Prospera, idílica ou um local de oportunidades são adjetivos que outrora serviram para categorizar Enerhodar. Depois vieram os russos, a intimidação, as detenções arbitrárias e a instrumentalização do ensino público como arma de substituição cultural
Na década de 70, os soviéticos fundaram Enerhodar, uma cidade batizada com um nome peculiar que pode traduzir-se como: "A dádiva da energia". A localidade, situada no sul do território ucraniano, foi durante largos anos uma espécie de cidade-empresa habitada essencialmente por jovens trabalhadores das suas centrais elétricas e as suas famílias. Um autêntico clichê dos tempos industriais: blocos de apartamentos altos e avenidas arborizadas como se vê em tantos outros locais.
No entanto e como mostra a reportagem da Reuters, o que resta da idílica Enerhodar é apenas uma memória. À medida que o mundo se prepara para o quarto aniversário da "operação especial" de Vladimir Putin na Ucrânia, a localidade que fornecia energia a todo o país hoje não é mais do que uma cidade fantasma em que quem reina são o medo e a violência.
Quem vivia em Enerhodar fugiu, as casas começaram a ser penhoradas e os russos começaram lentamente a instalar-se. E a substituição cultural vai ainda mais longe, porque as crianças ucranianas que restam estão a ser doutrinadas para serem fiéis ao presidente Putin e à gigante russa Rosatom - a Corporação Estatal de Energia Atómica da Federação Russa.
Depois da destruição da guerra, o dinheiro começou a chegar vindo de Moscovo. Há sinais disso mesmo por toda a cidade. As escolas e centros culturais reabriram depois das modestas renovações pagas pela Rosatom, os supermercados reabriram com nomes russos e passaram a vender o que um russófono típico quer comprar. Nas ruas, os resistentes ucranianos começaram a cruzar-se com caras nova, os desconhecidos russos passeiam pelas outrora idílicas avenidas que, de outra forma, estariam completamente vazias de gente.
A gigante energética e a polícia russa controlam todas as facetas do quotidiano em Enerhodar. Na famosa - pelos piores motivos - central nuclear de Zaporizhzhia quem dita as regras são os soldados moscovitas. A vida mudou.
A Reuters entrevistou mais de 50 pessoas - incluindo os atuais e antigos residentes e funcionários da cidade -, consultou dezenas de páginas de documentos publicados pelas autoridades russas e pela Rosatom e a conclusão é simples: Enerhodar está a tornar-se numa cidade atómica totalmente russa. Este é apenas um exemplo micro do plano macro do Kremlin, que passa pela russificação da Ucrânia e de substituição de uma população potencialmente desleal a Putin por outra que se identifica somente com a doutrina soviética.
Para Oleg Dudar, gerente do reator nuclear de Zaporizhzhia até à inevitável fuga em agosto de 2022, passem as décadas que passarem, há algo sempre foi e será certo: “Os russos forçam as pessoas a amá-los”.
Apesar das perguntas enviadas pela Reuters, o Kremlin não foi além do silêncio. Da nova administração russa de Enerhodar, o que veio foi uma resposta genérica em que realçam o compromisso em construir um futuro melhor para a cidade e negam que os residentes que ainda resistem tenham sido subjugados através da violência.
“O objetivo é garantir uma elevada qualidade de vida para atrair e reter especialistas”, salienta a administração russa de Enerhodar.
Do lado ucraniano, também pouco ou mesmo nada à dizer. Quando questionados sobre as denúncias de abusos russos, o governo e a Energoatom - agência atómica ucraniana - remeteram-se ao silêncio, contrastando com as acusações de a Rússia estar a coagir e torturar os funcionários da Central Nuclear de Zaporizhzhia.
A Energoatom continua, aliás a ser o operador legal da central de Zaporizhzhia, mas não controla nem tem qualquer tipo de influência sobre a gestão das instalações desde que Enerhodar caiu sob controlo das forças russas. A tomada do controlo da central acabou por atrair os holofotes mediáticos com o resto do mundo a temer que se repeti-se uma tragédia nuclear em solo ucraniano como aconteceu em Chernobyl. Acabou por não se verificar qualquer incidente de relevância maior, mas seis reatores nucleares da maior central nuclear foram desligados a frio e assim se encontram desde 2024.
