Duas bombas a partir de aviões e sabendo que estavam lá civis. Rússia atacou teatro de Mariupol "de forma deliberada", conclui a Amnistia Internacional

30 jun, 01:01
Teatro de Mariupol (Maxar Technologies)

De acordo com o relatório, todos os cenários elaborados pela organização sobre os motivos do ataque constituem crimes de guerra

Uma investigação da Amnistia Internacional concluiu que a Rússia atacou deliberadamente o Teatro Académico Regional de Donetsk, em Mariupol, no dia 16 de março.

Segundo o relatório, elaborado com base na análise de provas digitais, imagens de satélite e plantas de arquitetura do edifício, bem como em dezenas de testemunhos de sobreviventes, concluiu que as forças russas levaram a cabo o ataque ao teatro mesmo sabendo que nele se encontravam civis.

Um dos relatos citados é o de Dmytro Symonenko, presente no teatro durante o bombardeamento, e que esteve com uma das vítimas, Luba Sviridova, antes desta morrer. “Ela ficou gravemente ferida e ainda conseguiu sair dos escombros a rastejar. Pediu-nos para recordarmos o nome dela, porque sentiu que estava a morrer”.

A organização não conseguiu precisar o número de vítimas mortais resultante do ataque, mas aponta que seja “inferior ao reportado anteriormente” (300 mortes, avançadas pela autarquia de Mariupol), tendo apenas conseguido verificar apenas a morte de uma dúzia de pessoas. A Amnistia Internacional salienta, contudo, que “muitas mortes ficaram por reportar”.

A instituição adiantou ainda qual terá sido a maneira “mais plausível” com que a Rússia terá atacado o teatro. Baseando-se em testemunhos de pessoas dentro do teatro, que reportam ter ouvido “barulho de aeronaves” pouco tempo antes da explosão, a organização avança que a Rússia poderá ter lançado duas bombas, “em simultâneo”, a partir de aviões. Outra tese, que a Amnistia Internacional considera “menos plausível”, é a da “utilização de um míssil de cruzeiro”.

Por seu turno, a organização descarta por completo que se tenha tratado de um ataque ucraniano ou de uma operação de “bandeira falsa” por parte do Batalhão de Azov, como acusou o Ministério da Defesa da Rússia no próprio dia da ocorrência.

A Amnistia Internacional elenca ainda quatro cenários possíveis sobre o porquê de a Rússia ter atacado o local: primeiro, o de que a Rússia “atingiu o teatro sabendo que se tratava de um alvo civil”; o segundo, em que Moscovo atacou o local “acreditando tratar-se de um alvo militar”; o terceiro, que propõe que o edifício “não era um alvo, mas foi atingido num ataque indiscriminado”; por fim, o quarto cenário, que teoriza que o teatro foi “bombardeado por engano durante um ataque a outra localização”.

Sobre este tópico, a instituição não tem dúvidas: “todos os cenários plausíveis constituem crimes de guerra”.

Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional, refere que “o ataque impiedoso visou civis ucranianos de forma deliberada”, sublinhando que “o Tribunal Penal Internacional e todos aqueles que têm jurisdição sobre os crimes cometidos durante este conflito devem investigar os ataques como um crime de guerra”.

A Amnistia Internacional refere que, no início do conflito, “o teatro tornou-se um porto seguro para os civis que procuravam abrigo dos combates”.

“Além de ser um centro de distribuição de medicamentos, alimentos e água, e um ponto de encontro designado para as pessoas que esperavam ser retiradas em corredores humanitários, o edifício era claramente reconhecível como uma infraestrutura civil, talvez mais do que qualquer outro local da cidade”, menciona.

Na sequência do ataque, o ministro da Defesa da Ucrânia, Oleksii Reznikov, acusou a Rússia de estar a “perpetrar um genocídio” contra o povo ucraniano. Na altura do bombardeamento, podia ler-se no chão, escrita às portas do teatro, a palavra “crianças”, um aviso para a aviação russa não atacar o local.

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