Europa está a comprar fosfato à Síria. E como isso beneficia a Rússia

30 jun, 16:51
Central de produção de derivados de fosfato (AP)

Espanha, Itália, Bulgária e Polónia, mas também Sérvia e Ucrânia, países que aplicam sanções à Síria, como parte dos acordos com o bloco dos 27, importam este produto a Damasco, alimentando o regime de Bashar Al-Assad e os oligarcas russos

A Europa está a importar fosfato da Síria a preços baratos. À primeira vista, poderia ser visto como outro qualquer negócio, mas a realidade é bem diferente.

O jornal The Guardian investigou as ligações da indústria do fosfato sírio à Rússia e revela que vários países e empresas da União Europeia compram este produto, fertilizante muito utilizado pelo setor agrícola do Velho Continente, a companhias detidas por oligarcas russos leais a Putin.

O diário britânico dá o exemplo da Gecopham, empresa estatal detida pelo Ministério do Petróleo e Recursos Minerais da Síria. Em 2018, esta companhia entregou o controlo das suas maiores minas de fosfato à empresa russa Stroytransgaz, controlada por Gennady Timchenko, amigo pessoal e um dos principais testas-de-ferro de Vladimir Putin.

Para contornar as sanções da União Europeia à Stroytransgaz, em vigor desde 2014, Timchenko vendeu algumas subsidiárias, como a Stroytransgaz Engineering, a empresas de fachada sediadas em Moscovo, de modo a poder mascarar o controlo que exerce sobre as minas e portos sírios utilizados pela indústria do fosfato.

"Estas são metodologias muito comuns: criar camadas e camadas de empresas de fachada para ajudar a obscurecer o controlo por pessoas sob sanções," afirma a consultora Irene Kenyon ao jornal britânico.

Entre os compradores de fosfato sírio da União Europeia estão Espanha, Itália, Bulgária e Polónia. Também a Sérvia e a Ucrânia, países que aplicam sanções à Síria, como parte dos acordos com o bloco dos 27, importam este produto a Damasco. O The Guardian refere, quando questionados, os governos e empresas defenderam-se, dizendo que a compra de fosfatos à Síria não está proibida e que as trocas comerciais não são efetuadas com indivíduos sancionados.

"O comércio de fosfatos sírios mostra porque é que o sistema de sanções da UE não é adequado aos objetivos - a fuga às sanções funciona e nem sequer é assim tão difícil. A Rússia aprendeu a fazer isto na Síria e pode agora usar essa experiência para evitar sanções derivadas da guerra na Ucrânia", afirma o especialista sírio em direito Ibrahim Olabi à publicação.

A compra deste produto também é vital para a sobrevivência do regime de Bashar Al-Assad, um dos maiores aliados da Rússia a nível mundial, após a intervenção militar de Moscovo no país em 2015, que ajudou o governo sírio a recapturar todo o território anteriormente perdido para o Estado Islâmico.

A procura europeia por fosfato barato da Síria deverá aumentar à medida que a guerra na Ucrânia se prolongar, alimentando cada vez mais a máquina de guerra da Rússia.

"Os russos tornaram-se mestres em esconder bens em empresas de fachada. Essa é a questão que assombra as sanções - esconderem-se atrás de empresas de fachada torna muito difícil fazer com que as sanções funcionem, seja na Síria ou na Rússia", afirmou ao The Guardian o especialista em sanções Julius Seidenader.

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