Produção russa de gasolina estará atualmente cerca de 20% abaixo da procura interna devido aos ataques ucranianos, enquanto a atividade das refinarias — o volume de petróleo bruto processado — se encontra em mínimos de vários anos
Quase todas as 83 regiões da Rússia enfrentam escassez de gasolina ou perturbações no abastecimento, segundo uma análise da CNN. Muitas bombas de combustível estão a impor limites às vendas, enquanto o governo russo tenta responder a uma intensa campanha de ataques com drones ucranianos contra refinarias.
A crise dos combustíveis, que começou por se agravar na Crimeia ocupada pela Rússia e levou à declaração do estado de emergência e à proibição total da venda de combustível a particulares em 21 de junho, está agora a estender-se pelos 11 fusos horários da Rússia.
A CNN analisou declarações oficiais de autarcas e governadores, bem como notícias da imprensa nacional e regional, e concluiu que mais de 50 das regiões internacionalmente reconhecidas da Rússia comunicaram oficialmente problemas no abastecimento. Há ainda relatos não oficiais de perturbações em praticamente todas as restantes. Pelo menos três regiões, entre elas Irkutsk e Transbaikal, no leste da Rússia, declararam um "estado de alerta reforçado", um nível abaixo do estado de emergência.
"Estamos atualmente a assistir a algumas carências, embora não sejam críticas", afirmou o presidente russo, Vladimir Putin, numa longa entrevista à televisão estatal no domingo, integrada no que pareceu ser uma ofensiva de comunicação organizada à pressa para tranquilizar a população e transmitir a ideia de que tudo está sob controlo.
Menos tranquilizadora foi, talvez, a sua afirmação de que a tarefa mais urgente consiste em "aumentar rápida e significativamente a produção de sistemas de defesa antiaérea", um sinal claro da crescente vulnerabilidade da Rússia aos ataques ucranianos.
Não é a primeira vez que a Rússia enfrenta uma escassez generalizada de combustíveis. Em agosto do ano passado, um aumento dos ataques ucranianos afetou o abastecimento em várias regiões, mas especialistas afirmam que a situação atual é muito mais grave.
"A principal diferença é a dimensão e a persistência dos ataques", explica Sumit Ritolia, principal analista de abastecimento e modelização de refinação da empresa de inteligência de matérias-primas Kpler. Outro fator é o trabalho contínuo de reparação das refinarias atingidas durante a campanha do ano passado.
Ritolia estima que a produção russa de gasolina está atualmente cerca de 20% abaixo da procura interna devido aos ataques ucranianos, enquanto a atividade das refinarias — o volume de petróleo bruto processado — se encontra em mínimos de vários anos.
"Neste duelo entre quem repara e quem ataca, o equilíbrio está a mudar", afirma Sergey Vakulenko, que trabalhou durante 25 anos na indústria russa de petróleo e gás e é atualmente investigador sénior do centro de estudos Carnegie Russia Eurasia Center, sediado em Berlim. Segundo o especialista, a Ucrânia aumentou não só a frequência dos ataques nas últimas semanas, como também o número de drones utilizados. "A capacidade de resistência da indústria petrolífera russa está a ser perigosamente levada ao limite", escreveu recentemente.
Cresce o descontentamento
Também a resistência da população russa está a ser posta à prova. A análise da CNN concluiu que bombas de combustível em todo o país estão a impor limites às compras, enquanto surgem páginas na internet que ajudam os condutores a encontrar postos onde ainda há combustível disponível. À medida que as filas aumentam, cresce também a tensão.
Um vídeo publicado nas redes sociais na última semana mostra duas mulheres em Moscovo envolvidas numa discussão com insultos sobre quem tinha chegado primeiro à fila. "A fila é por ordem de chegada", grita uma delas, chamando "idiota" à outra.
Na cidade russa de Krasnodar, no sul do país e junto à Crimeia, outro vídeo mostra um homem a encher um recipiente colocado na bagageira do carro, enquanto duas mulheres o repreendem por violar as regras. Várias regiões russas proibiram entretanto o uso de grandes bidões com capacidade para cerca de 20 litros para evitar o armazenamento excessivo de combustível.
É impossível medir a dimensão do descontentamento público, mas o próprio Putin mostrou preocupação suficiente para avisar, na entrevista de domingo à televisão estatal, que os ataques procuram "criar incerteza entre nós ou, melhor ainda, provocar uma cisão na sociedade russa".
As autoridades também estão a reprimir quem tenta lucrar com a crise. Na cidade siberiana de Irkutsk, a polícia multou quatro pessoas na segunda-feira por alegadamente revenderem gasolina no mercado negro a preços inflacionados, segundo o Ministério do Interior regional. Num dos casos, um jovem de 20 anos foi apanhado numa operação policial depois de agentes anticorrupção se fazerem passar por compradores. Alegadamente vendia combustível por cerca de quatro vezes o preço médio nacional.
O governador de Irkutsk, uma das regiões mais afetadas, declarou um "estado de alerta reforçado" para estabilizar a situação e proibiu a venda de combustível em recipientes, exceto aos serviços de emergência.
"É uma espécie de espada de dois gumes. Afeta o estado de espírito da população e também a inflação", afirma Alexander Kolyandr, investigador sénior do Center for European Policy Analysis.
