Encontraram-se uma vez em 2018 num país europeu que ainda era neutro. Quem lá esteve descreve facilmente o que se sentiu: "Não podia lembrar-me de nada que fosse pior que aquele terrível espetáculo"
Donald Trump não parte muito otimista - a revelação foi feita pelo presidente da Finlândia - para um encontro que alguns até já compararam a um momento decisivo para a Segunda Guerra Mundial, mas também não é a primeira vez que tem de se preparar para falar cara a cara com Vladimir Putin.
Pelo contrário, já que os dois já se encontraram anteriormente. A diferença é que desta vez há uma guerra e a Rússia, eterna inimiga dos Estados Unidos, ergueu uma barreira com a invasão à Ucrânia.
Mesmo que o presidente norte-americano se vá mostrando mais ou menos amigo de Putin, mais ou menos compreensivo com que o Kremlin faz, também tem deixado claro que a sua paciência tem limites e que eles podem estar para chegar - o aviso de “consequências sérias” foi o mais recente.
Se a coisa não correr bem, certamente que Trump não poderá voltar a usar um truque que tentou em 2018, quando os dois estiveram frente a frente em Helsínquia, capital da Finlândia, na altura um país ainda neutral, uma vez que estava longe de imaginar que viria a aderir à NATO.
Fiona Hill era por essa altura uma das principais conselheiras da Casa Branca para assuntos europeus e russos. Pouco tempo depois do encontro, já com Trump fora da presidência, haveria de recordar “um daqueles momentos em que é mortificador e humilhante para um país”, como a própria lembrou em declarações à CNN em 2021.
O país são os Estados Unidos, claro, que saíram daquela reunião com poucas razões para sorrir, num encontro que teve tanto de mau como de estranho, ao ponto de Trump ter chegado a fingir um ataque para acabar com o evento.
“Eu simplesmente pensei ‘vamos tentar acabar com isto’. Não podia lembrar-me de nada que fosse pior que aquele terrível espetáculo”, disse Fiona Hill a Don Lemon, da CNN.
Foi a mesma conselheira que revelou esse episódio da quase convulsão, que não teve o efeito pretendido: acabar com a cimeira.
Desta vez é pouco provável que Trump se faça acompanhar de alguém como Fiona Hill, já que a sua nova administração optou por pessoas leais em vez de pessoas experientes. É o caso de Steve Witkoff, o imobiliário que virou um czar da política externa. Primeiro apenas para o Médio Oriente, depois para todas as guerras que há para resolver o mais depressa possível, que o Nobel da Paz não espera e o presidente norte-americano já desespera.
É por isso que o Conselho Nacional de Segurança, tão crucial nessa reunião em que Fiona Hill esteve, agora desempenha um papel mais secundário, se é que existente. Normalmente estaria na linha da frente da preparação de uma reunião deste calibre, mas não se espera que desta vez isso aconteça, pelo menos com a análise que era comum.
Se existem dúvidas da perda de importância daquele órgão, o despedimento de mais de 1.300 funcionários do Departamento de Estado mostram-no bem. De acordo com o Financial Times, muitos deles faziam parte do setor que analisa a Rússia e a Ucrânia.
Além disso, Trump parte para esta reunião sem que o Senado lhe tenha confirmado um vice-secretário de Estado para os Assuntos Europeus. Tão pouco existe um embaixador nomeado para a Rússia ou a Ucrânia.
Esta vez será, então, forçosamente de Helsínquia. Mas achar que Trump vai abandonar a sua abordagem quase instintiva também é ser ingénuo. O próprio já deixou a entender que não sabe bem como vai entrar na reunião. “Posso dizer ‘muita sorte, continuem a lutar’, ou posso dizer ‘podemos fazer um acordo’”.
Veremos qual das versões será, ou se é preciso novo episódio de saúde inventado à pressa para tentar acabar com algo constrangedor.
