"Despedi-me, e essa foi a última vez que o vi": a Rússia prometeu um bom emprego a estes homens e eles acabaram presos no "inferno"

CNN , Magdalena Sofia Vitores Moreno,​​​​​​​ Max Saltman, Jimena De La Quintaña e Katharina Krebs
5 jul, 12:00
Um grupo de familiares de peruanos enviados para a Rússia realiza uma vigília à luz das velas em frente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros do Peru (Klebher Vasquez/Anadolu/Getty Images via CNN Newsource)
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O que foi vendido a um jovem do Peru foi um cargo de cozinheiro longe da guerra, mas as primeiras informações confirmaram o receio da mãe: o emprego era, afinal, na linha da frente. O mesmo aconteceu a tantos outros homens

A última vez que Norma viu o filho foi no final de janeiro, quando o deixou num aeroporto em Lima, capital do Peru. Disse-lhe que tinha conseguido um emprego como cozinheiro para o exército russo, anunciado nas redes sociais, garantindo que se manteria longe da guerra na Ucrânia, ganharia um bom salário e até teria a hipótese de obter a cidadania russa.

Norma desconfiou de imediato. O seu filho de 31 anos nunca tinha saído do Peru e nunca tinha sequer pegado numa arma. (A CNN não está a divulgar o nome completo de Norma nem o do seu filho para os proteger de represálias).

"Eu queria trancá-lo em casa, mas ele já se tinha decidido", recorda Norma à CNN. Esta mãe chegou a ponderar chamar a polícia. "Ele disse-me: 'mãe, por favor, compreende, só vou trabalhar como cozinheiro'. Mas o coração de uma mãe sabe, senão não teria ficado tão ansiosa."

Quando o deixou no aeroporto, Norma viu que havia outras pessoas à espera para voar também para a Rússia. Tentou interrogá-las, mas elas recusaram-se a falar com ela.

“O meu filho pediu-me para não o envergonhar, que precisava de acreditar nele, que só ia trabalhar como cozinheiro”, lembra. “Ele deixou-me de coração partido. Algo me dizia que havia algo de errado. Despedi-me, e essa foi a última vez que o vi.”

Norma mostra um avental de chef que pertencia ao filho no seu antigo quarto. Contou-lhe que tinha conseguido um emprego como cozinheiro no exército russo antes de partir no final de janeiro
Norma mostra um avental de chef que pertencia ao filho no seu antigo quarto. Contou-lhe que tinha conseguido um emprego como cozinheiro no exército russo antes de partir no final de janeiro (CNN)

Os seus instintos estavam certos. Logo, Norma recebeu vídeos do filho que mostravam a verdadeira natureza do trabalho. Tinha-se juntado às centenas de peruanos alegadamente atraídos para o exército russo por recrutadores locais e anúncios nas redes sociais com promessas de empregos lucrativos na Rússia, apenas para se verem a lutar na linha da frente da guerra na Ucrânia.

Pouco depois de se ter alistado, o filho de Norma enviou à mãe fotografias suas em trajes de combate, a cavar trincheiras e a construir bunkers de madeira com outros combatentes estrangeiros numa floresta ucraniana, vídeos que partilhou com a CNN. Nas chamadas esporádicas que Norma fazia com o filho e nas mensagens de vídeo que ele enviava, ouvia drones a explodir em segundo plano - que ele garantia estarem muito longe.

Os vídeos cessaram no início de abril, quando o filho de Norma disse que estava a ser "castigado" por um comandante por mau comportamento.

"Eu disse-lhe: 'isso é mentira, vais lutar na linha da frente'", recorda a mulher. "Ele disse-me para me acalmar. E desde esse dia não tive mais notícias dele."

Tenho uma réstia de esperança de que ele esteja algures, escondido numa trincheira, mas na verdade não sei.

Carne para canhão

À medida que a guerra da Rússia na Ucrânia se arrasta, as Forças Armadas russas têm-se esforçado consideravelmente para reforçar as suas fileiras, incluindo com o recrutamento de combatentes estrangeiros de países em desenvolvimento com promessas de salários e bónus elevados.

Em fevereiro, a CNN noticiou que vários homens de países africanos foram forçados a servir no exército russo depois de terem recebido ofertas de empregos civis bem remunerados como motoristas ou seguranças. Uma dúzia de homens que falaram com a CNN disseram que, pouco depois de chegarem à Rússia, foram obrigados a assinar contratos em russo, receberam treino mínimo e foram enviados para o combate.

Diversos países protestaram veementemente contra o recrutamento russo. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Quénia deslocou-se a Moscovo em março para exigir que a Rússia deixasse de recrutar quenianos, descrevendo o fluxo de cidadãos daquele país para a Rússia como uma rede de tráfico humano. A embaixada da Rússia em Nairobi classificou as alegações como “perigosas e enganadoras” num comunicado à Deutsche Welle.

