"Eu sei que ele está vivo". Trocou Lisboa pelas trincheiras e tornou-se o "avô" que desapareceu numa guerra de drones

24 fev, 07:00
Soldado ucraniano observa o pôr do sol na vila de Karlivka, nos arredores de Avdiivka (Narciso Contreras/Anadolu via Getty Images)

QUATRO ANOS DE INVASÃO || Oleksandr deixou a família e o conforto de Portugal aos 52 anos para combater, tendo sido dado como desaparecido. Quatro anos após a invasão russa, a coragem física e as trincheiras esbarraram numa nova realidade dominada por drones que provocam uma crise de amputações sem precedentes na Europa. Do desespero de uma família à espera em Lisboa, passando pelo realismo de um sargento português no Donbass, até às mesas de operação, este é o retrato de uma nação que a guerra tenta quebrar, mas que se recusa a desistir

Um dia antes de partir, a família reuniu-se toda nos arredores de Lisboa. Oleksandr (nome fictício) tinha chamado a mulher, a filha e os irmãos para comer uma pizza, mas o ambiente não era de festa. Todos ali sabiam o que ele estava prestes a anunciar. Desde 2014 que vivia torturado pela consciência daquilo que os russos faziam ao seu povo e a invasão de 24 de fevereiro de 2022 só veio aprofundar essa ferida. Só que as coisas tinham mudado. A sua filha já não era uma criança e o imigrante ucraniano de 52 anos, que vivia pacificamente em Portugal desde o ano 2000, sabia que já não podia ficar parado a assistir ao longe. Para ele, estava na hora de ir combater para a Ucrânia, pela Ucrânia.

No momento da despedida, Oleksandr agarrou-se à memória de uma fotografia antiga que tirou com os dois irmãos em Portugal e prometeu a Vasyl (nome fictício), o mais novo, que, fosse daqui a dois, três ou cinco anos, voltariam a tirar aquela foto juntos. Hoje, passados quatro anos desde o início da invasão em larga escala, Oleksandr tornou-se um dos milhares de desaparecidos numa guerra que mudou de rosto e continua a roubar à Ucrânia alguns dos seus filhos mais corajosos.

"Ele partiu para a guerra em setembro de 2024, no mês do meu aniversário. Na manhã seguinte àquela pizza, às seis da manhã, foi-se embora", recorda Vasyl em conversa com a CNN Portugal. A decisão de Oleksandr não foi um impulso. Nos meses anteriores, transformou a rotina de operário num rigoroso campo de treino militar. Almoçava à pressa para ir treinar durante o horário de trabalho e, à noite, trocava o conforto da cama pelo chão duro para ir habituando o corpo. Dono de uma força física invejável, herdada do pai, um bombeiro que em 1986 desceu ao inferno nuclear de Chernobyl, o ucraniano sentia que estava pronto para ir para uma unidade de infantaria.

Quando regressou à sua terra natal e começou a fazer o treino para entrar numa unidade de infantaria, a sua idade e resiliência valeram-lhe a alcunha de "Dido" (avô), entre os camaradas mais novos. Com 52 anos, Oleksandr está longe de ser uma caso isolado na linha da frente ucraniana. A realidade demográfica do país e a sua política de recrutamento, que protege os jovens entre os 18 e os 25 anos, fez com que a idade média do combatente ucraniano disparasse para os 45 anos. Este valor é significativamente mais alto do que a média europeia e norte-americana, que ronda os 30 anos. O resultado é visível na linha da frente, onde muitas trincheiras são ocupadas por pais de família criados na era soviética, com uma mentalidade de sacrifício pela pátria, e homens de cabelo grisalho que mantêm intacta a defesa nas trincheiras.

