Investigação mostra que locais como mercados, cafés ou centros de ajuda humanitária são alvos preferenciais
A guerra da Ucrânia tornou-se na guerra que massificou a utilização de drones em contexto militar. Mas nem por isso os exércitos sabem operar estas máquinas a 100%. Por isso mesmo têm de treinar. E o treino da Rússia tem sido feito num local específico.
De acordo com uma investigação do Financial Times, a Rússia tem utilizado a região de Kherson, uma das quatro que anexou de forma unilateral após referendo, para praticar a utilização de drones durante as batalhas.
Mas o treino russo está a ser feito, garante quem mora do lado ucraniano, nos civis, que todos os dias fogem para tentar escapar a estas aeronaves não tripuladas.
Talvez por isso, como conta a reportagem do jornal britânico, exista um alívio sempre que há nuvens, chuva ou algum vento. É que nessas condições os drones têm menos capacidade para voar, uma vez que ficam mais instáveis e os pilotos têm menos visibilidade.
“Eles estão a caçar-nos”, garante Oleksandr Prokudin, chefe da região militar administrativa de Kherson, região que ficou dividida ao meio depois de um recuo russo provocado pela contraofensiva ucraniana - a norte do rio Dniepre mandam os ucranianos, a sul mandam os russos.
“Imaginem o que isto faz a uma pessoa, o impacto psicológico”, continua o responsável militar de uma região onde existiram, desde julho deste ano, mais de 9.500 ataques com pequenos drones. Os resultados são pelo menos 37 mortes e centenas de feridos, segundo as autoridades locais.
É que a Rússia destacou para Kherson algumas das suas “melhores unidades de drones”, garante Prokudin, falando em técnicas refinadas e no destacamento de novos operadores das aeronaves. Sobretudo numa altura em que a Ucrânia espera um intensificar da invasão.
As suspeitas dos ucranianos parecem ter fundamento. De acordo com o Centro para a Informação e Resiliência (CIR), uma organização sem fins lucrativos que se destina a expor crimes contra os direitos humanos e crimes de guerra, “a grande maioria” dos ataques com drones em Kherson são contra veículos parados ou em movimento.
Nota aquela organização, que fez uma análise ao lançamento de 90 drones, que esses são alvos “difíceis de replicar num ambiente de teste”, pelo que se suspeita que a região de Kherson acaba por ser ideal para o treino. Prokudin não tem dúvidas: a região que chefia está a servir para “prática de alvo” por parte da Rússia.
Nos mais variados ataques realizados pelo exército de Moscovo - há drones chineses ou drones russos - contam-se alvos como estações de serviços, mercados, cafés postos de correio ou centros de ajuda humanitária.
À Ucrânia resta mesmo esperar que a meteorologia ajude para saber se o dia será mais calmo ou não.