O mercado de Pochaina foi um dos alvos do último grande ataque da Rússia. O cheiro a queimado vai ficando cada vez mais intenso e depois vêm bombeiros, polícias e jornalistas. Assim por esta ordem
Ainda antes de nascer o sol, o Telegram notifica-me com imagens do mercado de Pochaina em chamas. É o resultado de mais uma noite de ataques russos contra a capital ucraniana. Horas depois, apanho o Metro para ver o que resta, nestes poucos quilómetros que nos separam.
Aqui, as linhas vermelhas cruzam-se diariamente. Eu sigo pela linha azul até à estação de Pochaina, apenas a duas paragens da praça Maidan. Paro num pequeno quiosque e pergunto à funcionária onde foi a explosão. Sabendo que não fala inglês, digo apenas "raketa" (míssil). Ela responde "priamo" (sempre em frente) e aponta o caminho.
É um daqueles momentos em que percebemos como a guerra se tornou parte da banalidade do quotidiano. Não precisei de explicar mais nada. Bastou uma palavra.
À saída da estação avisto um prédio totalmente queimado. Aproximo-me da polícia para perceber o que aconteceu. Num inglês eslavo, dizem-me que ainda estão a avaliar os danos e a coordenar a resposta às pessoas afetadas. Mas avisam-me de imediato: a explosão foi mais à frente. Aquele edifício já tinha sido destruído meses antes. O do outro lado da rua também.

O mercado fica apenas a três minutos, mas, pelo caminho, entro numa livraria. Lá encontro Mykola, o gerente. Ele e os restantes funcionários apanham vidros do chão e fazem o inventário dos estragos. Diz-me que é a segunda vez que a loja é atingida. Encolhe os ombros, como quem já sabe o guião. "Temos de continuar." Quer voltar a abrir portas assim que for possível.
Sigo finalmente para o mercado. O cheiro a queimado torna-se cada vez mais intenso. Vejo os carros dos bombeiros, da polícia e os primeiros repórteres. Normalmente, chegam por esta ordem.
Há uma cratera no chão, daquelas que se fazem por lazer na areia da praia. Ao lado, permanecem pedaços do míssil. Apenas um carro continua estacionado, completamente esburacado, como se fosse uma viatura de assaltantes em fuga num filme de ação. Mas não são balas a origem daqueles orifícios: são estilhaços. Imagino o que fariam ao corpo de uma pessoa. Não haveria hipótese de sobrevivência.
Talvez o escudo do Capitão América fosse a única proteção capaz de travar algo assim. E, no fundo, é esse escudo que Volodymyr Zelensky continua a procurar em Washington. Os sistemas Patriot permanecem a defesa mais eficaz contra mísseis balísticos russos. Quando escasseiam, torna-se impossível intercetar tudo. O resultado não se mede apenas em estatísticas ou comunicados militares; mede-se em crateras como esta, em mercados destruídos e em vidas que dependem de um míssil que conseguiu — ou não — ser intercetado.
Entro por entre os escombros enquanto cinzas continuam a cair sobre o meu casaco. Os bombeiros, de mangueiras em punho, previnem reacendimentos. Passo por lojas repletas de caixas negras, testemunhas silenciosas do incêndio. Meia dúzia de proprietários tenta perceber o que ainda pode ser salvo entre porcelanas, roupa e outros produtos.
Este era um mercado modesto, longe da beleza do Bolhão. Hoje é apenas mais um ponto no mapa dos ataques russos a Kiev. Tal como o Bolhão poderá levar anos a reabrir, como uma fênix renascida das cinzas, quando o cinzento se tornar cimento e a destruição betão. Porque, nesta cidade, reconstruir deixou de ser um ato extraordinário para ser um ato necessário, repetido ao expoente da loucura. Resistindo à banalização da palavra "resiliência", esta gente muito nobre e leal permanece invicta.
Francisco Cordeiro de Araújo é especialista em Direito Internacional e está na Ucrânia em serviço especial para a CNN Portugal
