Decreto de Putin não limita mobilização a reservistas. Kremlin oculta artigo 7.º do documento

21 set, 11:57

Analistas e professores universitários questionam a veracidade das garantias dadas pelo chefe de Estado russo e pelo ministro da Defesa do país

O presidente russo Vladimir Putin anunciou esta quarta-feira a mobilização militar parcial de 300 mil homens para as Forças Armadas do país. Num discurso de 14 minutos, o líder russo anunciou que apenas seriam convocados militares na reserva e que recrutas e estudantes estariam automaticamente dispensados.

No entanto, no conteúdo do decreto-lei, há quem aponte que não há nenhuma garantia de que apenas serão mobilizados reservistas. A analista política russa Yekaterina Shulman leu o documento e garante que o decreto não especifica quaisquer parâmetros (nem territoriais nem sobre categorias de indivíduos). Citada pelo canal Nexta, Shulman diz que qualquer pessoa pode ser mobilizada, exceto os trabalhadores do complexo militar-industrial, que têm um prolongamento do seu período de trabalho.

Yekaterina Shulman é uma reputada académica russa na área da ciência política, com uma carreira universitária no seu país e colaborações regulares com meios de comunicação social ocidentais. Durante alguns anos integrou o Conselho Presidencial para a Sociedade Civil e os Direitos Humanos da Rússia. Após a invasão da Ucrânia assumiu a oposição à guerra e em abril deixou a Rússia e foi trabalhar como professora numa universidade alemã. Poucos dias depois, foi incluída pelo Kremlin na lista de "agentes estrangeiros", o que a impede de regressar ao seu país. O seu canal de Youtube tem mais de um milhão de subscritores.

De facto, o documento não limita a mobilização a reservistas, apenas estabelecendo critérios para a exclusão de cidadãos da convocação. De acordo com o ponto 5 do documento, estão excluídos os cidadãos que atingiram o limite de idade para serem convocados pelo exército e os que, por motivos de saúde, têm uma declaração da comissão médica militar a dizer que estão “inaptos” para servir no exército. Estão também excluídos do processo de mobilização os presos, “em ligação com a entrada em vigor de uma sentença judicial que impõe uma sentença de privação de liberdade”, pode ler-se no documento.

Em relação à última alínea, uma investigação do The Guardian revelou que o líder do Grupo Wagner e aliado de Putin, Yevgeny Prigozhin, está a recrutar soldados nas prisões russas. O jornalista Pjotr Sauer falou com quatro prisioneiros e três familiares de encarcerados que confirmam essa informação, após a divulgação de um vídeo que mostrava Prigozhin a falar com prisioneiros.

"Quando vi aquele vídeo, pensei que o Prigozhin devia ter uma agenda muito ocupada, porque era exatamente o que ele nos disse também. Ele prometeu que seríamos livres se lutássemos durante seis meses. Mas avisou que poucos voltariam", disse Ivan, citado pelo jornal britânico.

Outro ponto que suscita dúvidas é a não divulgação do artigo 7.º. "De facto, [o artigo 7.º] é para uso oficial, então não posso revelá-lo", referiu esta quarta-feira Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, em conferência de imprensa. Peskov confirmou que este ponto se refere ao número de soldados a serem mobilizados, mas referiu que “não pode explicar” o porquê da sua não divulgação.

"A única coisa que posso dizer é o que Sergei Shoigu disse na sua entrevista: 300.000 pessoas. Aqui estamos a falar de até 300.000 pessoas", garantiu, citado pela Tass. O mesmo Peskov negara, no dia 13 de setembro, que a Rússia estivesse a considerar uma mobilização total ou parcial.

À semelhança da questão anterior, também já foram levantadas dúvidas quanto à veracidade das afirmações do Kremlin. “A ordem de Putin não contém nada sobre a mobilização ‘parcial’. A redação é a seguinte: ‘o Ministério da Defesa estabelece uma quota para cada região’. Não há números aqui”, afirmou Sergey Radchenko, historiador e professor da Johns Hopkins School of Advanced International Studies, no Twitter, deixando a entender que não há limite para o número de pessoas que o governo russo pode mobilizar.

“Devemos provavelmente esperar que as pessoas sejam mobilizadas nas províncias. O salário de um soldado contratado tem como objetivo mitigar a oposição. Os salários ainda estão muito acima da média dos salários russos. Será de esperar que Moscovo seja mobilizada por último, uma vez que quaisquer medidas de mobilização deste tipo em Moscovo poderiam levar a sérios protestos e tumultos. Daí as quotas diferentes para regiões diferentes” explica.

“Uma medida de desespero, indicando que Putin está realmente nas últimas. Estamos prestes a descobrir, penso eu, o quão popular esta guerra é, na realidade, entre a opinião pública russa”, vaticinou Radchenko.

Certo é que a mobilização anunciada pelo líder russo já terá colocado em sobressalto milhares de russos. Os voos só de ida a partir da Rússia esgotaram esta quarta-feira. Desde a transmissão do discurso, dados do Google Trends mostram um aumento das pesquisas para Aviasales, o site mais popular da Rússia para a compra de bilhetes de voos.

Voos diretos de Moscovo para Istambul, na Turquia, e Yerevan, na Arménia - destinos que permitem a entrada de cidadãos russos sem visto - ficaram esgotados esta quarta-feira, de acordo com dados de vendas da Aviasales.

Algumas rotas com escala, incluindo as de Moscovo a Tbilisi, também já não estavam disponíveis, enquanto os voos mais baratos da capital para o Dubai custam agora mais de 300 mil rublos (quase cinco mil euros).

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