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Especialista em Direito Internacional

O comboio ucraniano que o deputado do PS ainda não apanhou

10 ago, 15:02
(Francisco Cordeiro de Araújo/CNN)
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As férias parlamentares chegaram e os deputados seguem para vários destinos, uns voltam para a sua terra, outros vão visitar outras e alguns até gritam “pouca terra, pouca terra”. A escolha entre comboios na festa da aldeia e a ferrovia estrangeira é legítima.

Depois de entrevistar quase duas centenas de deputados, depois de fundar o projeto Os 230, confesso que aprecio que os deputados tenham mundo, vão lá fora e vejam o que deve melhorar cá dentro. Como cidadão que já visitou 65 países, sei que as viagens nos fazem crescer e aprimoram a análise que fazemos do nosso país.

Não tenho especial interesse em conhecer as playlists dos nossos políticos, as recomendações de verão ou por onde vão andar nestas férias. O  dilema Monte Gordo ou Quarteira, a festa do Avante ou a festa laranja são informações de revista cor-de-rosa.

No entanto, fiquei muito surpreendido por saber que um deputado do Partido Socialista iria passar pela Rússia. O deputado José Carlos Barbosa decidiu ir cumprir um dito sonho de infância de ir de Portugal à China de comboio. Também eu já sonhei em ir de carro até Vladivostok, ou de comboio de Lagos a Singapura, depois de conhecer pessoas que fizeram diferentes aventuras.

Contudo, o meu agosto não será passado a fazer mochilões como antes, mas, de mochila preparada para ir para o abrigo, escolhi estar a trabalhar na Ucrânia e essa é uma decisão pessoal. Não conto visitar a Rússia nos próximos anos. São Petersburgo terá que esperar porque não tenho síndrome de Estocolmo. Sei dos riscos que aqueles que criticam abertamente e publicamente Putin enfrentam, mas sobretudo não quero normalizar um país que ameaça diariamente o espaço europeu e lançou uma brutal agressão não provocada. Vejo as suas consequências diariamente.

Com que cara diria a um ucraniano que sofre ataques diários que estou solidário, mas que ao mesmo tempo faço turismo na Rússia? De igual modo, confesso-me envergonhado de saber que um deputado do meu país, do espaço moderado, o está a fazer. Dos campos mais radicais, sabemos o posicionamento no Parlamento Europeu, mas deste campo esperávamos mais responsabilidade e coerência.

Não confundo normalização com propaganda, nem vejo neste deputado um ativo russo, mas tal como Joe Biden, que adorava comboios, também este deputado parece um pouco alheado da dimensão da questão. As críticas que lhe são feitas não se tratam da “silly season liberal”, nem de ataques ao seu partido; são daqueles que esperavam outra atitude da sua parte. Achar que os interesses pessoais e hobbies se sobrepõem à coerência necessária exigida a quem tem funções representativas é ingenuidade ou negligência.

A estupefação não é apenas da comunidade ucraniana pela forma como tem adjetivado e o que tem ignorado durante a sua viagem à Rússia; é de vários portugueses que conhecem os efeitos devastadores da agressão. Enquanto para o deputado a Rússia é um destino turístico, para os ucranianos é o agressor, e para os europeus, incluindo os do seu partido, é uma ameaça séria.

Que coerência tem o Partido Socialista nas próximas votações a exigir sanções à Rússia, sacrifícios aos empresários portugueses que exportavam para este país, aos consumidores que recebiam produtos mais baratos e contas de energia mais baixas, quando nem a um deputado da sua bancada pede para adiar um passatempo?

Já os Orçamentos do Estado do PS previam apoios financeiros à Ucrânia por via direta ou indireta, um maior gasto em defesa pela ameaça russa ao espaço europeu, todas as posições que o Partido mantém conscientes dos impactos para o contribuinte. Ao cidadão comum exigem-se sacrifícios pela defesa de uma causa justa; o deputado fica pelas palavras.

O texto justificativo nas suas redes sociais demonstra bem que perdeu o comboio da noção. O deputado começa por combater uma acusação que, tanto quanto sei, ninguém lhe fez: a de que viajar para a Rússia o transforma automaticamente num apoiante do regime. A questão é outra e é bastante mais incómoda: um deputado pode ter liberdade para viajar para onde quiser, mas não pode exigir que essa escolha seja entendida como politicamente neutra quando decide transformá-la numa narrativa pública.

É o próprio deputado que diz que está ali para “mostrar aquilo que encontra”. Ora, quando alguém mostra, também escolhe. Escolhe o que filma, quem entrevista, o que pergunta, o que publica e, sobretudo, aquilo que deixa fora do enquadramento. Não é preciso fazer propaganda de um regime para contribuir para a sua normalização. A propaganda diz-nos o que devemos pensar; a normalização pode simplesmente fazer-nos esquecer aquilo que deveríamos continuar a ter presente.

E aqui está a primeira incoerência do texto: ao mesmo tempo que insiste que a viagem é apenas uma aventura pessoal, passa vários parágrafos a justificar politicamente aquilo que está a fazer. Se fosse apenas uma viagem de sonho, talvez não precisasse de escrever um manifesto sobre liberalismo, privatizações, Israel, Gaza, a Iniciativa Liberal e a moral internacional.

