Em Kiev não se protesta contra a guerra. Protesta-se por outra forma de a combater

3 ago, 21:02
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História escrita a partir de Kiev junta cartazes contra a corrupção e contra deputados que tiram férias, ao contrário dos soldados

"Não somos indiferentes. Não ficaremos em silêncio."

Ainda estamos a algumas dezenas de metros da manifestação e já ouvimos o coro. A Khreshchatyk, a principal avenida de Kiev, enche-se de cartazes, bandeiras e centenas de pessoas. Começaram em frente à Universidade Taras Shevchenko e seguem até ao Teatro Ivan Franko. De escritor a escritor, levam a sua mensagem pela cidade.

Antes de nos aproximarmos, porém, vale a pena fazer um exercício. Imagine um protesto em frente à Assembleia da República. O que ali se grita representa quem está na rua, não necessariamente o país inteiro. Em Kiev acontece exatamente o mesmo.

Os ucranianos não são um rebanho, nem Volodymyr Zelensky é um pastor ou um líder imune à crítica. Apesar da lei marcial e de um país em guerra, continua a existir espaço para o protesto público e para contestar o poder político. Os cravos não murcharam, embora nem tudo sejam rosas.

À medida que nos aproximamos, os cartazes tornam-se legíveis. "A corrupção mata." "Vergonha." "Os deputados tiram férias, os soldados não." O ambiente é firme, mas sereno. Não há qualquer sinal de uma manifestação contra a defesa do país ou contra os militares. Pelo contrário.

Os manifestantes caminham em direção à praça Maidan. A polícia acompanha discretamente o percurso, sem interferir. Quem passa observa, alguns juntam-se, outros seguem caminho. A guerra continua, mas a cidade também.

Uma jovem segura um cartaz particularmente irreverente. Recupera uma das imagens mais conhecidas do passado artístico de Zelensky, quando simulava tocar piano com as partes íntimas, acrescentando apenas a frase: "A Ucrânia não é um piano." A sátira dirige-se ao Presidente. Numa democracia, isso continua a ser possível.

Outro cartaz destaca-se entre todos. Um jovem ergue uma gigantesca carta "Uno Reverse", na qual escreveu o nome de Mykhailo Fedorov. A mensagem é simples: querem inverter a decisão que afastou o ministro.

Ao contrário do que tantas vezes se lê nas caixas de comentários das redes sociais, estes manifestantes não exigem o fim da guerra, nem defendem concessões territoriais à Rússia. Também não pedem a rendição da Ucrânia.

O que exigem é outra forma de conduzir a guerra.

Querem maior transparência na gestão do Estado, um sistema de mobilização mais justo, reformas militares e menos corrupção. Muitos acreditam que Fedorov representava precisamente essa mudança.

A determinada altura, a manifestação abranda. Já perto da praça Maidan, centenas de pessoas ajoelham-se em silêncio perante as fotografias e bandeiras que recordam os soldados mortos. Durante um minuto não há palavras.

Depois, voltam os gritos.

Não contra os militares.

Não contra a defesa da Ucrânia.

Pelo contrário. Ouvem-se palavras de ordem contra Vladimir Putin, contra a agressão russa e de apoio às Forças Armadas ucranianas. Os manifestantes sabem que é delas que depende a sobrevivência do país.

Já ao cair da noite, junto ao teatro e nas proximidades do gabinete presidencial, a manifestação aproxima-se do fim. Não há palco, nem encenação. Apenas um último coro que ecoa pela rua:

"A Ucrânia é Europa."

Foi assim em 2014. Continua a ser assim em 2026.

Quem vê apenas pequenos vídeos desta manifestação pode concluir que Kiev se revolta contra Zelensky ou contra a guerra. Quem caminha entre estes manifestantes percebe algo bastante diferente. O que aqui se discute não é se a Ucrânia se deve defender. A questão é como fazê-lo melhor.

É também um aviso ao Presidente. Tal como aconteceu no ano passado, quando uma tentativa de alterar a legislação das agências anticorrupção levou milhares de pessoas às ruas, esta manifestação recorda a Zelensky que o apoio conquistado durante a guerra não elimina a exigência de escrutínio democrático. Se será a última dependerá das decisões do Presidente e da capacidade de Fedorov continuar a mobilizar estes apoiantes. Mas essa é já outra história.

Francisco Cordeiro de Araújo é especialista em Direito Internacional e está na Ucrânia em serviço especial para a CNN Portugal

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