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Especialista em Direito Internacional

Quando a análise vai ao terreno. Comentar a guerra na Ucrânia

27 ago, 19:58
(CNN)
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Como analistas, a nossa análise em estúdio baseia-se, muitas vezes, em informações de várias fontes que nos são apresentadas em números. Quantas vítimas mortais, o número de feridos, quantos mísseis e drones lançados, entre outros indicadores que nos permitem dizer se foram ataques com maior ou menor dimensão.

Dependendo também da restante agenda mediática, o destaque surge de forma recorrente como um ataque maciço ou em larga escala contra a capital ucraniana. Os ataques tornaram-se tão frequentes que as próprias redações, por todo o mundo, já não os tratam como uma notícia extraordinária e o telespectador já não os recebe necessariamente como uma “informação dramática”.

Depois das imagens difundidas pelas agências internacionais e da contextualização, os comentadores procuram analisar em que ponto vai o conflito, cruzar expectativas de diferentes fontes, escrutinar o envolvimento internacional e, ciclicamente, o possível sucesso de negociações de paz.

Quando um comentador consegue aliar uma boa capacidade de comunicação a uma base sólida de conhecimento e a um raciocínio apurado, desafia o telespectador a pensar ou a compreender mais sobre determinado assunto. Quando há opiniões diferentes, no caso de as convicções resultarem de uma análise séria dos factos, o debate torna-se ainda mais interessante.

Não obstante todos estes pontos que julgo pertinentes, no exercício do comentário, tal como na docência, sinto que facilmente caímos em bolhas mediáticas ou académicas. Tal como numa sala de aula não posso ser apenas a ponte para doutrinas de biblioteca, explicando as normas e princípios do Direito Internacional sem refletir sobre as suas violações, num estúdio devemos procurar ir além dos focos e dos números do ciclo noticioso.

Se no comentário nacional sair da bolha significa frequentar locais, utilizar serviços públicos, conhecer o funcionamento das instituições e falar com pessoas que dizem mais do que sondagens, o tal país real, no comentário internacional esse desafio é geograficamente mais difícil.

Descobrir o mundo real vai ainda além de conhecer os corredores das instituições internacionais. Muitas vezes é preciso ver como a geografia e a História se refletem nas sociedades, percebendo que estas também não são uniformes. Claro que é mais do que viajar e conhecer pessoas, senão um gap year seria uma credencial suficiente, mas ter mundo também passa por esse itinerário.

No caso de um conflito armado, essa experiência de terreno, apesar de não ser recomendável para a saúde mental, aprofunda a análise e muda o foco, decifrando também a guerra de informação. Em estúdio, conseguimos, de forma mais estável, assegurar uma análise mais macro, mas no terreno testemunhamos as repercussões micro, e as duas não estão dissociadas.

Tal como qualquer telespectador, cresci a ver imagens nos noticiários sobre a guerra, mas felizmente nunca a tinha sentido. Estou pela quinta vez na Ucrânia e a perceção muda. Não sobre o contexto da agressão: tal como qualquer comentador sensato, sabemos identificar a vítima e o agressor, as violações reiteradas do Direito Internacional e a necessidade do apoio internacional.

Mas tudo se sente de forma diferente aos comentários em estúdio que há vários anos fazemos sobre vários assuntos. A demora do apoio internacional, que se traduz na falta de interceptores, significa que, na próxima informação sobre o lançamento de mísseis balísticos, teremos mais receio, compreendendo a sua urgência. Não só vamos mais rapidamente para o abrigo ou para o local possível de proteção, como testemunhamos de forma diferente o rescaldo dos ataques.

As imagens sensibilizam, mas conhecer as pessoas mais afetadas é ainda mais difícil de digerir. As violações do Direito Internacional aqui têm rosto e família. Quando há uma semana se chega a um prédio perfurado por um míssil e se veem as famílias à porta, sabendo que perderam vizinhos e a sua casa, quando há duas semanas se agarra num pedaço de míssil que sabemos ter assassinado pessoas que fugiam para um abrigo, quando há três semanas andámos pelos destroços de um mercado reduzido a cinzas, com os trabalhadores a recolherem a ínfima parte que restava, sabemos que as negociações de paz são mais um debate de estúdio do que uma expectativa que estas pessoas possam criar.

