TRÊS ANOS DE GUERRA || Os exércitos que não aprenderem as lições de hoje poderão não estar preparados para as guerras de amanhã
A guerra na Ucrânia não é apenas um choque de exércitos, é também um laboratório onde o futuro dos conflitos armados está a ser moldado. Tal como a Primeira Guerra Mundial, que revelou o poder devastador das trincheiras e da artilharia moderna, ou a Segunda Guerra Mundial, que demonstrou a supremacia dos tanques e da aviação, o confronto entre Kiev e Moscovo está a redefinir as regras da guerra nos nossos tempos. Apesar de esta guerra ser travada pelos exércitos de dois países, todos estão a tirar notas e a aprender com as lições do campo de batalha – quem não o fizer arrisca-se a ficar para trás num campo de batalha que já não reconhece as táticas do passado.
1. O líder invisível
A guerra na Ucrânia demonstrou que a capacidade de unidades mais pequenas de agir de forma autónoma, tomando decisões ágeis, sem depender da decisão de um superior no topo de uma cadeia de comando hierárquico centralizado, pode ser um fator decisivo no campo de batalha. A velocidade e a agilidade com que os militares precisam de operar num conflito moderno, particularmente um ambiente onde as comunicações podem ser interrompidas pelo inimigo, tem-se revelado um fator importante.
A experiência da guerra na Ucrânia tem demonstrado que ambos os lados têm investido grandes quantidades de recursos em sistemas de guerra eletrónica, bem como capacidades cibernéticas. Estas novas capacidades tornam os exércitos com o comando centralizado mais vulneráveis a ataques desta natureza, podendo reduzir a capacidade de um exército de responder no terreno. A descentralização está a permitir que os comandantes locais sejam capazes de tomar decisões autónomas, independentemente de terem contacto com o líder da unidade.
Essa capacidade pode permitir que os militares possam tomar iniciativas de forma mais rápida, baseadas em informações locais em tempo real, podendo assim aproveitar oportunidades que seriam perdidas se fosse necessário aguardar horas por uma decisão de uma chefia. Isso permite às unidades garantir a capacidade de explorar brechas na linha da frente, mas também "tapar buracos" criados na frente. Além disso, é possível que o aumento da responsabilidade dos comandantes no terreno, acabe por melhorar o moral dos militares, com os soldados a sentirem a responsabilidade de poderem influenciar diretamente o combate.
2. Olhos no céu
Um dos aspetos mais notáveis da guerra na Ucrânia é provavelmente o uso generalizado de pequenos drones kamikazes na linha de frente, algo inédito para qualquer exército nesta escala. De acordo com Oleksandr Syrskyi, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas ucranianas, 2024 foi o ano mais sangrento para o exército russo, com 427 mil baixas, incluindo mortos e feridos. Surpreendentemente, o exército ucraniano estima que 80% destas baixas tenham sido infligidas com o uso de drones na linha da frente.
Os drones estão a tornar-se maiores e mais versáteis, variando de drones "kamikaze" a drones bombardeiros que podem lançar bombas contra alvos inimigos. Além de sua capacidade destrutiva, os drones são cada vez mais ferramentas essenciais para vigilância e reconhecimento, com milhares de drones a monitorizar constantemente a linha da frente para fornecer informações vitais sobre os movimentos e intenções do inimigo.
Outros sistemas têm começado a aparecer com cada vez mais frequência na linha da frente, dando a entender que poderão vir a ser uma tendência no futuro, como drones de apoio logístico, capazes de transportar munições, alimentos, medicamentos e até correio aos militares em áreas onde é praticamente impossível chegar em segurança. Tanto a Ucrânia como a Rússia têm feito diversas experiências com drones para colocar minas antipessoal durante a noite na linha da frente, de forma a dificultar as ofensivas do adversário. Atualmente, uma nova tendência começou a aparecer no campo de batalha: drones com cabos de fibra ótica que são imunes aos sistemas de guerra eletrônica.
3. A luta pela frequência
Só que, como acontece com a maioria dos sistemas utilizados na guerra, há uma tendência constante de ação e reação, com ambos os lados a tentar desenvolver os sistemas mais eficazes, enquanto simultaneamente criam contramedidas para neutralizar os sistemas inimigos. Isso resultou em uma grande proliferação de sistemas de guerra eletrônica, que para bloquear sinais de rádio, causando problemas na coordenação de operações, tornando as unidades no terreno mais vulneráveis a ataques surpresa.
