A Ucrânia continua a ter pela frente um dos seus problemas históricos: a corrupção
Quando milhares de ucranianos saem à rua para defender um ministro, vale a pena perceber quem é esse ministro. Sobretudo num país onde a confiança na classe política nunca foi propriamente abundante.
As manifestações que percorrem Kiev não contestam a legitimidade de Volodymyr Zelensky enquanto Presidente, nem o seu direito de remodelar o Governo. Contestam, isso sim, a decisão de afastar Mykhailo Fedorov do Ministério da Defesa. Ninguém saiu à rua quando foram substituídos os três ministros da Defesa anteriores desde o início da invasão em larga escala. Com Fedorov foi diferente.
Basta caminhar entre os manifestantes para perceber por quê. O seu nome aparece nos cartazes, nas palavras de ordem e até numa gigantesca carta "Uno Reverse", pedindo a inversão da decisão presidencial. O que muitos ucranianos reclamam não é apenas o regresso de um ministro. É o regresso daquilo que ele simboliza.
A Ucrânia continua a enfrentar um dos seus problemas históricos: a corrupção e a promiscuidade entre interesses políticos e económicos. Não é uma preocupação recente. O próprio Zelensky construiu a sua carreira política a denunciar esse sistema. Antes de chegar à Presidência, protagonizou a série Servo do Povo, onde interpretava um professor que, inesperadamente, chegava ao cargo de Presidente e enfrentava precisamente essas estruturas.
A ficção tornou-se realidade. Em 2019, Zelensky venceu as eleições presidenciais com uma maioria esmagadora, criou um partido com o nome da série e conquistou também uma maioria absoluta parlamentar. Era o rosto de uma promessa reformista.

A guerra alterou profundamente as prioridades do país, mas também a forma como os ucranianos olham para o Presidente. Continua a ser a principal figura da resistência nacional e um dos líderes mais respeitados no plano internacional. Ainda assim, a sensação que recolhi em várias conversas é que muitos ucranianos distinguem dois Zelensky: o líder externo, que conseguiu mobilizar o apoio do Ocidente, e o Presidente interno, que nem sempre conseguiu concretizar as reformas prometidas.
O episódio das agências anticorrupção foi um exemplo disso. Quando o Parlamento aprovou alterações legislativas que enfraqueciam esses organismos, milhares de pessoas saíram à rua. Zelensky acabou por recuar. A mensagem era clara: mesmo em guerra, a sociedade civil continua disponível para escrutinar o poder.
Foi nesse contexto que surgiu Fedorov na Defesa, depois de liderar a transformação digital do Estado ucraniano. Foi precisamente essa reputação de reformista e gestor eficaz que levou muitos ucranianos a vê-lo como alguém capaz de modernizar também um dos ministérios mais sensíveis do país.
Tudo indica que o principal foco de tensão não era entre Fedorov e Zelensky, mas entre Fedorov e o então comandante Oleksandr Syrskyi. Durante meses acumularam divergências sobre a condução da guerra, a modernização das Forças Armadas e o ritmo das reformas. A coordenação entre ambos deteriorou-se a ponto de comprometer o funcionamento de um dos setores mais importantes do Estado ucraniano.
Perante esse impasse, Zelensky tinha de escolher. A minha leitura é que optou por preservar o equilíbrio da estrutura militar num momento particularmente delicado da guerra, mesmo que isso implicasse perder um dos ministros mais populares do Governo.
A decisão revelou-se politicamente dispendiosa. Zelensky resolveu um problema na estrutura militar, mas abriu outro na esfera política, desta vez nas ruas.
Pouco depois, Syrskyi foi substituído por Mykhailo Drapatyi, um comandante mais jovem, associado a uma visão mais tecnológica e menos marcada pela tradição militar soviética, aproximando-se das posições que Fedorov defendia. A mudança foi bem recebida, mas não bastou para travar os protestos.
Fedorov consolidara uma imagem rara na política: a de um dirigente competente e honesto. Defendeu maior transparência nos contratos públicos para aquisição de equipamento militar, aproximou procedimentos dos padrões da NATO e conquistou credibilidade junto de muitos ucranianos e de vários parceiros internacionais.
Nem ele pareceu esperar a demissão. Respondeu quase de imediato numa conferência de imprensa, atitude pouco habitual para um ministro cessante. Zelensky tentou integrá-lo no novo Governo como vice-primeiro-ministro. Fedorov recusou.
Dias depois deixou uma frase que merece atenção. Disse que existem apenas três cargos com verdadeira capacidade para influenciar o rumo da guerra: o Presidente, o comandante das Forças Armadas e o ministro da Defesa.
A minha leitura dessas palavras é simples. Mais do que uma crítica, são um aviso político. Fedorov não parece interessado em ocupar um cargo simbólico. Se regressar, será para exercer influência real. Se não regressar, poderá decidir procurá-la nas urnas quando a guerra terminar.
Os partidos ucranianos continuam profundamente personalizados. Foi assim com Petro Poroshenko. Foi assim com Volodymyr Zelensky. Também parece acontecer com Valerii Zaluzhnyi, cuja popularidade como comandante das Forças Armadas continua a alimentar especulações sobre uma futura candidatura presidencial.
A resposta de Zelensky às figuras mais populares do aparelho de Estado não tem sido sempre a mesma. Zaluzhnyi foi afastado da política interna com a nomeação para embaixador no Reino Unido. Já Kyrylo Budanov, outro dirigente com elevados níveis de popularidade, foi aproximado do Presidente, assumindo a chefia do gabinete presidencial, uma das funções de maior influência no Estado.
Zelensky não está politicamente fragilizado. Continua a ser a principal figura da resistência ucraniana e mantém níveis de popularidade que muitos líderes europeus invejariam. Mas é precisamente por isso que as fissuras no seu apoio merecem atenção.
O maior desafio político de Zelensky poderá não surgir da oposição tradicional, nem de forças pró-russas. Poderá surgir precisamente do mesmo campo político que hoje sustenta o esforço de guerra.
Os protestos por Fedorov vão além da discussão sobre a Defesa da Ucrânia. Fazem ecoar um debate mais profundo sobre o futuro do país.
Francisco Cordeiro de Araújo é especialista em Direito Internacional e está na Ucrânia em serviço especial para a CNN Portugal
