Enquanto o mundo fixa o olhar no gelo do Ártico, a guerra na Ucrânia entra no seu inverno mais difícil e a Europa, dividida e sem forças, arrisca-se a perder nas duas frentes
"Não se pode voltar atrás." A frase de Donald Trump na rede social Truth Social acerca da Gronelândia caiu como uma bomba na Europa. A cada dia que passa, a NATO, o pilar que assegurou a paz no continente durante mais de 80 anos, parece mais frágil. Só que a leste, a guerra não pára e está a entrar na sua fase mais crítica em quatro anos. E ao tentar jogar em duas frentes ao mesmo tempo, a Europa mostrou o quanto está vulnerável. E pode vir a pagar caro por isso.
"Não têm alternativa", admite Diana Soller, especialista em Relações Internacionais, em declarações à CNN Portugal. Para a investigadora, os líderes europeus colocaram-se num beco sem saída que deviam ter antecipado. O endurecimento da retórica diplomática de Bruxelas está prestes a chocar com a realidade, com o continente sem meios reais para projetar poder em duas direções opostas.
"A Europa ainda não se conseguiu armar e não tem capacidade de lutar uma guerra sozinha com a esperança de poder ganhar", explica Soller. O dilema europeu é estrutural. Sem um exército próprio, para o qual "não há entendimento político, a não ser num momento de absoluta emergência", os países europeus dependem das capacidades logísticas e organizacionais de uma NATO que agora é liderada por quem ameaça a própria integridade do território aliado.
Para a especialista, a Europa está a cometer um erro de análise política. Ao tentar travar as ambições de Washington com apelos à ordem internacional, Bruxelas está a falar uma língua que já não existe. "Donald Trump está a jogar um jogo de grandes potências", alerta Diana Soller, onde "as regras escritas pelos EUA depois da Segunda Guerra Mundial" deixaram de ter validade prática. E isso arrisca impactar fortemente a guerra na Ucrânia em vários campos.
O ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, não perdeu tempo. O chefe da diplomacia russa veio logo a público avisar que qualquer ação dos Estados Unidos contra a Gronelândia "legitimaria a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014". A lógica da Casa Branca é, cada vez mais, a lógica do Kremlin. A Crimeia, disse Lavrov, é "tão importante" para a segurança russa como a Gronelândia é para a americana. Ao reivindicar o Ártico pela força, Trump está a entregar a Putin a justificação moral que o líder russo procurava há mais de uma década.
"No fundo, os valores norte-americanos aproximam-se cada vez mais dos valores russos do que europeus", frisa a especialista em relações internacionais.
Na Europa existem sinais de que se começa a compreender, em parte, que a "velha ordem" não volta mais. Em Davos, Ursula von der Leyen admitiu o fim de uma era. "A nostalgia não trará de volta a velha ordem", declarou a presidente da Comissão Europeia, reconhecendo que se a mudança na postura americana for permanente, "a Europa também deve mudar permanentemente".
Mas a resposta de Washington ao medo europeu roçou o desprezo. Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, aconselhou os líderes europeus a "sentarem-se, respirarem fundo e deixarem as coisas desenrolar-se", classificando a ameaça de retaliação económica europeia como uma "falsa narrativa" sem qualquer lógica.
"A lógica está, de facto, a mudar. Continuamos a tentar olhar para o que se está a passar por regras que já não são endossadas por nenhuma das potências. Estamos presos a um conjunto de valores nos quais estamos isolados internacionalmente e isso é péssimo para a Ucrânia e para a Europa", defende Diana Soller.
Para o tenente-general Rafael Martins, o caos no Ártico não é um acidente, mas um cenário que "converge com os interesses russos". O objetivo do Kremlin sempre foi "separar os EUA da Europa e enfraquecer a Europa" para poder "consolidar a sua política expansionista", e a crise da Gronelândia serviu esse propósito numa bandeja de prata. Para o general, não podemos descartar a hipótese de Trump estar a fazer "jogo triplo", ao apaziguar a Rússia para poder explorar recursos, à custa da segurança europeia.
Para Kiev, que depende quase exclusivamente do apoio militar europeu, a inação europeia é observada com particular frustração. Enquanto Bruxelas procura agora encontrar uma forma de projetar força, o presidente ucraniano recorda que os líderes europeus perderam um ano inteiro para a inação coletiva. Há um ano, Zelensky propôs aos líderes europeus a criação de uma "força armada unida da Europa" com três milhões de soldados, onde a Ucrânia seria um "contribuinte fundamental", partilhando a sua experiência de combate e tecnologia. "Passou um ano e, francamente, ninguém deu um único passo nessa direção", lamentou Zelensky aos jornalistas.
Zelensky não escondeu a preocupação, durante uma entrevista com a AFP. A disputa da Gronelândia está a roubar o palco à Ucrânia. E numa guerra, atenção é tudo. "Preocupa-me qualquer perda de foco durante uma guerra em grande escala", confessou Zelensky. Numa tentativa de evitar que o conflito entre os seus aliados se agrave, Zelensky apelou a Washington para que encete conversações sérias, pedindo aos EUA para "ouvirem a Europa, ouvirem-na verdadeiramente no formato da diplomacia".
Mas se Zelensky tenta manter o otimismo diplomático, no terreno, longe dos discursos de Davos, o conflito continua mais intenso que nunca. O "general inverno" está de regresso. E a Rússia não perdeu tempo em lançar novos ataques à rede elétrica, cortes de luz, frio a morder. Tudo para esgotar os ucranianos e quebrar o apoio da população à defesa do país. Durante a madrugada do dia 20 de janeiro, esta estratégia subiu de tom com ataques diretos contra subestações elétricas de várias centrais nucleares ucranianas. Ao todo, a Rússia lançou 15 mísseis cruzeiro e 339 drones de longo alcance.
Ao mesmo tempo, na linha da frente, o Kremlin continua disposto a pagar um elevado preço em vidas para conquistar o máximo de território possível enquanto um acordo de paz não é alcançado. "A Rússia não vai deixar de manter a pressão, perdendo os homens que perder, para garantir eventualmente o Donbass, Kherson e Zaporizhzhia", explica Rafael Martins.
E, segundo o novo ministro da Defesa ucraniano, Mikhailo Fedorov, esse valor é cada vez mais elevado, atingindo 35 mil mortos, apenas em dezembro. O objetivo do novo ministro é aumentar esse número para 50 mil soldados russos abatidos por mês.
A estratégia ucraniana tornou-se numa corrida contra o tempo e os elementos que passa por resistir e desgastar as forças russas até à primavera, quando o degelo travar os blindados russos. A Ucrânia, nota o general, "muitas vezes parece renascer das cinzas". Mas a resiliência ucraniana também tem limites. Com a rede elétrica sob ataque e temperaturas negativas, o inverno é agora a maior ameaça a uma população cada vez mais esquecida, num continente com os olhos postos a norte.
"A população ucraniana tem sido de uma resiliência enorme. A Ucrânia esteve à beira do colapso várias vezes mas aguenta sempre quando menos se espera", defende o general Rafael Martins.