Presidente da Rússia entende que ninguém o abordou devidamente para acabar a guerra, que não terá paz a depender dos EUA, mas antes de outra coisa
Donald Trump colocou um prazo a Vladimir Putin. São 50 dias para chegar à paz, ou vêm aí tarifas “mordazes” para a Rússia. Apesar das ameaças vindas do lado de lá do Atlântico, no Kremlin ninguém estremece ou desvia sequer uma vírgula do que se pretende.
De acordo com a agência Reuters, que cita três fontes próximas do Kremlin, o presidente da Rússia pretende continuar a guerra até que o Ocidente aceite os seus termos de paz. O mesmo é dizer que quer ver o reconhecimento das quatro regiões anexadas - Lugansk, Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson -, a proteção dos russófonos que vivam na Ucrânia e a garantia de que Kiev não se vai aliar à NATO, além da neutralidade e quase aniquilação das Forças Armadas.
Acredita Putin que a Rússia tem economia e Forças Armadas para aguentar esse esforço, mesmo que a Europa e os Estados Unidos consigam reforçar as medidas contra o bloco russo.
E não é a frustração assumida de Trump ou a ameaça com tarifas dentro de 50 dias que fazem recuar o Kremlin. Com efeito, acredita-se no núcleo duro de Putin que é possível continuar a sobreviver às sanções ocidentais, nomeadamente através da economia. É que se os Estados Unidos ameaçam com tarifas, a Rússia pode atingir onde também dói: as empresas compram petróleo a Moscovo.
“Putin pensa que ninguém o abordou seriamente sobre os detalhes de paz na Ucrânia - incluindo os americanos -, então vamos continuar até que tenha o que quer”, referiu uma das fontes à agência Reuters.
Esta é a postura apesar da aparente boa relação entre Casa Branca e Kremlin, onde os telefones têm tocado para receber chamadas do outro lado. O enviado dos Estados Unidos Steve Witkoff - que começou por se debruçar sobre o Médio Oriente, mas rapidamente passou a tratar também da Ucrânia -, esteve recentemente em Moscovo, onde ninguém viu vontade de uma aproximação a um bom plano de paz.
“Putin valoriza a relação com Trump e tem tido boas discussões com Witkoff, mas os interesses da Rússia estão acima de tudo”, acrescentou uma das fontes.
E mesmo que as tarifas prometidas por Trump venham a afetar países terceiros, como a China, a Índia ou o Brasil, Putin entende que a Rússia tem a capacidade para ultrapassar um cenário desses.
Entende o Kremlin que tem, neste momento, vantagem no campo de batalha, enquanto a sua economia de guerra também permite uma maior produção de armamento do que aquilo que faz a NATO.
Em jeito de aviso, uma das fontes ouvidas pela agência Reuters sugere mesmo que Putin pode querer avançar mais no terreno e não se ficar apenas pelas quatro regiões ilegalmente anexadas em 2022. “O apetite vem de comer”, apontou, sugerindo que há mais na mente do presidente da Rússia do que a Crimeia - anexada em 2014 -, Lugansk, Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson. Isto numa altura em que as forças russas conseguiram entrar em Sumy ou Dnipropetrovsk, por exemplo, mantendo ainda posições em Kharkiv.
“A Rússia vai atuar com base nas fraquezas da Ucrânia”, acrescentou outra fonte, admitindo que a guerra pode parar com a conquista total de todas as quatro regiões, além do reconhecimento da Crimeia. Nesta altura só Lugansk está integralmente nas mãos dos russos.
“Se isso falhar, haverá uma conquista ainda maior em Dnipropetrovsk, Sumy e Kharkiv”, acrescentou a mesma fonte.
No fim do dia, Putin não só não parece preocupado com as ameaças vindas da Casa Branca, como até responde com as suas próprias ameaças. Neste caso de que avançará ainda mais na Ucrânia.