Depois de milhares de cidadãos nepaleses se terem voluntariado para lutar pela Rússia, o Nepal proibiu qualquer viagem à Ucrânia ou à Rússia para fins de trabalho.

As histórias dos recrutas peruanos e das suas famílias são semelhantes. A CNN falou com doze famílias que protestam há semanas em frente à embaixada russa em Lima e ao Ministério dos Negócios Estrangeiros do Peru, aguardando respostas sobre o paradeiro dos seus familiares.

Muitos dos homens são de origem humilde e pouco sabem sobre o que os pode esperar na Rússia.

Pedro Bravo, diretor do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Peru para as Comunidades Peruanas no Estrangeiro, revela à CNN que muitos recrutas “têm recursos limitados e precisam desesperadamente” de dinheiro. “Não têm uma compreensão muito clara da realidade internacional”, diz Bravo. “É muito mais fácil enganá-los.”

Rosa, mãe de três filhos que pediu à CNN para não divulgar o apelido, conta que o marido, de 48 anos, viajou para a Rússia com outros peruanos, na esperança de conseguir um emprego como segurança. Tinha trabalhado como guarda prisional em Lima, mas Rosa garante que o marido não tinha experiência militar antes de se alistar através de um recrutador local no Peru.

A CNN teve acesso a mensagens de WhatsApp trocadas entre o marido de Rosa e um recrutador que falava espanhol, de alcunha “Vizio”. As mensagens mostram que concordou em “alistar-se no exército da Federação Russa” por um contrato de um ano. O recrutador, que se recusou a dar uma entrevista e a revelar o seu verdadeiro nome à CNN quando contactado, disse ao marido de Rosa que este teria seguro de saúde e de vida e seria repatriado para o Peru caso se ferisse.

Rosa insiste que o marido não sabia que seria enviado para a guerra.

“Nunca lhe disseram que ele iria para a guerra, que teria de sacrificar a sua vida, que não receberia pagamento. Ele não teria ido”, garante esta mulher à CNN numa entrevista por telefone.

Depois de viajar para a Rússia, as mensagens que o marido de Rosa enviava para casa pareciam tranquilizadoras. Mas depressa se tornaram fragmentadas, e ele apagava frequentemente as mensagens momentos depois de as enviar.

“Ele disse-me: ‘acho que nos trouxeram para a guerra. Isto é o inferno’”, conta Rosa. Outras mensagens descreviam fome, exercícios militares brutais, ataques constantes de drones e recrutas a serem castigados por não compreenderem as ordens russas.

A 26 de março, disse a Rosa que seria novamente transferido e recebeu ordens para recolher as suas armas e pertences. “Ele disse-me: ‘amo-vos muito. Estarão sempre no meu coração’”, recorda Rosa.

Ela não recebeu mais nenhuma mensagem dele desde então. Vários dos seus companheiros de tropa disseram a Rosa que ele morreu num ataque de drone, mas esta mulher continua convencida de que ele ainda está vivo. “Foram levados para lá como carne para canhão, como se as suas vidas não valessem nada”, lamenta Rosa, a chorar. “Tenho três filhos que choram dia e noite pelo pai.”

A CNN contactou o Ministério da Defesa da Rússia para obter uma posição, mas não obteve resposta. A questão atraiu a atenção do governo, com o Ministério Público do Peru a anunciar no mês passado que está a investigar o recrutamento de russos, que classificou como "tráfico de pessoas".

Percy Salinas, advogado que representa algumas famílias de recrutados, forneceu à CNN uma cópia de uma ordem judicial que descreve o âmbito do caso.

As autoridades estão a investigar 36 queixas de cidadãos peruanos que afirmam que os seus familiares ou amigos foram enganados “através de falsas ofertas de emprego no estrangeiro - especificamente na Federação Russa - com o objetivo de os transportar para fora do país e submetê-los a… participação forçada num conflito armado entre a Rússia e a Ucrânia”, segundo a ordem judicial.

O Ministério Público recusou comentar o caso quando contactado pela CNN.

Bravo, do Ministério dos Negócios Estrangeiros, diz à CNN que o governo peruano fez pelo menos 247 pedidos distintos a Moscovo solicitando informações sobre peruanos nas Forças Armadas russas e exigiu “o regresso imediato e seguro dos nossos compatriotas ao seu país de origem, dado que partiram sem a devida autorização”.

A Rússia declarou que “respeita profundamente a decisão dos cidadãos estrangeiros de participar na defesa da soberania e da segurança [russas]”.

“A embaixada reafirma a sua disponibilidade contínua para tomar todas as medidas necessárias para obter informações o mais rapidamente possível, com base em pedidos formalmente apresentados”, afirmou a Embaixada da Rússia em Lima num comunicado de abril sobre as “preocupações das famílias peruanas”.

Tráfico humano ou erro humano?

Salinas, advogado que representa as famílias dos recrutas, estima que existam pelo menos 800 peruanos a lutar pela Rússia neste momento, muitos dos quais se alistaram com a promessa de salários elevados.

