 22:00, tratando, vacinando e castrando todos os animais que nos são trazidos”, refere, acrescentando que até 500 ou 600 animais podem ser tratados numa única missão veterinária.

Muitas pessoas que são forçadas a separar-se dos seus animais durante as evacuações sabem que podem não conseguir recuperá-los tão cedo, nota Sakada.

“Tivemos pessoas que estavam a sair e não puderam levar as suas vacas. Recebemos uma carta escrita à mão de uma dona, na qual descrevia o temperamento da vaca, como gosta de passar o tempo, o que gosta de comer, como é dócil, que é preciso falar com ela, que ela adora mesmo”, descreve.

A vaca, chamada Lypka, vive agora num abrigo onde já conquistou muitos fãs, frisa Sakada.

O grupo está constantemente a lutar para satisfazer a procura, garante a responsável. Não há voluntários suficientes, não há vagas suficientes em abrigos, não há pessoas suficientes a querer adotar animais perdidos e abandonados. Também não há dinheiro suficiente.

“A quantidade de animais deixados para trás nos territórios da linha da frente é enorme… Em períodos de pico, podemos receber cerca de 100 pedidos por dia e, infelizmente, não conseguimos satisfazer todos”, afirma.

Os voluntários da UAnimals resgataram todo o tipo de animais de locais perigosos, incluindo estas abelhas (UAnimals)
Os voluntários da UAnimals resgataram todo o tipo de animais de locais perigosos, incluindo estas abelhas (UAnimals)
Lypka foi retirada de uma aldeia na linha da frente. Os seus donos escreveram uma carta de duas páginas em que descrevem a sua personalidade e os seus petiscos favoritos (UAnimals)
Lypka foi retirada de uma aldeia na linha da frente. Os seus donos escreveram uma carta de duas páginas em que descrevem a sua personalidade e os seus petiscos favoritos (UAnimals)

Nem todos os animais podem ser salvos. A Federação Equestre Ucraniana afirmou em setembro que um ataque de drone russo atingiu um estábulo e matou vários cavalos de corrida de alto nível. Em outubro, um ataque a uma quinta em Kharkiv provocou um grande incêndio que matou até 13 mil porcos. E esta semana, o chefe do organismo governamental ucraniano que gere a zona de exclusão de Chernobyl alertou que as minas terrestres deixadas pelos militares russos em fuga em 2022 estão a matar animais selvagens na zona, incluindo o cavalo-de-przewalski, uma raça rara e ameaçada.

A UAnimals garante já ter retirado mais de 10 mil animais desde o início da invasão em grande escala, incluindo gatos, cães, tigres, leões, camelos, cavalos, vacas, guaxinins, lobos, burros, porcos-espinhos, lémures, ovelhas e abelhas.

Sim, abelhas. Sakada diz que a UAnimals conseguiu resgatar 13 colmeias de uma aldeia recém-libertada - mas ainda minada - no leste da Ucrânia e transportá-las para Lviv, onde os seus donos estavam abrigados. O pessoal foi picado várias vezes durante a viagem, mas tudo valeu a pena. As abelhas pertenciam originalmente a um sobrevivente do Holocausto que as passou para o seu neto. Sakada refere que o homem chorou ao reencontrar as abelhas.

Enquanto muitos dos animais salvos foram parar a abrigos, outros encontraram novos lares carinhosos.

Yulia, uma residente de Kharkiv que pediu à CNN para usar apenas o seu primeiro nome por razões de privacidade, diz que o seu filho de 10 anos, Timofiy, estava decidido a adotar um gato resgatado. Assim, quando os membros da 14.ª Brigada partilharam a fotografia de um gatinho na linha da frente nas suas redes sociais, a decisão foi tomada - especialmente porque o animal foi encontrado em Kupiansk.

A cidade de Yulia, no leste da Ucrânia, que esteve na linha da frente dos combates durante grande parte dos últimos quatro anos, é a terra natal dos seus pais e onde cresceu.

Os soldados demoraram 20 dias a trazer o gatinho - muito pequeno e bastante sujo - até Timofiy, que se apaixonou por ele instantaneamente.

O pequeno é agora conhecido como Andriuliks-Plush, tendo sido chamado de Andriuliks pelos soldados e depois batizado de Plush por Timofiy.

Yulia diz que, como qualquer gato que se preze, Andriuliks-Plush sabe que é o chefe e não tem medo de o demonstrar.

“Quando os drones [russos] Shahed sobrevoam a casa, ele sobe para o parapeito da janela e observa para onde vão. Não tem medo de barulho nenhum, um verdadeiro gato de combate”, garante Yulia.

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