Mas tanto Oleksandr como Vasyl sabiam que a guerra tinha mudado. Os gestos de heroísmo militar de cada soldado evoluíram para algo diferente, mais impessoal, mais desumano. "Eu disse-lhe: 'Tu corres bem, és desportista, mas a guerra mudou. Agora é a guerra dos drones, não consegues fugir deles'", recorda. E com razão. No campo de batalha moderno, particularmente nas regiões de Kharkiv e Lugansk, para onde Oleksandr iria ser destacado, a preparação física já não chega. O zumbido constante dos drones FPV é a prova disso. Nos céus são um olho que tudo vê e que não hesita em atacar. Mas a determinação de Oleksandr era inabalável.

Soldados ucranianos da 72.ª Brigada Mecanizada treinam com armas de fogo junto à linha da frente na região de Kharkiv ​(Yevhen Titov/Getty Images)

A geração Xbox

Para quem combate na Ucrânia desde o início da guerra, os primeiros dias da invasão parecem hoje batalhas completamente diferentes. Nos primeiros dias, os principais receios dos militares no terreno eram os ataques de artilharia ou morteiros e os avanços surpresa dos tanques de guerra, apoiados por infantaria. Hoje, segundo estimativas dos serviços secretos dos países Bálticos, os drones são responsáveis por 70% a 80% de todas as baixas, sejam feridos ou mortos, em ambos os lados. O número de vítimas causadas por estes aparelhos já ultrapassa largamente as provocadas por armas ligeiras ou minas.

Um voluntário português, com o nome de código que diz tudo - na Ucrânia é conhecido como "Tuga" -, conhece bem esta realidade. A combater em solo ucraniano desde abril de 2022, viu bem como a guerra mudou e recorda, como se de uma memória longínqua se tratasse, algumas das primeiras missões que aconteciam à noite, quando as câmaras de visão noturna eram a maior ameaça. Atualmente a operar como sargento do Batalhão Internacional da 12.ª Brigada de Forças Especiais Azov, está a ver em primeira mão como a guerra está a mudar. 

"Nessa altura [no início da invasão], os drones não eram 'moda'. Havia drones, mas eram apenas de reconhecimento e a presença era esporádica. As coisas mudaram muitíssimo. Imaginar a linha da frente sem drones é impensável", conta à CNN Portugal diretamente do coração da resistência ucraniana no Donbass. Numa cidade próxima da linha da frente, onde a sua unidade está instalada, já são raros os dias em que drones FPV russos não atingem a localidade. "Temos os drones FPV a sobrevoarem o centro da cidade e a escolherem os alvos com toda a calma, quase todos os dias", conta o militar português.

O domínio destas pequenas aeronaves retirou, em grande parte, o controlo direto e o fator humano do combate próximo, alterando quase por completo a lógica da hierarquia e da experiência militar que homens mais experientes levavam para o terreno. "Antigamente, precisávamos de um ano ou um ano e meio para ter um militar pronto para a guerra", explica o sargento português. "Hoje em dia, eu, que tenho 14 anos de serviço militar no total... A qualquer momento, um miúdo de 18 anos, com seis meses de experiência em Xbox ou PlayStation, pega num drone e pode acabar comigo. Isso é um bocadinho estranho para nós", admite.

E a quase omnipresença dos veículos não tripulados nos céus transformou tudo: a logística, os resgates e a sobrevivência. E isso faz com que hoje, para quem está a combater, "o mais perigoso não é estar na linha da frente, é entrar no veículo e tentar chegar às posições".

Militares ucranianos a andar debaixo de uma rede de proteção anti-drone que liga Druzhkivka a Kostiantynivka (Kostiantyn Liberov/Getty Images)

70 mil no limbo

Foi precisamente num desses veículos de evacuação, sob o fogo inimigo, que a família de Oleksandr acredita tê-lo visto pela última vez. O último contacto direto entre os dois irmãos aconteceu por videochamada em julho de 2025, a partir da frente de Kharkiv. A chamada durou pouco mais de um minuto, porque Oleksandr foi chamado pelos seus camaradas. Depois disso, veio o silêncio. E depois, as perguntas. E depois disso, a falta de respostas. 