Não sendo eu da Iniciativa Liberal, nem de nenhum partido, sei que a liberdade de fazer uma escolha não inclui a liberdade de ficar imune à crítica sobre essa escolha. Ninguém está a pedir que o deputado seja proibido de entrar na Rússia. Está-se a perguntar se, enquanto deputado, considera que é uma boa ideia transformar um país agressor da Ucrânia numa espécie de diário de viagem durante uma guerra que também ameaça a segurança europeia.

Há ainda uma curiosa confusão entre experiência pessoal e realidade coletiva. O deputado conta-nos que falou com jovens russos que não querem a guerra, que utilizam VPN, que acompanham redes sociais e que querem que o conflito termine. É perfeitamente possível, e até desejável, que assim seja. Mas algumas conversas num comboio não são um referendo à sociedade russa e nem sempre alcançam o sentido exato da expressão “acabar com a guerra” e o conformismo perante o sofrimento ucraniano. 

E depois há a comparação com Israel, que ocupa uma parte considerável da sua defesa. É uma velha estratégia argumentativa: se os outros são incoerentes, então a nossa posição deixa de poder ser criticada. Não deixa. Se um deputado tem uma relação excessivamente cúmplice com o Governo israelita, isso pode e deve ser discutido. Se alguém participa em iniciativas que ignorem o sofrimento dos palestinianos, também merece escrutínio. Mas a eventual hipocrisia de quem o critica não transforma a Rússia numa democracia, não apaga a invasão da Ucrânia e não torna a sua viagem politicamente irrelevante.

Aliás, há aqui uma ironia: o deputado que acusa os outros de terem uma “moral internacional à la carte” é quem introduz outro conflito na discussão para justificar o primeiro. Como se fosse necessário escolher entre condenar a agressão russa e condenar aquilo que consideramos errado na política israelita. Não é. É possível condenar uma coisa e outra. Os princípios só são universais quando continuam a ser aplicados quando nos são incómodos.

E há uma diferença que a sua defesa parece querer apagar: uma coisa é conhecer os russos; outra é normalizar a Rússia. Ninguém precisa de desumanizar um povo para condenar o Estado que o governa. Aliás, é precisamente porque os russos são pessoas, com famílias, sonhos, medos e opiniões diversas, que a guerra não pode ser reduzida a uma paisagem distante vista da janela de um comboio.

O deputado diz várias vezes que é “pela paz”. Também eu e quase todos nós. Mas “sou pela paz” é apenas o princípio da conversa. A questão política é saber que paz queremos, como se chega a ela e como se garante que a paz não é simplesmente a recompensa de uma invasão bem-sucedida. Dizer que se condena “qualquer agressão, venha de onde vier” é moralmente confortável. Identificar quem agrediu quem e defender as consequências políticas dessa agressão é bastante mais difícil.

E é aqui que talvez esteja a maior diferença entre o meu agosto e o do deputado. Ele decidiu realizar a viagem de sonho que tinha desde criança: atravessar a Rússia de comboio. Eu também gosto de comboios desde pequeno, sou neto de uma funcionária da CP. Gosto da ideia romântica de atravessar países pela ferrovia, de ver as cidades desaparecerem pela janela, de conhecer pessoas numa carruagem e de acordar numa estação diferente daquela onde adormeci.

Mas há outro comboio que o deputado ainda não apanhou. É o comboio ucraniano.

Um comboio muitas vezes usado não por escolha, mas por necessidade, perante um espaço aéreo que está fechado desde que mísseis e drones russos ocupam o céu. Os comboios ucranianos são semelhantes aos que atravessam a Rússia. Há carruagens estilo soviético, camas nos compartimentos, revisores, crianças, estudantes, famílias, pessoas cansadas e pessoas que simplesmente querem chegar a algum lado. 

A grande diferença é que, na Ucrânia, é frequente a viagem ser interrompida para evacuar os passageiros para um abrigo. O que lhe permite ver o comboio por fora, de várias perspectivas, enquanto explora a natureza e se esconde atrás de um arbusto à espera da sorte de não sofrer as consequências de um ataque.

Já passei por uma evacuação a meio da noite. Já estive num comboio ucraniano em que a viagem deixou de ser uma viagem. Os alarmes soam, os revisores gritam, os passageiros levantam-se desorientados, pegam nos seus pertences e seguem para um possível abrigo porque há uma ameaça aérea. O que era uma deslocação quotidiana passa a ser uma rotina de sobrevivência.

E estes não são apenas incómodos de viagem. Passageiros ucranianos já morreram em ataques russos. Há famílias que perderam pessoas em estações, comboios e plataformas ferroviárias. Na semana passada, foram oito mortos por um míssil russo quando se preparavam para apanhar um último comboio. Queriam voltar a casa depois de um dia de trabalho, mas nunca chegaram. 

Para essas pessoas, o comboio não é apenas uma metáfora de liberdade, aventura ou descoberta. Pode ser também o lugar onde se tenta fugir de uma guerra ou onde a guerra nos encontra.

É por isso que, quando vejo um deputado português atravessar a Rússia de comboio e publicar imagens da viagem, não penso que ele seja um agente de Putin. Não penso sequer que seja necessariamente um admirador da Rússia.

Penso apenas que está a perder de vista aquilo que a política deve fazer: identificar e procurar corrigir injustiças, não ignorar os que mais sofrem, distinguir entre vítimas e agressores. Ser humanista não se proclama, pratica-se.

Francisco Cordeiro de Araújo é especialista em Direito Internacional e está na Ucrânia em serviço especial para a CNN Portugal

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