"Esta operação está longe de acabar": Ucrânia "humilhou" o Kremlin no seu quintal mas ganhou mais do que isso

16 ago 2024, 07:00
Exército ucraniano na linha da frente dos combates com a Rússia (EPA via LUSA)

É a primeira vez que um país invade a Rússia desde a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um avanço de 35 quilómetros que está a assustar Vladimir Putin

Mais de mil quilómetros quadrados e 82 localidades ocupadas em pouco mais de uma semana. Debaixo de um enorme secretismo, o general Syrskyi conduziu uma campanha militar relâmpago bem no interior do território russo, numa altura em que a situação se agravava na região de Donetsk. Pouco ainda se sabe quanto aos verdadeiros objetivos da operação, mas o seu impacto é claro: “embaraçou e humilhou” o Kremlin, “galvanizou” os militares ucranianos e deu a Kiev uma quantidade significativa de território que pode ser utilizada como moeda de troca numa negociação.

“A Ucrânia continua a infiltrar forças em território russo. O objetivo é ter uma posição negocial mais favorável. Esta operação, que está longe de acabar, tem objetivos a vários níveis. Por um lado, capturar a central nuclear de Kursk para usar como moeda de troca, por outro, obrigar os russos a retirar forças do Donbass e parar a ofensiva russa”, afirma o major-general Agostinho Costa.

Quando a operação começou, na manhã do dia 6 de agosto, todos pensaram ser “apenas” uma pequena incursão ucraniana, como outras no passado. O próprio exército russo estimou que a força utilizada por Kiev era composta por 300 militares, acompanhados por alguns veículos blindados. Mas rapidamente se percebeu que a escala deste ataque fazia antever algo de uma dimensão superior aos ataques anteriores. Os objetivos das forças armadas ucranianas permanecem um mistério, mas a realidade no terreno já fornece algumas pistas.

Apanhada completamente de surpresa, a liderança militar russa foi obrigada a tomar decisões difíceis. O ataque ucraniano obrigou a Rússia a rever a sua estratégia e a enviar unidades de outros pontos da frente de combate para, numa primeira fase, conter os avanços ucranianos. Segundo o porta-voz do exército ucraniano, a Rússia enviou soldados da frente de Zaporizhzhia e Kherson para Kursk, mas é possível que Moscovo possa tentar recuperar o território perdido com militares que estavam estacionados noutras regiões e que não faziam parte da “operação militar especial”. Laurynas Kasčiūnas, ministro da Defesa da Lituânia, afirmou que militares russos no exclave de Kaliningrado estão a abandonar a região.

Ao mesmo tempo a Rússia começou já começou a escavar trincheiras na região de Kursk, o que pode indicar que existe a perspetiva de uma batalha prolongada na região. Só que as novas posições defensivas, encontradas em imagens de satélite, encontram-se a 45 quilómetros da fronteira com a região de Sumy. Se os combates acabarem por chegar a estas áreas, isso significaria uma enorme conquista territorial para Kiev, que já avançou algo como 35 quilómetros.

Imagem de satélite mostra uma trincheira cavada junto à autoestrada E38, em Kursk (Maxar/AP)

Atualmente a Ucrânia já controla uma das principais estações de medição de gás da Gazprom que regula o trânsito deste recurso para a Europa via Ucrânia. Mas uma das principais rotas do ataque ucraniano partia em direção à localidade Kurchatov, a 40 quilómetros da cidade de Kursk. O motivo, defendem os especialistas militares, era a conquista da central nuclear de Kursk, para a utilizar como moeda de troca para recuperar a central nuclear de Zaporizhzhia. Para já conseguiram conquistar Sudzha, uma cidade importante por onde passa esse mesmo gasoduto, e estabelecer um posto militar de comando em pleno solo russo.

“Esta operação, que está longe de acabar, tem objetivos a vários níveis. Tem objetivos a nível táctico, que era a central nuclear de Kursk, para ser uma espécie de moeda de troca com a central nuclear de Enerhodar”, explica o especialista em assuntos militares.

Esta realidade pode obrigar Moscovo a abrandar a escala das operações militares noutros pontos da frente. Para os analistas, a esperança ucraniana passava por travar os constantes avanços russos na área de Pokrovsk, na região de Donetsk. Nos arredores desta cidade, que funciona como um gigante centro logístico ucraniano para a frente de leste, a Rússia tem sido capaz de conquistar várias localidades, aproveitando-se da sua superioridade numérica. Mas, para já, o ataque surpresa parece não ter tido efeito e o Kremlin aumentou a intensidade dos ataques, de acordo com o Estado-Maior ucraniano.

