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Editor de Internacional

A Leste tudo de novo: “Eles pensam que são imortais”

27 abr, 22:54

Escrevo no escuro da noite. O comboio que nos leva de Kharkiv para Kiev balança lentamente. Vai vagaroso, demora mais do que é costume. Este embalo não ajuda a descansar, muito menos a organizar as ideias depois de um dia caótico.

O que eu e o David Luz vivemos nesta quarta-feira é só uma ínfima parte do que o povo ucraniano está a passar. O terror de não saber quando a bomba vai cair no sítio onde nos encontramos, escondermo-nos onde podemos e esperar que não nos atinja. Em apenas três dias em Kharkiv passámos de pessoas que se assustavam com o fogo de artilharia para enfrentarmos de peito aberto as bombas que caíam ao nosso lado.

“Eles pensam que são imortais”, disse o homem que nos tirou da rua na pequena Slatyne, vila onde está instalada a frente de batalha junto à fronteira entre a Ucrânia e a Rússia. Estávamos ali, enquanto ouvíamos bombas a passar por cima das nossas cabeças. Até que começaram a explodir a algumas dezenas de metros do sítio onde nos encontrávamos.

A frieza com que encaramos aqueles momentos não é fácil de explicar. O David a querer filmar, a dizer-me para ir à frente para poder apanhar um bom plano. Os sons estridentes, a incerteza de saber se poderíamos sair dali… com vida. Mas há uma espécie de instinto de sobrevivência que nos mantém à tona. Tornamo-nos objetivos. Gravo um testemunho para a câmara e aguardamos pelo momento em que podemos sair dali.

Temia que o nosso carro tivesse sido atingido. Vlad, o nosso fixer, espera por indicações. “Será seguro irmos para o carro?” Não lhe sei responder. Foram cinco ou seis explosões muito próximas, até que aparentemente tinham parado. Tomo a decisão de ir e partimos sem olhar para trás. Arrancamos a toda a velocidade, num cenário caótico de cabos de eletricidade no chão, casas destruídas e mais bombas à distância (os sons que já nos tínhamos habituado). No edifício do apeadeiro está inscrito: “Bem-vindos ao inferno”. Por agora conseguimos escapar.

Para trás ficam aquelas pessoas que nos tentaram abrigar por momentos, que nos agradeceram por termos tido a coragem de ir até tão longe para mostrar a violência dos seus dias. Também o casal que pouco antes lavrava a terra e que se queixava de uma guerra “que é contra as pessoas”. Eles é que pensam que são imortais em permanecer ali.

Como viver numa circunstância destas? Grande parte da Ucrânia enfrenta este sobressalto constante. De Kharkiv a Mariupol, de Kramatorsk a Odessa. As sirenes já não tocam. As bombas caem. Jardins de infância, escolas, casas, prédios, tudo é destruído. Qual a racionalidade disto?

Talvez se alguns altos dirigentes políticos tivessem a oportunidade de contactar com as pessoas que vivem nestas localidade, em vez de fazerem “turismo” de horror, como aquele que já acontece em Bucha e Borodyanka… Talvez se o fizessem uma só vez, a guerra da Ucrânia terminasse rapidamente.

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