De armas na mão e a cantar o hino. "Mr. Nobody Against Putin" mostra como a Rússia está a doutrinar as suas crianças para a guerra

28 fev, 22:00
Um aluno aprender a mexer numa arma na escola primária de Karabash, na Rússia - cena do filme "Mr. Nobody Against Putin " (DR)

Um professor russo filmou a transformação que aconteceu na sua escola depois da invasão da Ucrânia. O filme de Pavel Talankin e David Borenstein já ganhou um BAFTA e está nomeado para o Óscar de Melhor Documentário. Estreia esta semana nos cinemas em Portugal

Até há pouco tempo, os dias de Pavel Talankin, professor na escola número 1 de Karabash, uma cidade industrial com 10.000 habitantes, localizada nos Montes Urais, na Rússia, eram bastante felizes. “Pasha”, como os amigos o tratam, tinha tido uma infância muito solitária. Então, depois de estudar cinema na universidade de Chelyabinsk, a capital da região, decidiu voltar à sua escola e, trabalhando como coordenador de eventos e videógrafo, proporcionar aos alunos aquilo de que mais tinha sentido falta como estudante. Organizava as festas de fim de ano e as cerimónias de graduação, fundou um clube de comédia. O seu gabinete tinha sempre a porta aberta e tornou-se um refúgio onde os alunos podiam ir para tocar guitarra, jogar Uno, fazer vídeos ou simplesmente para conversar. 

Até que em fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia. Menos de um mês depois, o Ministério da Educação introduziu um novo currículo com o objetivo de incutir nos mais novos o apoio às ambições militares do presidente Vladimir Putin. Nas aulas, os professores passaram a ter de justificar a operação militar, explicando a “desnazificação e desmilitarização” da Ucrânia e o conceito de “guerra híbrida”. Os estudantes tinham de assistir a palestras patrióticas, participavam em competições de lançamento de granadas e até receberam a visita de mercenários do grupo paramilitar Wagner que os ensinaram a identificar diferentes tipos de minas e o que fazer se fossem atingidos.

Agora, em vez de filmar só os eventos para o arquivo da escola, Talankin tinha de filmar tudo e carregar as imagens numa base de dados do governo para provar que a escola estava a cumprir as novas diretivas. O professor passou a odiar o seu trabalho. Mas essas imagens tornaram-se depois material para o filme “Mr. Nobody Against Putin”, que já ganhou vários prémios e está nomeado para o Óscar de Melhor Documentário. 

O filme chega na próxima quinta-feira, 5 de março, aos cinemas portugueses.

“É uma sensação muito desagradável. É como se estivéssemos numa sala e todas as paredes se estivessem a fechar sobre nós. Estamos a ficar sem ar. E estamos altamente conscientes de que não podemos mudar nada, que continuamos presos neste sistema. Adoro o meu trabalho, mas não quero ser um peão do regime”, diz Pasha, em frente da câmara. Um progressista antiguerra, que tem no seu gabinete uma bandeira pró-democracia, Palankin sente-se de tal forma incomodado com as suas funções que quer demitir-se. 

Mas um dia, vê um anúncio no Instagram onde se pedia aos russos que contassem como as suas vidas profissionais tinham mudado por causa da guerra e, num impulso, decide responder. Pouco tempo depois, recebe uma mensagem de David Borenstein, um realizador de documentários americano que vive na Dinamarca, que o desafia a contar a sua história num filme. Talankin aceita então fazer um documentário sobre como as escolas russas se tornaram centros de doutrinação de crianças para a política bélica de Putin. 

“Semanas depois da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, eu e o Pasha estabelecemos uma linha de comunicação encriptada e uma forma segura de transferir ficheiros de vídeo. Os nossos papéis criativos desenvolveram-se de forma natural: o Pasha filmava tudo o que ressoava com ele, partilhando temas e ideias que lhe eram importantes, enquanto eu editava o material numa narrativa moldada pela sua visão e experiência”, explica Borenstein num depoimento divulgado pela distribuidora Risi Film. Durante mais de dois anos, os dois falaram semanalmente através de chamadas encriptadas.