Oficialmente, Oleksandr está dado como desaparecido. Para as autoridades ucranianas, é um dos 70 mil ucranianos que o Ministério da Administração Interna tem registado como desaparecido em combate. Para Vasyl, a esperança é de que o seu irmão mais velho tenha sido capturado pelas tropas russas e esteja, como muitos outros ucranianos, a aguardar que uma troca de prisioneiros permita o seu regresso. Essa esperança é alicerçada com um vídeo partilhado num grupo de Telegram numa data próxima do seu desaparecimento. Nas imagens filmadas, captadas debaixo de fogo e acompanhadas por gritos de militares a falar inglês, vê-se um soldado ferido e ensanguentado a ser carregado à pressa para o interior de um veículo blindado de evacuação americano. Para Vasyl, as parecenças físicas são inegáveis.

"Para mim é ele. Estava tudo com sangue, mas estava vivo. O governo diz que nos vai dar notícias sobre se aquele carro conseguiu sair de lá ou se foi capturado", conta, sem largar por um momento a esperança de que Oleksandr seja agora um prisioneiro de guerra, o melhor dos cenários por esta altura. No mês em que encontrou aquelas imagens, o irmão mais novo perdeu quase sete quilos, incapaz de comer, agarrado à promessa de que o governo ucraniano lhe daria novidades sobre o destino daquele blindado, se conseguiu escapar ou se foi intercetado. Mas, para já, não há qualquer informação sobre o que aconteceu àquele carro de combate, nem ao misterioso passageiro que seguia no seu interior.

Só que a hipótese de Oleksandr ter sido capturado traz consigo outro tipo de medo. Vasyl conhece bem as imagens dos prisioneiros de guerra ucranianos libertados pela Rússia após meses ou anos de cativeiro. "Parecem que vieram de Auschwitz", desabafa, com a voz pesada. "As torturas que eles fazem lá não são normais", lamenta. Esta perceção é reforçada por relatórios internacionais, como o da Human Rights Watch, que documentou que as forças russas submetem os prisioneiros a um padrão sistemático de tortura física e psicológica, incluindo espancamentos severos, choques elétricos e violência sexual, com o objetivo de quebrar a dignidade humana. 

Bohdan Heleta, um padre que foi detido dentro da sua própria igreja greco-católica ucraniana na cidade ocupada de Berdiansk em 2022, sorri no aeroporto de Kiev a 29 de junho de 2024, depois de ter sido libertado numa troca de prisioneiros (Alex Babenko/AP)

Estima-se que, até setembro de 2025, pelo menos 13.300 militares ucranianos tenham sido detidos pela Rússia, permanecendo ainda em cativeiro entre 6.300 e 8.000 combatentes. As condições são descritas como "medievais", com prisioneiros a sofrerem perdas de peso catastróficas, alguns chegando aos 45 quilos devido à fome extrema e a serem privados de cuidados médicos básicos, muitas vezes com a conivência do próprio pessoal de saúde das prisões. 

O preço a pagar

E os números disponíveis do conflito - apesar de serem quase impossíveis de verificar - revelam uma realidade implacável que a Europa julgava ter deixado de existir. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, admitiu que 55 mil soldados ucranianos morreram em combate. Do outro lado, a Mediazona e BBC Russian Service conseguiram verificar a morte de, pelo menos, 177 mil soldados russos, até ao dia 13 de fevereiro de 2026. No entanto, os autores do estudo estimam que o número de mortos russos seja superior a 219 mil. 

Ainda assim, estimativas do Center for Strategic and International Studies (CSIS) sugerem 325 mil soldados mortos, num total de 1,2 milhões de baixas, quando se incluem feridos e desaparecidos. Este valor ultrapassa as perdas de todas as guerras russas e soviéticas combinadas desde a Segunda Guerra Mundial. Mas para aqueles que não entram nas estatísticas dos mortos ou desaparecidos, a sobrevivência traz as suas próprias marcas. 

