Ex-chefe das forças armadas da Ucrânia diz que países da NATO estão presos ao modelo da Guerra da Coreia

17 out 2024, 18:16
General Valerii Zaluzhnyi (Yuliia Ovsiannikova / Ukrinform/Future Publishing via Getty Images)

Países da NATO estão presos

Valerii Zaluzhnyi, que foi o cérebro da contraofensiva ucraniana, foi afastado do cargo pelo presidente da Ucrânia no ano passado, sendo os contornos deste afastamento ainda pouco claros

Os exércitos dos países que formam a NATO estão presos ao passado. Continuam a basear-se em princípios de segurança e de armamento “herdados da Guerra da Coreia”, que não estão a ser relevantes nos conflitos modernos e nem o vão ser nos próximos. O aviso é do antigo chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Valerii Zaluzhnyi.

“Não vai haver uma guerra do modelo de 1953. Estou a falar da Guerra da Coreia. Terminou no verão de 2023 na Ucrânia, quando dois exércitos profissionais com mais de um milhão de homens se enfrentaram no campo de batalha”, garante, em declarações ao Kyiv Independent, esta quinta-feira.

E prova disso mesmo é, exemplifica, o uso das novas tecnologias no campo de batalha. É o caso dos drones, de outros sistemas não tripulados e até da inteligência artificial. Mas nem tudo é bom.

Zaluzhnyi, o novo embaixador ucraniano no Reino Unido, considera que é impossível produzir mísseis, caças e porta-aviões, que são economicamente dispendiosos, a uma “escala alargada”, exigida pelas guerras dos tempos modernos, o que significa que estes sistemas vão tornar-se menos eficientes.

As declarações, feitas na Chatham House, em Londres, acontecem enquanto os ministros da Defesa da NATO se reúnem em Bruxelas, esta quinta e sexta-feira, bem como o Conselho Europeu, onde vai estar presente o presidente ucraniano. Volodymyr Zelensky apresentou na quarta-feira parte do seu Plano da Vitória, que coloca como prioridade a integração da Ucrânia na NATO "agora".

O objetivo ucraniano prende-se com a “garantia" de que Kiev "nunca mais é atacada”, explicou o major-general Isidro de Morais Pereira à CNN Portugal. Isto porque, enquanto parte da Aliança, a NATO teria de invocar o artigo 5.º, referente à defesa coletiva, e envolver todos os Estados-membros no conflito contra Moscovo para defender Kiev.

Enquanto tal não acontece, Valerii Zaluzhnyi avisa que é “quase impossível” fugir a uma guerra “prolongada” entre Ucrânia e Rússia. E a responsabilidade dessa inevitabilidade parece caber aos aliados ocidentais. O ex-líder das tropas ucranianas lembra que o Ocidente não forneceu a Kiev um número suficiente de armas no ano passado, pelo que o país ainda não conseguiu alcançar “um sucesso significativo na derrota da Rússia” durante a contraofensiva.

“Consequentemente, acabámos num estado de guerra prolongada. Na minha opinião, uma saída para esta guerra prolongada parece... quase impossível”, diz, ao jornal ucraniano.

Terá sido precisamente o estado do conflito que levou à discórdia entre Zaluzhnyi e Zelensky e, consequentemente, ao afastamento do chefe das forças ucranianas. Para Zaluzhnyi, a guerra não era "um espetáculo" e "cada metro" era "conquistado com sangue". No momento em que deixou o cargo, em novembro do ano passado, defendia que o conflito se encontrava num “impasse” e iria transitar para uma fase em que a Rússia conseguiria restabelecer o seu poder militar, avisou então numa entrevista ao The Economist.

O general Oleksandr Syrskyi foi o escolhido para o seu lugar e para mudar o rumo da guerra.

Afastar as influências soviéticas

A Ucrânia teve de mudar a abordagem no que toca ao recrutamento dos soldados para a guerra, de modo a afastar as influências soviéticas. Mas é preciso mais tempo para uma reforma completa, observa também Valerii Zaluzhyni.

“À medida que mudamos o nosso país, a nossa mentalidade... (e) ordenamos o nosso país numa base democrática, tivemos de mudar também a nossa abordagem à mobilização", explica, admitindo que a herança soviética ainda se sente no sistema de recrutamento ucraniano. E acrescenta: “Só poderemos mudar essa situação quando tivermos tempo suficiente para criar toda uma geração que, sem qualquer interferência do Estado, pegue em armas e vá defender a sua casa.”

Contudo, acrescenta, o país não tem "o luxo do tempo", pelo que é necessário "recorrer a certas limitações". "Numa sociedade democrática, tudo isto é visto como muito controverso”, considera.

Durante o processo de reforma, admite o antigo líder das tropas de Kiev, a Ucrânia cometeu uma série de erros, que duram há vários anos. Zaluzhyni alerta também que a Rússia vai procurar utilizar indevidamente quaisquer possíveis tensões no seio do poder ucraniano, enquanto leva a cabo a guerra no “espaço informativo e cognitivo”, tornando a “mobilização ainda mais difícil”.

No final do ano passado, o presidente Volodymyr Zelensky revelou que as forças armadas, ainda sob o comando de Zaluzhyni, queriam convocar entre 450.000 a 500.000 pessoas para travar uma guerra prolongada contra as tropas russas. Contudo, o agora embaixador no Reino Unido negou que tal fosse verdade.

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