Dois meses depois, a Rússia ainda se debate para capturar esta pequena cidade

CNN , Tim Lister
22 jun, 18:00
Severodonetsk, Ucrânia (Getty)

Passaram quase dois meses desde que as forças russas começaram a atacar a cidade de Severodonetsk. Mas, apesar do poder de fogo esmagador, continuam sem conseguir desalojar a determinada resistência ucraniana - nem cortar as linhas de abastecimento que, pouco a pouco, vão dando armas e munições aos restantes defensores da cidade.

A determinada defesa ucraniana de Severodonetsk, apesar das pesadas perdas, obrigou os russos a concentrarem o poder de fogo numa zona relativamente pequena e deteve os esforços dos invasores de tomar os 10% da região de Lugansk que ainda não controlam.

O presidente russo, Vladimir Putin, declarou que a captura das regiões de Lugansk e Donetsk, no leste da Ucrânia, era um dos objetivos da operação militar especial de Moscovo, que começou em fevereiro. Por enquanto, essa operação está em grande parte paralisada; uma grande parte de Donetsk continua fora do alcance russo.

As forças russas estão a obter modestas vitórias. O Ministério da Defesa russo disse no domingo que a cidade de Metelkino, a sudeste de Severodonetsk, tinha sido tomada. Mas o objetivo dos russos de cercar as tropas ucranianas que defendem as cidades gémeas de Lysychansk e Severodonetsk ainda parece algo distante.

Numa campanha sem agilidade nem imaginação, os russos recorreram a uma tática principal: fogo indireto esmagador contra toda e qualquer posição ucraniana, independentemente dos danos colaterais.

O objetivo é não deixar nada de pé que possa ser defendido. O uso de soldados no terreno para tomar e manter as áreas urbanas tem sido menos frequente e menos bem-sucedido.

Erguem-se colunas de fumo na cidade de Severodonetsk, aqui vista de Lysychansk, na região de Lugansk, na Ucrânia, a 8 de junho de 2022

Num vídeo das forças especiais ucranianas na zona, divulgado no fim de semana, um soldado ucraniano não identificado diz: “Eles estão a atirar tudo o que têm, todas as munições que têm. Para eles, não importa se é sobre as nossas posições ou sobre áreas civis. Eles arrasam tudo e, depois, usam artilharia e começam a avançar pouco a pouco.”

Durante os intensos combates urbanos, cerca de 500 civis, incluindo dezenas de crianças, refugiaram-se na fábrica de produtos químicos Azot, em Severodonetsk. Ao contrário da fábrica de Azovstal em Mariupol, a fábrica de produtos químicos oferece pouca proteção subterrânea. Os responsáveis ucranianos dizem que essas pessoas, que inicialmente se recusaram a sair, têm comida, mas já não podem ser retiradas da fábrica devido aos intensos combates.

Mas tal como com Azovstal, a fábrica de Azot e os seus arredores tornaram-se o ponto central da resistência ucraniana - frustrando os comandantes russos.

Segundo o grupo de reflexão do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) em Washington, “as forças russas devem estar a enfrentar perdas crescentes e a degradação das tropas e dos equipamentos, algo que complicará as tentativas de renovar as operações ofensivas noutros locais críticos, à medida que prossegue a lenta batalha por Severodonetsk”.

Tal como a defesa de Mariupol exigiu mais de uma dúzia de batalhões táticos, superar a resistência em Severodonetsk está a revelar-se uma tarefa árdua.

Esmagar a resistência

Os ucranianos alegam ter infligido pesadas perdas às forças russas na zona - em parte graças aos novos equipamentos dos aliados ocidentais, incluindo armas antiblindados e howitzers de longo alcance fornecidos pelos Estados Unidos e pela França. No sábado, as forças armadas ucranianas alegaram que unidades do 11.º Regimento de Espingardas Motorizado da Rússia sofreram perdas significativas e foram “retiradas do teatro de operações de combate para restaurarem a sua capacidade de combate”.