Atualmente existe uma enorme quantidade de sistemas de guerra eletrónica em operação na Ucrânia. A Rússia, em particular, tem conseguido empregar com bastante sucesso sistemas de guerra eletrónica capazes de interferir com sinais de GPS e com os sistemas de navegação de sistemas importantes como os mísseis do HIMARS, que foram fundamentais no primeiro ano de guerra para a Ucrânia. O sucesso destes dispositivos levou a que muitos dos mísseis disparados por Kiev falhassem redondamente o seu alvo.
Outros sistemas de guerra eletrónica têm um papel a desempenhar na defesa. Alguns destes dispositivos são utilizados para proteger as comunicações de ataques de guerra eletrónica inimigo através de criptografia e de utilização de frequências seguras, alternando com repetidamente de frequência, para evitar que o sinal seja intercetado ou bloqueado. Isto torna particularmente a existência de "ELINT", ou inteligência eletrónica, a capacidade de ter equipamentos capazes de monitorizar sinais rádio para localizar equipamentos utilizados pelo inimigo.
No campo de batalha, a superioridade não é apenas determinada pela "força bruta" do maior número de militares ou de meios. O domínio do espectro eletromagnético, com a capacidade de controlar, negar e manipular as comunicações do adversário, tornou-se uma parte crítica do sucesso no campo de batalha, e essa é uma lição que deve ser bem estudada pelos exércitos ocidentais.
4. Por trás da linha da frente
A intensidade da guerra na Ucrânia mostrou que nem mesmo as gigantescas reservas de guerra soviéticas são suficientes para a intensidade de um conflito moderno. O consumo de munições, particularmente de grande calibre, é muito superior ao esperado. Tanto as munições de artilharia convencional como os sistemas mais avançados e mais precisos foram praticamente esgotados após alguns meses de conflito, isso demonstra que os países que quiserem estar preparados para a guerra têm de ter reservas de guerra bem profundas, capazes de sustentar operações de forma prolongada.
Só que até as mais profundas reservas esgotam-se. Para isso, a capacidade de produção doméstica e a resolução de possíveis "engarrafamentos" da cadeia de fornecimento são bastante importantes para poder aumentar, de um momento para o outro, a capacidade de produção dos sistemas mais importantes para travar os avanços dos inimigos. No entanto, é importante diversificar os fornecedores, de forma a minimizar os riscos de surpresas desagradáveis.
No entanto, isso não chega. Nos primeiros dias da invasão russa da Ucrânia, a ajuda internacional foi fundamental para a sobrevivência das forças armadas ucranianas, que viram alguns sistemas fundamentais chegar à frente de batalha a um ritmo recorde. Isto demonstra a importância de ter uma cadeia logística bem montada, capaz de fazer chegar o equipamento militar onde ele é mais preciso, o mais rápido possível. Em conflitos modernos, a logística e a capacidade de sustentar o combate podem ser tão decisivos quanto a superioridade tecnológica ou tática.
5. Decifrar o caos
Outro aspeto da guerra da Ucrânia é a utilização de Inteligência de Fonte Aberta (OSINT). Esta forma de análise provou ser uma ferramenta crucial para o reconhecimento e para operações de vigilância, permitindo que uma comunidade de analistas pudesse mapear o campo de batalha com recurso a imagens de satélite, informação pública nas redes sociais ou notícias públicas. Isto permitiu verificar informações em tempo real, oferecendo uma visão mais objetiva do que se está a passar na linha da frente.
Durante a guerra na Ucrânia, a utilização de informações de fonte aberta foram cruciais para a identificação e para o planeamento de operações contra alvos reais. Ainda em 2022, a Ucrânia utilizou as publicações das redes sociais de vários membros do grupo Wagner para identificar a sua base em Lugansk, atingindo o edifício que servia de quartel com mísseis de HIMARS, levando à morte de dezenas de mercenários russos.
Estas medidas são também fundamentais para contrariar uma das armas mais poderosas dos exércitos modernos: as campanhas de desinformação e manipulação dos meios de comunicação, que visam influenciar a opinião pública a deixar de apoiar o esforço de guerra de um determinado lado. A colaboração global em torno de OSINT permitiu que uma comunidade diversa de analistas, jornalistas e até cidadãos comuns contribuísse para o esforço de inteligência, ampliando o alcance e a profundidade das informações disponíveis. No entanto, o uso eficiente de OSINT exige habilidades para discernir entre informações valiosas e ruído, e para lidar com a potencial manipulação das fontes abertas, demonstrando que, enquanto poderoso, este tipo de inteligência vem com seus próprios desafios e limitações
