Exclusivo em Mariupol. Na terra de ninguém

18 abr, 20:25

O jornalista Bruno Amaral de Carvalho passou a noite em Mariupol, uma cidade onde se (sobre)vive nas caves, ao som das explosões e com mortos pelas ruas

A ideia de dormir em Mariupol tinha dias e foi bem acolhida por uma família que havia conhecido dias antes numa cave de um hotel destruído. Sem o vaivém pela estepe que leva a Donetsk, ganhava três horas e uma noite inteira para tomar pulso a uma cidade fustigada pelas bombas e pela metralha. Desde o primeiro momento, fui adoptado por Dmitri. Tanto para ele, como para a mulher e os quatro filhos, era uma novidade que dava alguma cor ao peso dos dias. Desde há mais de um mês que vivem no que sobra do Hotel Reikartz, a paredes meias com a sede local dos serviços secretos ucranianos. É deste edifício que a população das redondezas arranca tábuas para acender fogueiras. É assim que Dmitri prepara o jantar.

À mesa, há um autêntico banquete que inclui massa com carne, pão, compota, chá e vinho. "É caseiro. Feito pelo meu avô, que já morreu. Bebe. É bom. É feito de ameixas, maçãs e uvas", diz Dmitri. Sem electricidade, gás ou água canalizada, é um verdadeiro milagre que esta gente consegue alcançar a cada dia que passa. Aqui janta-se e dorme-se cedo numa luta para poupar velas e pilhas mas hoje há convidados e o anfitrião não se faz rogado. Já noite dentro, confessa que tem algo que o atormenta. No princípio da guerra, vários soldados ucranianos roubaram-lhe o carro. "Eu vinha de estar numa cooperativa agrícola com a minha mãe. Estava a pôr as coisas em casa. Quando saí, alguém tinha ligado o meu carro sem as chaves. Eu tinha-as comigo. Não sei como fizeram. Suponho que tenham os seus próprios especialistas. Agarrei num ferro e corri", recorda Dmitri. "Queria bater neles. Então encontrei soldados.

Dispararam para o chão na minha direcção. Lembro-me bem das palavras que me disseram. 'Se queres viver, fica longe de nós. Vamos levar o teu carro. Dá-nos os teus documentos e põe-te a andar daqui'. E foi tudo. Fui-me embora. Não podes lutar com um ferro contra metralhadoras, certo?", explica. Questionado sobre quem eram estes militares, responde que eram do Batalhão Azov e que também na cooperativa levaram vários carros.

A caminho da estação 

Amanhece em Mariupol sem que o nova jornada traga sinais de paz. No dia anterior, tivemos de abandonar o Parque da Cidade por falta de segurança mas conseguimos ver um comboio a arder. A ideia de chegarmos à estação ferroviária cobra mais força mas a zona é perigosa. Por opção, as nossas reportagens são feitas sem a cobertura do exército russo, o que nos dá mais flexibilidade mas menos segurança. Numa das ruas, aparece uma mulher atraída pelos coletes que dizem "press". Era agente da polícia ucraniana e pergunta-nos como está a situação militar. Quer abandonar a cidade mas não sabe como porque quer ir para ocidente. Naturalmente, não quer dar a cara. 

Mais à frente, encontramos uma família que se dirige para visitar a babushka, a avó, que vai receber o filho, a nora e a neta pela primeira vez desde há um mês. Acompanhamo-los porque conhecem o bairro. É a meio do caminho que ouvimos pedidos de ajuda. Uma idosa pisou uma mina e sangra da perna. É a primeira vez que vêem jornalistas neste bairro. Pomos um torniquete à volta da perna desta mulher e tentamos que alguém corra até ao centro para avisar os bombeiros ou os soldados. Porque aqui, nem os soldados costumam vir. Não é terra de ninguém, mas quase. Abandonamos a casa de coração apertado e à espera que alguém leve esta idosa ao hospital. 

O caminho até à estação faz-se sem ver ninguém. Alguns cadáveres pelo caminho mostram que o perigo espreita. A estação está entre os dois pontos mais críticos da batalha pelo controlo total da cidade. A linha férrea liga o complexo metalúrgico Azovstal ao porto de Mariupol. Ao fundo, vemos outro comboio em chamas e um idoso que caminha numa estação completamente destruída. Vagueia pela gare ao lado de um cadáver. "Está tudo bem comigo. A minha casa ardeu inteira. Vivo com um vizinho e não sei onde estão os meus filhos. Se vocês puderem contactá-los, digam que estou vivo". É com este duro retrato da guerra que abandonamos Mariupol. À saída da cidade, os militares param-nos. "Fizeram um bom trabalho hoje, rapazes. Salvaram uma vida".
 

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