É esta a dura realidade testemunhada diariamente no Superhumans Center, uma clínica especializada em reabilitação e próteses na Ucrânia. O diretor médico da instituição explica à CNN Portugal que a eficácia letal das máquinas voadoras reescreveu a medicina de guerra. "No início da invasão, os ferimentos de bala dominavam", recorda Andrii Vilenskyi. Hoje, o cenário é ditado pela fragmentação. "Atualmente, as lesões provocadas por explosões e ataques de drones predominam. Caracterizam-se por grandes perdas de tecidos moles e de massa óssea nas extremidades". 

Dmytro Kononchuk, à esquerda, especialista em próteses biónicas, testa a prótese de Ruslan no centro de reabilitação da Superhumans Center (Evgeniy Maloletka/AP)

O instinto de um soldado ao tentar proteger a cabeça dos drones que caem do céu resultou numa crise clínica sem precedentes na Europa. "Num país pacífico, mais de 90% das amputações ocorrem nos membros inferiores. No contexto da guerra em curso, temos mais de 30% dos membros superiores afetados", alerta o clínico, sublinhando que esta "concentração altíssima" gerou longas listas de espera devido à escassez global de especialistas na protetização de braços e mãos.

Para quem perdeu um membro, o desejo imediato é receber uma prótese biónica de alta tecnologia que substitua a função perdida. Mas os médicos do Superhumans Center avisam que a realidade é mais pragmática e que a escolha depende da atividade futura do paciente. Uma prótese mecânica, não precisando de ser recarregada e sendo imune à lama, torna-se a escolha óbvia para quem volta à agricultura, por exemplo. E, surpreendentemente, também para quem decide voltar ao inferno de onde acabou de sair.

Apesar das amputações, muitos voluntários recusam-se a abandonar camaradas como o João "Tuga" ou o Oleksandr. "Os nossos pacientes que regressam à linha da frente recebem próteses mecânicas, porque com essas é melhor estar ativo nas condições difíceis que lá existem", revela o diretor clínico. Para o médico, no entanto, a verdadeira batalha não é colocar um braço de metal num soldado, mas sim resgatar-lhe a mente: "A componente psicológica e o estado de saúde mental afetam sobretudo o sucesso da reabilitação. A motivação é a parte integrante".

É essa mesma motivação que mantém as forças ucranianas a resistir, mesmo quando a fadiga se acumula e no horizonte a paz ainda não aparece à vista. Após quatro anos de combates intensos, quem está no terreno perdeu a ilusão de um desfecho rápido. Para "Tuga", mergulhado na realidade dos combates no Donbass, a perspetiva é a de uma guerra de desgaste extremo ainda sem fim próximo, onde o apoio ocidental continua a ser a única linha de salvação. "Não desistam de nós", é o apelo que o sargento português deixa a quem assiste de longe, consciente de que o quinto ano de combates será passado, inevitavelmente, sob a mesma ameaça constante.

Por cá, e a milhares de quilómetros de Kramatorsk, Vasyl agarra-se a uma motivação muito mais íntima e recusa-se a aceitar o fatalismo da linha da frente ou a deixar que o irmão seja apenas mais um número na estatística de desaparecidos. Para ele, a contagem dos dias não é feita em avanços territoriais, baixas inimigas ou pacotes de ajuda militar. O fim desta guerra tem um rosto, um nome e um compromisso de que ele não desiste.

O luto recusa-se a entrar naquela casa, substituído por uma espera dura, mas inabalável. O verdadeiro fim do conflito, para esta família, chegará apenas no momento em que Oleksandr cruzar de novo a porta de regresso. E quando esse dia chegar, seja daqui a dois, três ou cinco anos, a promessa feita naquela noite de setembro nos arredores de Lisboa será finalmente cumprida e os três irmãos voltarão a juntar-se para tirar, de uma vez por todas, aquela preciosa fotografia.

"Quando ele já estava na Ucrânia, disse-me: 'Meu querido irmão, tens a minha palavra que nós ainda vamos voltar a tirar aquela foto todos juntos. Seja daqui a cinco, dez ou dois anos'", recorda. "Eu sei que ele vai cumprir a palavra. Ele é um herói e eu sei que está vivo".

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