Drones, sempre os drones. Várias missões tentam salvar milhares de animais que ficam presos no meio dos combates humanos
É sabido entre os soldados ucranianos que qualquer pessoa que se alistou no exército, mais cedo ou mais tarde, se torna amante de gatos.
Os felinos encontram-se nos locais mais improváveis nas linhas da frente. Em trincheiras, postos de controlo, casas destruídas e pontos de estabilização médica, estão sempre à procura de um pouco de calor e comida em troca de carinho e reforço moral.
Mas até os animais mais resistentes da linha da frente se encontram por vezes em perigo. Foi assim que, no início deste mês, a 14.ª Brigada Mecanizada Separada da Ucrânia acabou por utilizar um drone para salvar um gato e um cão do meio do campo de batalha.
Barsik, o gato, e Zagybluk, o cão, apareciam regularmente nas áreas ocupadas pela brigada antes de, de alguma forma, chegarem a uma das suas posições na linha da frente.
Como era muito perigoso para um humano ir buscar os visitantes de quatro patas ao abrigo, Barsik e Zagybluk foram levados de drone. “Os rapazes colocaram os animais em bolsas especiais respiráveis, amarraram-nas cuidadosamente a um drone e resgataram-nos”, explica Nadiya Zamryga, assessora de imprensa da brigada, à CNN, por telefone.
A responsável afirma que a operação exigiu habilidades especiais do piloto do drone, que teve de conduzir os animais por cerca de 10 quilómetros antes de aterrar de forma “suave”.
Zamryga acrescenta que a evacuação teve um final feliz, pois Barsik acabou por ser reconhecido pelo seu "pai", um soldado que tinha sido ferido e que agora está a recuperar. Devem reencontrar-se em breve, garante.
Entretanto, Zagybluk está com as tropas na sua posição na retaguarda, longe da linha da frente, onde, segundo Zamryga, está a prosperar. "O stress do voo do drone passou muito rapidamente. Estes animais estão com os soldados há dois anos e não estão dispostos a abandonar o seu camarada", reitera.
A determinação de muitos ucranianos em cuidar de animais em tempo de guerra - mesmo no meio do caos e da brutalidade dos primeiros dias da invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022 - comoveu muitos corações em todo o mundo. À medida que a guerra se estende para o seu quinto ano, não há sinais de arrefecimento.
Inga Sakada é diretora de operações da UAnimals, uma das maiores organizações de defesa dos direitos dos animais da Ucrânia. A organização tem participado em evacuações, tratamento e cuidados a milhares de animais nas áreas de combate.
“Duas vezes por mês, a nossa equipa de veterinários desloca-se à zona de combate e trabalha sem parar, por vezes das 07:00 às 22:00, tratando, vacinando e castrando todos os animais que nos são trazidos”, refere, acrescentando que até 500 ou 600 animais podem ser tratados numa única missão veterinária.
Muitas pessoas que são forçadas a separar-se dos seus animais durante as evacuações sabem que podem não conseguir recuperá-los tão cedo, nota Sakada.
“Tivemos pessoas que estavam a sair e não puderam levar as suas vacas. Recebemos uma carta escrita à mão de uma dona, na qual descrevia o temperamento da vaca, como gosta de passar o tempo, o que gosta de comer, como é dócil, que é preciso falar com ela, que ela adora mesmo”, descreve.
A vaca, chamada Lypka, vive agora num abrigo onde já conquistou muitos fãs, frisa Sakada.
O grupo está constantemente a lutar para satisfazer a procura, garante a responsável. Não há voluntários suficientes, não há vagas suficientes em abrigos, não há pessoas suficientes a querer adotar animais perdidos e abandonados. Também não há dinheiro suficiente.
“A quantidade de animais deixados para trás nos territórios da linha da frente é enorme… Em períodos de pico, podemos receber cerca de 100 pedidos por dia e, infelizmente, não conseguimos satisfazer todos”, afirma.
Nem todos os animais podem ser salvos. A Federação Equestre Ucraniana afirmou em setembro que um ataque de drone russo atingiu um estábulo e matou vários cavalos de corrida de alto nível. Em outubro, um ataque a uma quinta em Kharkiv provocou um grande incêndio que matou até 13 mil porcos. E esta semana, o chefe do organismo governamental ucraniano que gere a zona de exclusão de Chernobyl alertou que as minas terrestres deixadas pelos militares russos em fuga em 2022 estão a matar animais selvagens na zona, incluindo o cavalo-de-przewalski, uma raça rara e ameaçada.
A UAnimals garante já ter retirado mais de 10 mil animais desde o início da invasão em grande escala, incluindo gatos, cães, tigres, leões, camelos, cavalos, vacas, guaxinins, lobos, burros, porcos-espinhos, lémures, ovelhas e abelhas.
Sim, abelhas. Sakada diz que a UAnimals conseguiu resgatar 13 colmeias de uma aldeia recém-libertada - mas ainda minada - no leste da Ucrânia e transportá-las para Lviv, onde os seus donos estavam abrigados. O pessoal foi picado várias vezes durante a viagem, mas tudo valeu a pena. As abelhas pertenciam originalmente a um sobrevivente do Holocausto que as passou para o seu neto. Sakada refere que o homem chorou ao reencontrar as abelhas.
Enquanto muitos dos animais salvos foram parar a abrigos, outros encontraram novos lares carinhosos.
Yulia, uma residente de Kharkiv que pediu à CNN para usar apenas o seu primeiro nome por razões de privacidade, diz que o seu filho de 10 anos, Timofiy, estava decidido a adotar um gato resgatado. Assim, quando os membros da 14.ª Brigada partilharam a fotografia de um gatinho na linha da frente nas suas redes sociais, a decisão foi tomada - especialmente porque o animal foi encontrado em Kupiansk.
A cidade de Yulia, no leste da Ucrânia, que esteve na linha da frente dos combates durante grande parte dos últimos quatro anos, é a terra natal dos seus pais e onde cresceu.
Os soldados demoraram 20 dias a trazer o gatinho - muito pequeno e bastante sujo - até Timofiy, que se apaixonou por ele instantaneamente.
O pequeno é agora conhecido como Andriuliks-Plush, tendo sido chamado de Andriuliks pelos soldados e depois batizado de Plush por Timofiy.
Yulia diz que, como qualquer gato que se preze, Andriuliks-Plush sabe que é o chefe e não tem medo de o demonstrar.
“Quando os drones [russos] Shahed sobrevoam a casa, ele sobe para o parapeito da janela e observa para onde vão. Não tem medo de barulho nenhum, um verdadeiro gato de combate”, garante Yulia.