Todo o projeto dependeu de “uma confiança incrível entre pessoas que nunca se conheceram”, contou mais tarde Talankin. Decidiu não deixar o seu emprego na escola e continuou a filmar, com a ajuda de um cameraman contratado pela escola para dar resposta ao imenso trabalho que passou a ter com toda a propaganda (e que aparece creditado no filme como “anónimo”). Andava sempre com a câmara, na escola e nas ruas. Entrevistou os alunos que viram os seus irmãos e amigos irem para a frente de batalha. Filmou, emocionado, os jantares de despedida dos seus ex-alunos, mobilizados para a guerra. Não filmou, por respeito, o funeral de um dos seus amigos de infância, morto em combate

Rapazes cortam o cabelo para se juntarem ao exército (DR)
O documentário "Mr. Nobody Against Putin" é protagonizado por Pavel Talankin, o videógrafo de uma escola russa (DR)
O filme mostra como as escolas russas têm a responsabilidade de preparar as crianças para a guerra (DR)

Entretanto, começou a temer pela sua vida. “Um passo em falso, um telefonema, uma suspeita, e eu poderia deparar-me com 15 a 20 anos de prisão”, recorda, no depoimento divulgado pela distribuidora. Em junho de 2024, pouco depois do último dia de aulas, Pavel Talankin deixou a Rússia pela primeira vez na sua vida, aos 33 anos. Disse que ia passar uma semana de férias na Turquia e partiu, levando consigo uma série de discos rígidos com as imagens. Ficou em Istambul durante algum tempo e depois foi para Praga, e continuou a trabalhar com Borenstein na construção deste filme: “Mr. Nobody Against Putin” (que se poderia traduzir livremente por “Um Zé Ninguém Contra Putin”).

“Queríamos criar um filme que captasse a realidade da vida das pessoas comuns num momento extraordinário da história russa. Mostrar como a guerra traumatiza comunidades, mas, mais do que isso, celebrar a alegria e a beleza que o Pasha cultivava na sua escola”, explica David Borenstein. “Ao retratar esta vida em Karabash, conseguimos transmitir a verdadeira devastação da militarização total da Rússia. O Pasha, enquanto denunciante, está a mostrar-nos algo verdadeiramente importante. Está a dar-nos uma visão interna sem precedentes da militarização em larga escala da Rússia desde 2022.”

Em janeiro de 2025, no Festival de Cinema de Sundance, o filme ganhou o Prémio Especial do Júri. Depois disso, vieram outros festivais e outros prémios. Na semana passada “Mr. Nobody Against Putin” recebeu o BAFTA para Melhor Documentário. Na cerimónia dos Óscares, a 15 de março, poderá ganhar um Óscar nessa mesma categoria. 

Quando o filme estreou, Talankin estava preso em Praga, à espera de receber asilo político. Mas agora, já com documentos, tem viajado para promover o documentário e contar a sua história. “O filme é sobre a Rússia. Sobre como a sua história se entrelaçou tão profundamente na vida do seu povo que parece que todas essas pessoas já viveram várias vidas e que esta é apenas mais uma a suportar — um pouco mais de tempo a fazer coisas que odeiam”, explica o professor que, entretanto, foi considerado "persona non grata" pelas autoridades russas. Talankin foi acusado de traição e tem recebido várias ameaças. “Para mim, este filme é uma forma de mostrar ao mundo o que está a acontecer à minha volta. De apontar para o problema. Talvez um dia isso ajude os russos a olhar para trás, a enfrentar os seus erros e a impedir que isso aconteça novamente.”

“É como um manual, uma lição - vejam o que vos espera se forem apolíticos, se forem fracos, se cederem à autocensura”, disse Pavel Talankin ao The New York Times. O Óscar seria bom, mas o que ele queria mesmo é que as pessoas no seu país pudessem ver este filme.

Pavel Talankin no filme "Mr. Nobody Against Putin" (DR)

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