Exclusivo: Ucrânia revela à CNN o seu calcanhar de Aquiles

CNN , Nick Paton Walsh, Victoria Butenko, Natalie Wright e Daria Tarasova-Markina
17 ago, 15:54
Lançadores de mísseis Patriot continuam vazios na Ucrânia (CNN via CNN Newsource)
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A Ucrânia enfrenta uma grave escassez de interceptores Patriot, essenciais para travar os mísseis balísticos russos, enquanto a produção mundial não acompanha a crescente procura. Volodymyr Zelensky defende a produção dos sistemas em território ucraniano, mas Washington ainda não deu garantias sobre a cedência das licenças necessárias

É a arma mais procurada do mundo, mas está parada, num campo de milho, com os seus contentores vazios, tendo sido disparada pela última vez há 10 semanas.

O interceptor norte-americano Patriot está no centro de uma crise global de abastecimento, enquanto dezenas de países correm para reforçar os seus sistemas de defesa. É uma das poucas armas capazes de abater mísseis balísticos, numa região do Golfo devastada pela guerra com o Irão, e especialmente aqui, na Ucrânia, devastada pelo aumento quase noturno dos ataques de Moscovo, que fez de julho o mês mais mortífero para os civis desde maio de 2022.

A CNN foi o primeiro órgão de comunicação social a ter acesso a um Patriot em território ucraniano, para que as autoridades ucranianas pudessem revelar um facto: o país praticamente ficou sem interceptores. A CNN concordou em não revelar detalhes sobre o modelo do Patriot ou a sua localização.

Os 16 tubos do sistema que a CNN viu apresentam sinais de utilização regular, mas o seu engenheiro-chefe na Ucrânia, que revelou apenas o primeiro nome, Dmytro, por razões de segurança, afirmou que não via um lançador Patriot disparar há seis semanas. A Ucrânia tem relutado em especificar exatamente quantos interceptores, se é que algum, ainda tem - o presidente Volodymyr Zelensky afirma que o país precisa de 5% das reservas norte-americanas para sobreviver ao inverno, mas atualmente dispõe apenas de 1%.

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"É realmente de partir o coração ver equipamento que se tem, mas não ser possível intercetar nenhum míssil", afirma Dmytro, visivelmente emocionado. "Mísseis balísticos estão a voar por cima da sua cabeça e não se consegue fazer nada contra eles, e atrás de si estão civis."

A primeira vez que ficou sem interceptores para disparar foi em dezembro de 2025. "É difícil descrever - sentimentos fortes e maus", afirma. "É como aprender a andar, mas não ser capaz de andar. Sabe-se como respirar, mas não se é capaz de respirar."

O próprio lançador faz parte de um sistema complexo de radares e centros de controlo e é operado remotamente, com os condutores da unidade longe do lançador quando este dispara. Outro membro da equipa, Heorhi, que trabalha no centro de comando, afirmou que a decisão sobre qual míssil intercetar "vem com a experiência" e é tomada pelo comandante da unidade. "É difícil porque vê alvos a voar que ameaçam a população civil, infraestruturas críticas, bem como as famílias dos meus camaradas e a minha própria família." Descreveu a sensação de lançar o interceptor como "algo mágico".

Lançadores de mísseis Patriot vazios na Ucrânia. CNN

A crise global no fornecimento de interceptores Patriot foi agravada pela sua utilização intensiva no Golfo, em março e abril, muitas vezes para combater ataques de drones iranianos relativamente baratos.

Acredita-se que os ricos Estados do Golfo tenham utilizado dezenas de interceptores, e Dmytro afirmou que sabia que o conflito no Médio Oriente acabaria por afetar a Ucrânia. "Previmos que teríamos problemas. Ficámos muito surpreendidos com a quantidade de mísseis que lançaram ao mesmo tempo... precisamente os mísseis que poderíamos utilizar contra os mísseis balísticos russos", afirma.

As forças da coligação utilizaram, em média, 225 interceptores por dia nos primeiros quatro dias da guerra com o Irão, de acordo com o Foreign Policy Research Institute. A organização referiu que a fabricante Lockheed Martin produziu 620 interceptores em 2025, ou 1,7 por dia, resultando numa diferença de 132 para 1 entre utilização e produção. Em janeiro, o Pentágono assinou um acordo de sete anos para que a Lockheed Martin produzisse 2 mil por ano até 2030, altura em que a guerra na Ucrânia terá oito anos.

Não é claro quantos interceptores os Estados Unidos prometeram à Ucrânia, nem qual é a dimensão das reservas norte-americanas das quais Zelensky afirmou ter 1%. Numa entrevista à CNN, Zelensky abordou a complexa questão de a Ucrânia produzir os seus próprios interceptores, sob licença dos EUA e dos seus fabricantes, afirmando que tinha oferecido à Raytheon e à Lockheed Martin a propriedade e o controlo de qualquer fábrica de produção de interceptores que autorizassem na Ucrânia.

"Será a vossa empresa", recorda que disse aos fabricantes norte-americanos. "Serão os nossos cérebros, as nossas mãos, os nossos engenheiros. E farei o meu melhor para construir uma grande empresa... para eles. Porque não preciso de vender [os interceptores] a mais ninguém, preciso deles para o meu país." Afirma que o seu foco estava no volume de produção e que os fabricantes poderiam definir o preço.

Acrescenta que, ao longo de quase cinco anos de guerra, se tornou especialista em saber quem tinha que capacidade. "Conheço as produções, as instalações, os meios militares e os stocks da maioria dos países da Europa, incluindo dos Estados Unidos. Não tudo, mas muita coisa."

À margem da cimeira da NATO em Ancara, em junho, Trump ofereceu à Ucrânia licenças para começar a fabricar os interceptores. A Raytheon e a Lockheed Martin deslocaram-se a Kiev para se reunirem com Zelensky e, pouco depois, Trump manifestou dúvidas de que o licenciamento avançasse.

"Quero obtê-la", afirmou Zelensky. "Acho que a palavra dele é a palavra do presidente dos Estados Unidos. E espero que a consiga."

Em resposta à entrevista da CNN com Zelensky, um funcionário da Casa Branca afirmou que não tinham sido tomadas decisões nem dadas garantias relativamente à produção de interceptores Patriot e que a segurança da tecnologia norte-americana era uma prioridade.

Questionado pela CNN sobre se conseguiria construir imediatamente uma bateria Patriot e um interceptor, caso lhe fosse permitido ignorar as questões de propriedade intelectual, Dmytro mostrou-se pessimista: "Não. Definitivamente não, porque este é um processo muito complexo e exige muitos conhecimentos e muita informação técnica."

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