A ansiedade aumenta em Moscovo
Os meios de comunicação russos noticiam que algumas pessoas esperam até 18 horas nas filas para abastecer. Na internet multiplicam-se os memes, incluindo um que mostra pessoas a montar mesas com bebidas e cachimbos de shisha ao lado dos carros parados.
Até em Moscovo se vivem cenas pouco habituais, com filas de automóveis e camiões junto às bombas de combustível. Alguns condutores esperam durante horas sem garantia de conseguirem abastecer.
A ansiedade na capital russa aumentou depois do ataque com drones lançado pela Ucrânia a 18 de junho, o maior desde o início da invasão em grande escala da Rússia e o segundo a atingir, em menos de uma semana, a refinaria de Kapotnya, em Moscovo. Uma tentativa de interceção provocou uma grande explosão que arrancou o teto de um depósito de combustível.
A 23 de junho, uma funcionária de uma bomba de combustível no centro de Moscovo disse à CNN que os camiões-cisterna continuavam a chegar e a entregar combustível conforme previsto. Descreveu o "alarido" e as filas como "completamente inúteis", atribuindo-as às compras motivadas pelo pânico.
Vakulenko, do Carnegie, considera, porém, que os problemas de abastecimento em Moscovo são reais, devido não apenas aos ataques de junho, mas também às sucessivas ofensivas contra refinarias das regiões vizinhas que abastecem a capital.
Ritolia, da Kpler, sublinha que estas perturbações surgem "no início da época de maior procura", que normalmente se prolonga até setembro, quando as crianças regressam à escola.
Ao longo da última semana, vários condutores em Moscovo disseram à CNN que andaram durante dias à procura de gasolina. Uma automobilista de 27 anos, que preferiu não ser identificada, contou na segunda-feira que esperou duas horas numa fila. Perguntou à funcionária da caixa se existia racionamento e foi informada de que essa era informação confidencial, antes de lhe ser revelado que cada bomba decidia autonomamente as suas regras.
"Espero sinceramente que tudo melhore e que isto acabe. Estava a planear viajar pela Rússia este verão, preciso de ir visitar a minha avó. Espero que a situação estabilize", afirmou.
As opções da Rússia estão a diminuir
O governador da região de Leninegrado, Alexander Drozdenko, resumiu a situação numa mensagem publicada no Telegram: "Não há motivo para pânico. Mas também não há motivo para demasiado otimismo."
Segundo especialistas ouvidos pela CNN, a Rússia ainda dispõe de instrumentos para enfrentar esta crise, mas as opções estão a reduzir-se.
No domingo, Putin enumerou várias medidas em preparação, desde a redução dos períodos programados de manutenção das refinarias até à possibilidade de proibir as exportações de gasóleo e aumentar as importações. A Reuters noticiou na quarta-feira, citando duas fontes, que a Rússia começou a comprar gasolina à Índia, numa inversão significativa do fluxo habitual, em que refinarias indianas serviam de válvula de escape para o petróleo bruto russo perante as sanções internacionais.
A Rússia poderá também estar a ponderar autorizar a comercialização de gasolina de menor qualidade para aumentar a oferta, avançou esta semana o jornal económico Kommersant, uma medida que comporta riscos para os consumidores.
"Os carros novos não gostam de gasolina de má qualidade", afirma Kolyandr. "Por isso, por onde se olhe, é a população quem paga a fatura."
A comunicação do governo é igualmente considerada crucial devido ao impacto das compras motivadas pelo pânico. Se conseguir estabilizar o abastecimento e acalmar a população, poderá ocorrer uma "normalização", em que as pessoas percebem que a escassez não é tão grave como receavam e reduzem as compras, explica Janis Kluge, investigador sénior do Instituto Alemão para os Assuntos Internacionais e de Segurança.
O vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, garantiu na quarta-feira que o mercado russo está "totalmente abastecido" tanto de gasóleo como de gasolina.
Mas, se os ataques ucranianos continuarem ao ritmo atual, essa normalização poderá nunca acontecer. E os riscos económicos de uma inflação mais elevada e de uma quebra do consumo devido à escassez de combustíveis surgem no pior momento possível.
Os preços do petróleo, que dispararam durante os primeiros meses da guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, estão agora novamente a descer, fechando uma janela de oportunidade para a Rússia utilizar o aumento das receitas das exportações para reduzir o crescente défice orçamental. Ao mesmo tempo, a economia russa já dá sinais de estagnação, apesar do aumento contínuo da despesa com a defesa.
Na reunião de política monetária de quarta-feira, o banco central russo reduziu as elevadas taxas de juro em apenas 0,25 pontos percentuais, afirmando que as pressões inflacionistas voltaram a aumentar, em parte devido a "uma contração temporária da produção de combustíveis rodoviários".
Ainda assim, com Putin a reiterar esta semana a sua reivindicação maximalista sobre o Donbass e sobre a "Novorossiya" — termo utilizado pelo presidente russo para designar as regiões ucranianas de Zaporizhzhia e Kherson —, Kolyandr considera que o cenário mais provável a curto prazo é uma escalada militar.
"Do lado ucraniano faz todo o sentido intensificar a ofensiva, porque a estratégia está a resultar. E, do lado russo, quanto mais cedo escalarem, mais cedo poderão resolver a questão, porque o dinheiro está a acabar e a paciência da população provavelmente também."
*Zahra Ullah, Clare Sebastian, Anna Chernova, Katharina Krebs, Ana Archen e Oliver Sherwood contribuíram para este artigo