De igual forma, quando centenas de pessoas saem às ruas, conseguimos mais facilmente perceber as suas razões e o que significam na luta política interna, conseguindo também perceber os vieses de cada meio de comunicação nacional. Quando discutimos política num café, percebemos que, tal como em qualquer democracia, a unidade de um povo não significa uniformidade.

Quando lemos os escândalos de corrupção, vemos também as assimetrias de riqueza e a frustração da população, que toma como uma das maiores traições esta criminalidade em tempo de guerra. Quando vemos as delegações internacionais presentes de forma permanente ou as efemérides, mais ou menos visíveis, comprovamos as dinâmicas dos apoios que são trabalhados e percebemos que os mais importantes são, muitas vezes, discretos.

Quando não só lemos as projeções de números de mortos, mas conhecemos as suas famílias, percebemos o seu impacto no presente e no futuro do país. Conseguimos perceber o significado de desaparecido quando mães nos dizem que nunca receberam o corpo do seu filho. Conseguimos olhar de outra forma para o saldo demográfico.

Quando conversamos com um maestro de uma Ópera, interrompida por um alerta aéreo, que perdeu artistas na linha da frente, funcionários de um museu ou o diretor de um estádio de futebol atingidos por outro mísseis, sabemos que os impactos são transversais e que a violações das normas internacionais vão além das mortes civis.   

Quando entramos num centro de reabilitação e vemos mais amputados em cinco minutos do que em toda a nossa vida, sabemos que, para milhares de pessoas, a sua vida está condicionada. Quando falamos com pessoas da linha da frente, percebemos que os mapas coloridos não retratam tudo. Quando nos contam os horrores quotidianos ou vemos as suas fotografias nos memoriais a serem mudadas pelos seus pais, percebemos que os graves problemas de mobilização, além de um sistema ineficiente, se traduzem numa simples constatação humana que nada diz sobre o reconhecimento da necessidade de defesa do país: as pessoas têm medo de morrer.

Quando ouvimos os impropérios durante os ataques e no seu rescaldo dirigidos ao agressor, vemos os monumentos soviéticos que se alteram, as pessoas que cresceram a falar russo e que agora se recusam a falar nessa língua, temos perfeita noção do que alguns convenientemente apelidam de “russofobia”. É o mesmo nível de ódio de uma mulher para um ex-marido que a agrediu e que agora sente a urgência de apagar as suas fotografias, memórias e até o seu nome, querendo esquecer esse passado, mesmo sabendo que ele não vive longe.

Quando vivemos o inverno, o frio que chega aos menos 20 graus, a falta de eletricidade nas casas depois dos bombardeamentos e nos explicam os planos de contingência, percebemos como a Rússia escolhe os seus alvos e como confia na desmoralização do povo ucraniano.

Aqui conhecemos o cidadão comum, o que vive sob ataques, o que perdeu família e até o que fugiu de um território ocupado que chamava casa e que sonha voltar. Aqui vê-se que os ucranianos sofrem, bastante, que querem a paz, mas que compreendem que paz também significa não viver oprimido, com o constante receio de uma nova invasão.

É esta experiência de terreno que acredito que completa a análise. Não substitui a importante análise de estúdio, necessariamente menos ofegante, nem a informação jornalística criteriosa. Mas não são apenas os jornalistas que devem ir ao terreno procurar informação. Também os analistas devem procurar conhecer de perto cada ecossistema em que se queiram especializar, conjugando conhecimento teórico e prático.

Tal como um jornalista recorre à sua experiência de terreno para saber o que perguntar, um analista apoia-se nessa experiência para saber responder.

No terreno, não passamos a ter necessariamente mais informação. Temos outra informação. Aquela que não cabe num mapa, não aparece numa estatística e não é transmitida por uma agência internacional. É ser testemunha ocular do que se analisa. 

E é por isso que, quando a análise vai ao terreno, a guerra não muda necessariamente de natureza. Muda a nossa perceção sobre aquilo que estamos a analisar.

Francisco Cordeiro de Araújo é especialista em Direito Internacional e está na Ucrânia em serviço especial para a CNN Portugal

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