A maioria dos habitantes de Enerhodar fugiu com a aproximação da frente de batalha, mas as tropas russas impediram que alguns trabalhadores da central abandonassem a região, como denunciaram à Reuters os antigos moradores da região. Darya Dolzikova, investigadora sénior especializada na indústria nuclear do think tank Royal United Services Institute, acredita que é este mesmo ponto que levou as forças controladas pelo Kremlin para a cidade, porque assim, ao capturar a cidade, garantiam que tanto os trabalhadores como as suas famílias - o que constitui grande parte da população local - não abandonariam a cidade, abrindo espaço ao plano da russificação da Ucrânia.
“Cada central nuclear é diferente, pelo que a Rússia terá sido extremamente dependente dos trabalhadores ucranianos que viviam em Enerhodar para fazer funcionar a central”, explica.
A reeducação: por Putin e para Putin
Enerhodar é um espelho da russificação em esteróides anabolizantes. Aqui, as crianças são doutrinadas como em nenhum outro local da Ucrânia. É certo que em todas as zonas ocupadas, o Kremlin impôs um plano curricular não assente na matemática, química ou na física, mas sim no patriotismo e na lealdade à doutrina soviética.
De acordo com a nova administração de Enerhodar, com os impactos da "operação especial" a população caiu de 50 mil para 22 mil habitantes. À Reuters, um representante do Ministério da Educação da Rússia disse que 80% dos professores abandonaram a cidade desde 2022 e que, perante o êxodo, duas das três escolas existentes ficaram a precisar de novos docentes.
Contudo, a falta de professores não justifica o facto de a administração local russa ter publicado um decreto em que consta uma lista de 100 medidas e eventos a decorrerem nas escolas destinados a um único fim: "Contrariar a ideologia do terrorismo" com o intuito de incutir nos jovens os valores tradicionais russos.
As escolas de Enerhodar passaram a celebrar os feriados russos e datas importantes, como o 18 de março - o dia que assinala a anexação da Crimeia. A Reuters acrescenta ainda que os estudantes começaram a aderir a organizações estatais como o Exército da Juventude, o Movimento da Juventude e a Jovem Guarda e participaram em competições militares.
E de quem é a culpa? A Rosatom veio para explorar a central nuclear de Zaporizhzhia, mas acabou também por desempenhar um papel direto na educação destes jovens.
Alguns encarregados de educação garantem que tentaram fugir a esta russificação letiva. Tentaram estudar em casa, mas com uma internet pouco fiável e uma repressão estatal às aulas online ucranianas é quase impossível escapar à inevitabilidades do plano curricular moscovita.
Mark Komarov é um jovem de 15 anos que vive em Enerhodar e garante que a pressão é intensa. Nestes três anos de invasão russa, Komarov já recebeu três visitas dos serviços secretos russos (FSB) e de soldados russos apenas. Tudo por não estar matriculado numa das três escolas locais. Os tutores do rapaz explicam que os agentes russos apenas exigiram saber porque é que não estava na escola.
Na última visita do FSB, os espiões russos ameaçaram enviar o jovem - cujos pais perderam a custódia devido a problemas de abuso de substâncias - para um orfanato. Entretanto, a Save Ukraine, uma organização que coordena o resgate de crianças ucranianas do território ocupado, conseguiu retirar Komarov de Enerhodar.
A Save Ukraine garante que um total de 809 crianças foram resgatadas um pouco por todos os territórios ocupados da Ucrânia até ao final de agosto, mas assegura que está a tornar-se cada vez mais difícil fazê-lo, porque “as autoridades russas criam obstáculos ativamente”, explica a organização à Reuters.
O Kremlin, o FSB e os militares russos não responderam aos pedidos de comentário.