Donbass: o objeto do desejo de Putin e o ponto crucial da guerra na Ucrânia

CNN, Tim Lister
18 ago 2025, 14:04
Soldado ucraniano dispara um sistema antitanque britânico NLAW na região do Donbass (AP Photo/Vadim Ghirda)

Há poucas hipóteses de a Ucrânia recuperar grande parte do que já perdeu: quase toda a região de Luhansk e mais de 70% de Donetsk

À medida que as negociações sobre um possível acordo para pôr fim à guerra na Ucrânia se intensificam, grande parte da discussão tem-se centrado numa parte do leste do país que há muito está no centro dos objetivos da Rússia.

As regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk - conhecidas no seu conjunto como Donbass - eram um centro industrial na era soviética, um local de minas de carvão e siderurgias. Mas a região de Donbass também possui terrenos agrícolas férteis, rios importantes e uma costa no Mar de Azov.

Historicamente, Donbass era a parte mais "russa" da Ucrânia, com uma minoria significativa de falantes de russo. Em várias viagens à região há 10 anos atrás, ficou claro que havia pouco amor pelo governo distante de Kiev entre alguns dos habitantes.

Foi aqui que Putin começou os esforços para destabilizar a Ucrânia em 2014, após a anexação da Crimeia. Milícias pró-russas, algumas delas bem equipadas com tanques, surgiram em toda a região, tomando rapidamente as cidades de Luhansk e Donetsk do que era então um exército ucraniano mal preparado e pouco motivado.

Data as of August 12, 2025
Source: The Institute for the Study of War with AEI’s Critical Threats Project
Graphic: Rachel Wilson, CNN

Durante quase oito anos, os enclaves separatistas foram palco de combates, por vezes violentos, entre os separatistas apoiados pela Rússia e as forças ucranianas, deixando mais de 14 000 mortos, segundo dados ucranianos.

Pelo menos 1,5 milhões de ucranianos deixaram Donbass desde 2014. Estima-se que mais de três milhões vivam sob ocupação russa. Moscovo distribuiu centenas de milhares de passaportes russos às pessoas nas áreas controladas pelos separatistas.

Mas Putin queria mais. Na véspera da invasão russa em grande escala em fevereiro de 2022, ele disse que o chamado mundo civilizado “prefere ignorar como se não houvesse esse horror, esse genocídio, a que quase quatro milhões de pessoas estão a ser submetidas” e reconheceu Luhansk e Donetsk como estados independentes.

Mais tarde nesse ano, Moscovo anexou unilateralmente – e ilegalmente – ambas as regiões após referendos fraudulentos, juntamente com as regiões meridionais de Zaporizhzhia e Kherson, apesar de as ocupar apenas parcialmente.

Para o Kremlin, há uma enorme diferença entre retirar-se de territórios ocupados (como os russos fizeram quando se retiraram de grande parte do norte da Ucrânia em 2022) e abrir mão de áreas formalmente absorvidas pela pátria – especialmente para um líder como Putin, que é obcecado pela ideia de uma "Rússia maior".

Analistas afirmam que, ao ritmo atual, as forças russas ainda levariam vários anos para concluir a ocupação do que foi anexado. Da mesma forma, há poucas hipóteses de a Ucrânia recuperar grande parte do que já perdeu: quase toda a região de Luhansk e mais de 70% de Donetsk.

Mas Kiev ainda mantém o "cinturão fortificado" de cidades industriais, ferrovias e estradas que constitui uma barreira significativa para as forças de Putin: locais como Sloviansk, Kramatorsk e Kostiantynivka.

Para o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, desistir do resto de Donetsk, território pelo qual muitos soldados ucranianos deram as suas vidas para defender, seria um suicídio político. Cerca de três quartos dos ucranianos opõe-se a ceder qualquer território à Rússia, de acordo com o Instituto Internacional de Sociologia de Kiev.

Retirar-se do resto de Donetsk também deixaria as vastas planícies abertas da Ucrânia central vulneráveis à próxima ofensiva russa, como Zelensky tem repetidamente salientado, além de ser uma rendição inconstitucional do território ucraniano.

Para os aliados europeus de Zelensky, isso também violaria um princípio fundamental: que a agressão não pode ser recompensada com território e que a soberania ucraniana deve ser protegida.

Tal como em 2014, Donbass continua a ser o 'cadinho' das ambições de Putin na Ucrânia – e o maior teste para a Europa, que tenta manter uma ordem internacional baseada em regras.

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