"Em tempo de guerra é sempre estranho quando se substitui o ministro da Defesa mas tinha de ser." Um dos motivos para o "tinha de ser": gente que pagou para não combater

4 set 2023, 22:12
Contraofensiva ucraniana

Sai Oleksii Reznikov, entra Rustem Umerov: a Ucrânia tem novo ministro da Defesa em plena contraofensiva e 18 meses depois do início de uma guerra que modificou definitivamente as ilusões de paz de quem as tinha para o resto da década. Mas quão estranho é mudar-se este ministro com esta guerra em curso neste momento tão sensível?

A resposta à pergunta pressupõe um breve contexto: uma das principais promessas de Volodymyr Zelensky quando foi eleito presidente da Ucrânia era a de que iria acabar com a corrupção endémica no país. O major-general Isidro Morais Pereira e a especialista em relações internacionais Sónia Sénica, ouvidos pela CNN, realçam ambos esse momento para abordar este momento da substituição de ministro. Mas Isidro Morais Pereira realça outro facto: "Atos de corrupção em tempo de guerra são gravíssimos porque influenciam o moral das tropas que estão a combater pela sua pátria", sublinha.

O ministro da Defesa Oleksii Reznikov "estava envolvido em situações poucas claras, com a venda de alimentos e fardamentos de inverno e também com a polémica do recrutamento - soube-se que, a troco de dinheiro, muitos cidadãos que tinham condições para combater foram dispensados". Apesar do seu papel fundamental neste último ano e meio - quer na reconquista dos territórios que tinham sido ocupados pela Rússia, quer na recolha de importantes apoios internacionais -, "a sua posição tornou-se absolutamente insustentável", afirma o major-general. 

"O presidente da Ucrânia tem um inimigo invísivel que tem de combater, que é a corrupção. Até para entrar na NATO, para tentar entrar na União Europeia e para continuar a ser apoiada internacionalmente, a Ucrânia tem de mostrar que está empenhada em combater os grandes males do país, entre os quais a corrupção", explica o major-general. "E ao mesmo tempo tem de dar este sinal ao país e àqueles que combatem: Zelensky não pode permitir que haja pessoas a morrer nos campos de batalha enquanto outros gozam com a situação."

Rustem Umerov, o novo ministro da Defesa (créditos: Getty Images)

Do mesmo modo, também Sónica Sénica, comentadora da CNN Portugal, afirma que com esta mudança, "Zelensky quis corresponder às expectativas dos ucranianos e das forças armadas mas também dos aliados que apoiam a Ucrânia - a Ucrânia tem de corresponder aos critérios de Copenhaga, que exigem reforços significativas do estado de direito e na eliminação da corrupção". "Claramente, esta demissão passa uma mensagem de liderança política", considera Sónia Sénica. "Mesmo em contexto de guerra, é importante preservar a credibilidade das instituições. A Defesa é uma pasta muito importante no esforço de guerra, assim como a pasta das relações internacionais. São dois pilares da liderança de Zelensky: a dimensão político-diplomática e a estratégico-militar. É essencial que haja confiança política total e credibilização inegável das pessoas que ocupam essas funções essenciais."

"Devagarinho mas vai"

Isidro Morais Pereira assinala que sim, que "em tempo de guerra é sempre estranho quando se substitui o ministro da Defesa". "Mas tinha de ser." E mais: "Zelensky escolheu bem o sucessor. Rustem Umerov parece dar garantias de ser uma pessoa íntegra. Olhando para o seu currículo, vemos que é uma pessoa com experiência política e que já era responsável pela gestão de todo o acervo patrimonial da Ucrânia, por isso imaginamos que não seja uma pessoa corrupta".

Também Sónia Sénica afirma que o novo ministro da Defesa é uma pessoa "com muita experiência política e sobretudo com um currículo acima de qualquer suspeita". "Para substituir uma pasta tão importante neste momento teria de se apresentar alguém credível e com quem se estivesse perfeitamente confortável nas questões internas, inclusivé na posição sobre a Crimeia", sublinha a comentadora da CNN.

Assim, ambos os analistas não consideram que esta mudança represente um revés na contraofensiva ucraniana ou no rumo da guerra - pelo contrário, dá aos militares um sinal de que o presidente está atento. "A contraofensiva russa de inverno não correu muito bem, mas a contraofensiva da Ucrânia está a ir - devagarinho mas vai", afirma Isidro Pereira. "Já passaram 18 meses e neste momento o saldo é mais positivo para a Ucrânia do que para a Rússia."

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