“O principal motivo pelo qual muitas famílias tomaram esta decisão, e os homens viajaram para a Rússia, foi económico”, garante Salinas à CNN. “Bónus de 20 mil dólares assim que assinassem o contrato e salários exorbitantes de três ou quatro mil dólares.”

A maioria nunca recebe o dinheiro prometido, afirma o advogado. Numerosos familiares disseram à CNN que os seus familiares no exército russo não conseguiam transferir dinheiro para eles, mesmo depois de começarem a receber o salário.

Salinas admite que existe um elemento de “responsabilidade pessoal” por parte dos homens que assinaram contratos com o exército, mas insiste que a maioria dos peruanos que lutam pela Rússia foram “enganados”.

“Isto enquadra-se na categoria de tráfico humano e é uma questão de direitos humanos”, sublinha Salinas. “Porque os peruanos foram atraídos para aqui sob falsos pretextos para trabalhar, e isso poderia eventualmente levar à sua morte.”

Um soldado peruano atualmente na Ucrânia ocupada pela Rússia contou uma história semelhante à CNN.

“Decidi vir para aqui por causa do emprego que me ofereceram; o salário era melhor do que no Peru, e disseram-me que iria trabalhar como segurança em Moscovo”, conta Guillermo, um veterano do exército peruano de 28 anos, natural de Lima. A CNN alterou o seu nome para o proteger de represálias. “Estou alistado há três meses e meio e, sinceramente, quero voltar para o Peru.”

Guillermo conta à CNN que ele e um amigo foram recrutados por Pocho Wilson Pinto Peña, um oficial na reserva do exército peruano. À chegada à Rússia, Guillermo disse que os seus novos superiores lhe confiscaram o telemóvel e “praticamente forçaram” este homem a assinar um contrato em russo, que não lhe foi permitido traduzir.

A CNN analisou uma cópia do contrato, bem como vários outros fornecidos por familiares de recrutas. Todos eram contratos militares russos padrão, com a duração de um ano, semelhantes aos assinados por recrutas estrangeiros de outros países. (O nome de Pinto não consta de nenhum dos contratos analisados ​​pela CNN).

Pinto garante à CNN que não recrutou homens peruanos para a guerra da Rússia, mas apenas forneceu o número de telefone de um recrutador peruano na Rússia, cujo nome recusou revelar. Afirma que os homens que se alistaram sabiam exatamente para onde iam - ou deveriam saber.

O recrutador “disse-me que só precisava de pessoal, sem especificar exatamente para quê”, acrescenta Pinto. “Mas o país está em guerra, por isso, logicamente, como militar, saberia para onde me estavam a levar.”

Pinto diz que alertou os homens que apresentou ao recrutador de que poderiam ser enviados para a linha da frente e deu-lhes conselhos, como “se vier um drone, baixe-se”.

“Fico muito triste por talvez tenham sido enganados por outras pessoas”, acrescenta Pinto, garantindo que chegou a acompanhar uma família desesperada até à embaixada russa em Lima para obter informações sobre os seus familiares. Pinto tem conhecimento da investigação do Ministério Público sobre o recrutamento no Peru, que menciona um recrutador chamado “Pocho”, e considera a alegação de tráfico humano “absurda”.

“Não estou envolvido em nenhum tráfico humano, sou um homem honesto”, defende-se Pinto. “Sou transparente e honesto, nunca estive envolvido em nada disto.”

Oriundo da Ucrânia ocupada, Guillermo contou à CNN que a sua vida é desoladora. O amigo com quem se juntou foi morto em combate no mês anterior.

“Estou completamente abandonado”, desabafa Guillermo. “Não tenho comida, não tenho medicamentos, fui ferido num ataque de drone e parti a rótula.”

“A minha rotina diária é carregar caixas de comida congelada ou outro tipo de caixas”, continua. “Faço tudo isto com a ajuda de uma bengala. Quando faço este tipo de trabalho à noite, não consigo dormir porque o joelho incha muito e dói. Tudo o que quero é ir para casa.”

Guillermo diz que tentou obter ajuda da embaixada peruana, mas disseram que “não podiam ajudar” - tinha assinado um contrato.

Bravo, diretor da diáspora no Ministério dos Negócios Estrangeiros do Peru, indica à CNN que o governo peruano está de mãos atadas. “O que faço quando a pessoa que alega ter uma lesão no joelho está na linha da frente? Não posso ir lá para a resgatar”, explica Bravo. “Essa possibilidade simplesmente não existe.”

Assim que os soldados peruanos assinam os seus contratos, acrescenta Bravo, “a situação torna-se muito difícil para os contactar”.

O Guillermo sabe de tudo isso. Tem plena consciência de que a sua situação parece desesperada. “Vou sair daqui morto na guerra ou assassinado”, conclui Guillermo. “Não tenho saída.”

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