“É muito claro, a Ucrânia não tem um objetivo a longo prazo de conquistar território russo. Kursk e Belgorod são um trunfo que a Ucrânia vai manter na sua mão enquanto precisar dele. De um momento para o outro, Putin deixou de querer negociar porque já não está numa posição de força. Kursk é um trunfo que pode levar a Ucrânia a trocar território russo por território ucraniano”, defende o major-general Isidro de Morais Pereira.

O regresso político de Donald Trump na Casa Branca está também a ser equacionado pelos decisores políticos em Kiev. O antigo presidente americano defende que, se for eleito, obrigar a Ucrânia e a Rússia a negociar a paz, admitindo cortar todo o apoio militar caso Kiev rejeite essa possibilidade. Esse cenário faz com que a liderança política ucraniana tema chegar à mesa de negociações numa posição de fraqueza, acabando por ser obrigada pelos parceiros ocidentais a aceitar condições que não lhe são favoráveis. Nesse sentido, a conquista de uma parte significativa de território russo a poucos meses das eleições norte-americanas pode vir a ser um trunfo nas mãos de Kiev para recuperar parte dos territórios ocupados pela Rússia.

Em abril, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, admitia o regresso à mesa de negociações, mas alertava que Kiev teria de ter em conta “a nova realidade” vivida no terreno, depois do Kremlin ter feito referendos nas regiões ocupadas militarmente para justificar a sua anexação. Agora, é o próprio presidente russo, Vladimir Putin, que diz que é impossível ir para a mesa de negociações com Kiev e prometeu “uma resposta digna” contra os ucranianos que “atacam indiscriminadamente civis”.

E o impacto do sucesso inicial desta ofensiva já se faz sentir entre os militares ucranianos e o povo ucraniano. A capacidade de ainda surpreender a Rússia e causar sérios problemas ao exército russo está a galvanizar uma sociedade ucraniana já muito desgastada por quase três anos de guerra. “Há apenas uma semana, as pessoas estavam deprimidas. O nosso humor é bom. O moral está alto”, descreve Serhiy, um paraquedista da 80.ª Brigada de Assalto Aéreo a caminho da frente de batalha, em declarações ao Financial Times.

Dados de 11 de agosto de 2024

Observações: "Avaliado" significa que o Instituto para o Estudo da Guerra recebeu informações fiáveis e verificáveis de forma independente que demonstram o controlo ou os avanços russos nessas áreas. Os avanços russos são áreas onde as forças russas operaram ou lançaram ataques, mas não as controlam. As áreas "reivindicadas" são aquelas em que fontes afirmaram que estão a ocorrer controlo, incursões ou contra-ofensivas, mas que o ISW não pode corroborar nem demonstrar que são falsas.

Fontes: Instituto para o Estudo da Guerra com o Projeto de Ameaças Críticas da AEI, Ministério da Defesa russo, administração do distrito de Krasnoyaruzhsky, governador regional de Kursk, agência noticiosa estatal russa TASS

Gráfico: Lou Robinson, CNN

Do ponto de vista do Direito Internacional, este ataque ucraniano a território russo é totalmente legal e “enquadra-se no direito de legítima defesa” da Ucrânia, uma vez que esta operação acontece com vista a “defender o seu território” dos ataques russos, defende Francisco Pereira Coutinho. O professor universitário compara esta operação militar à incursão russa nos arredores de Kharkiv, que justificou para criar “uma zona tampão” para evitar os bombardeamentos ucranianos em Belgorod.

O sucesso deste ataque contrasta com o resultado da contraofensiva ucraniana do verão de 2023, quando várias brigadas recém-formadas e treinadas no ocidente foram incapazes de ultrapassar as barreiras defensivas da linha Surovikin. Esta operação foi preparada com o maior dos secretismos. Nem mesmo os principais aliados ucranianos foram informados de que um ataque no interior do território russo estava prestes a acontecer. O resultado foi devastador para o Kremlin, que obrigou mais de 100 mil dos seus cidadãos a fugir da região, colocando em causa a capacidade do executivo russo de proteger o seu próprio povo.

“Se os americanos sabiam da operação? Se soubessem teriam aconselhado a não fazer. [A incursão] É uma jogada muito arriscada por parte de Zelensky, mas, até ver, uma manobra militar absolutamente brilhante que embaraçou e humilhou o exército russo, que é incapaz de repelir o ataque ucraniano”, considera o especialista em Direito Internacional.

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