No entanto, as linhas de abastecimento ucranianas estão sob ataque constante, e tornou-se mais difícil transportar bens do oeste da região de Donetsk ao longo da autoestrada para Lysychansk.

O Instituto para o Estudo da Guerra ainda prevê que “as forças russas consigam tomar Severodonetsk nas próximas semanas, mas às custas de concentrar a maior parte das suas forças disponíveis nesta pequena área”.

Um soldado ucraniano caminha numa trincheira numa posição ocupada pelo exército ucraniano entre as cidades de Mykolaiv e Kherson, no sul, a 12 de junho de 2022

Até agora, as táticas russas sugerem uma campanha para esmagar a resistência a sul da cidade - em lugares como Syrotyne - e depois atacar as defesas ucranianas de várias direções.

As autoridades da Ucrânia dizem que os russos estão a usar cada vez mais drones para identificar as posições defensivas ucranianas. “Os militares russos monitorizam os ares noite e dia com drones, ajustam o poder de fogo e adaptam-se rapidamente às mudanças nas nossas áreas defensivas”, disse Serhii Hayday, chefe da administração militar regional de Lugansk.

Noutros lugares ao longo de uma linha de frente ativa que se estende por mais de 1000 quilómetros, pouco é o território atualmente cedido ou tomado.

Os principais objetivos dos russos no Donbass são tomar Sloviansk, uma cidade industrial e um centro de transportes, bem como a cidade de Bakhmut, ambas situadas em Donetsk - mas fizeram progressos muito limitados em relação a qualquer um desses objetivos. Eles também podem estar vulneráveis ​​a contra-ataques ucranianos a sul e a oeste da cidade de Izium.

O sul da Ucrânia representa uma imagem diferente. Os russos parecem estar a consolidar as vitórias conquistadas nos primeiros dias da guerra, ao longo de linhas que lhes permitem defender em profundidade uma faixa costeira. Os contra-ataques ucranianos em direção à cidade de Kherson fizeram progressos limitados, já que os russos estão agora bem entrincheirados e mostram pouca vontade de tentar conquistar mais território.

Como disse o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, no domingo, após a sua segunda visita a Kiev: “O tempo é um fator essencial. Tudo dependerá do facto de a Ucrânia conseguir fortalecer a sua capacidade de defender o território mais depressa do que a Rússia consegue renovar a sua capacidade de ataque.”

Moral frágil

Algumas das melhores unidades militares da Ucrânia foram penalizadas durante a defesa do Donbass. O Ministro da Defesa, Oleksiy Reznikov, disse à CNN na semana passada que dezenas de milhares de ucranianos foram mortos desde que a invasão russa começou a 24 de fevereiro. Provavelmente, a grande maioria soldados.

O Ministério da Defesa do Reino Unido avaliou neste fim de semana que as forças ucranianas devem ter sofrido deserções nas últimas semanas - embora acredite que o moral russo é muito mais frágil.

Portanto, não se trata apenas de fornecer armas precisas de longo alcance às forças ucranianas, mas também de intensificar os treinos. Johnson está a promover um plano segundo o qual os aliados desenvolvem o potencial de treinar até 10.000 soldados a cada 120 dias.

Apesar das perdas, e mesmo recorrendo a antigos carros de combate T62 em alguns lugares, as forças russas continuam a ter uma enorme superioridade em termos de blindados e aviões de combate. E apesar de terem uma estratégia pesada e previsível, podem continuar a destruir as defesas ucranianas. Foi divulgado um vídeo no fim de semana que mostra a escala de destruição em Lyman, perto de Sloviansk, tal como Popasna e Rubizhne, mais a leste, que foram arrasadas ​​em abril.

Mas com um fluxo acelerado de armas capaz de reduzir a vantagem da Rússia em termos de artilharia pesada e sistemas de rockets, as forças ucranianas ainda podem impedir o inimigo de causar a mesma devastação noutras vilas e cidades mais a oeste.

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