Ex-comandante do grupo Wagner conta como viu soldados a serem mortos pelos seus próprios comandantes: “Isso chocou-nos profundamente"

CNN Portugal , MJC
17 jan, 22:48

Andrey Medvedev combateu na Ucrânia e contou ao jornal britânico The Gurdian como os soldados do grupo Wagner, maioritariamente vindos das prisões russas, são "carne para canhão". Agora, teme pela sua vida e, por isso, pediu asilo à Noruega

Andrey Medvedev, o antigo comandante do grupo de mercenários Wagner que pediu asilo à Noruega, fugiu da Rússia porque temia pela sua vida. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian realizada no mês passado, mas só agora divulgada, Andrey Medvedev, de 26 anos, contou que na Ucrânia testemunhou o assassínio sumário de combatentes acusados pelos seus próprios comandantes de desobedecer ordens.

Antes de deixar a Rússia, Medvedev falou com o Guardian em vários telefonemas, nos quais descreveu em detalhe o que viveu enquanto combateu no leste da Ucrânia. “Lutei em Bakhmut, comandando o primeiro esquadrão do 4º pelotão do 7º destacamento de assalto”, disse Medvedev em 20 de dezembro. A sua unidade era composta principalmente por ex-prisioneiros que foram atirados para a guerra como "carne para canhão”, disse.

"Deram-me um grupo de condenados. No meu pelotão, apenas três dos 30 homens sobreviveram”, contou. “Recebemos mais prisioneiros, e muitos deles também morreram.”

Medvedev, que cresceu num orfanato siberiano e passou pelo menos quatro anos na prisão por roubo, também afirmou que sabia de pelo menos 10 assassínios de soldados do grupo Wagner que desobedeceram, alguns dos quais ele testemunhou pessoalmente. “Os comandantes levaram-nos para um campo de tiro e foram baleados à frente de todos. Às vezes era mortos aos pares”, contou.

Medvedev descreveu como ficou insatisfeito com o grupo Wagner depois de testemunhar o assassínio e os maus-tratos dos seus soldados: “Isso chocou-nos profundamente".

Foi isso que o levou a sair. Decidiu fugir no início de julho, depois de o seu contrato ter sido repetidamente prorrogado sem o seu consentimento.

“Temo que meu destino seja o mesmo de Nuzhin por falar. Temo pela minha vida”, disse Medvedev em dezembro quando já vivia escondido na Rússia, referindo-se a Yevgeny Nuzhin, um assassino condenado e recrutado pelo grupo Wagner que se rendeu às forças ucranianas, mas depois foi alegadamente entregue à Rússia e executado.

Depois de fugir da sua unidade, na sexta-feira passada, Medvedev cruzou a fronteira com a Noruega, perto do vale Pasvikdalen, onde foi detido pelos guardas de fronteira. É o primeiro soldado conhecido do Grupo Wagner que lutou na Ucrânia a fugir para o estrangeiro.

O advogado norueguês de Medvedev, Brynjulf Risnes, disse à BBC que Medvedev enfrenta agora acusações de entrada ilegal no país. O ex-comandante encontra-se num “lugar seguro” enquanto seu caso está a ser analisado. “Se ele obtiver asilo na Noruega, essa acusação será retirada automaticamente”, disse Risnes. “Ele declarou que está disposto a falar sobre suas experiências no Grupo Wagner para as pessoas que estão a investigar os crimes de guerra”, acrescentou o advogado.

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